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SETE SEGUNDOS

SETE SEGUNDOS

Esta sou eu: Alice. Uma mulher de quarenta e um anos, há vinte casada, uma imbecil sonhadora capaz de acreditar no maldito príncipe encantado. Vivi todos os momentos da vida como se fosse o último, mas vinha sempre o dia seguinte, a hora seguinte, o minuto seguinte, então tinha de fazer algo que marcasse novamente e nunca era o suficiente.
Sempre fui assim conquistava meus devaneios a qualquer custo, eu era suficientemente capaz de arrebatar tudo o que essa incoerente ambição ostentava, às vezes era até necessário utilizar a inteligência, usufruir da intelectualidade, mas, era mais fácil manipular a mente dos outros, dizer o que as pessoas queriam ouvir e suavemente introduzir no meio das palavras as minhas vontades, persuasivamente, até fazer com que as pessoas sentissem incrustado na mente o dever de me satisfazerem.
Que ironia do destino, com toda essa capacidade conspiratória nas mãos, e, toda essa facilidade em exercer o domínio sobre os outros me encontro aqui, com a cidade aos meus pés, com os ventos ovacionando meus compridos cabelos negros  no vigésimo quinto andar, totalmente nua e com os meus mamilos arrepiados duros como meu coração raivoso.
Hoje passei o dia todo escolhendo um presente de aniversário para o meu marido, completamos hoje vinte anos de bloqueio de personalidade singular.
Eu o desejei durante toda a minha juventude, mesmo enquanto o namoro entre ele e minha irmã Rebeca. Isso durou seis anos. Até que consegui fazer minha irmã surpreender-nos transando na cama da mamãe. Ele ficou desesperado e me agrediu com palavras inóspitas, mas mesmo assim eu o desejava, pois para mim era o amor da minha vida. Rebeca calou-se a mim desde então.
Um ano depois me casei com ele. Bento era mal humorado e não gostava de carinho e assim mesmo conduzi minha vida ao seu lado.
Tudo o que Bento mais queria de mim era um filho, ele dizia não se sentir gente sem um filho. Era tudo o que sempre sonhou e por vinte anos não consegui. Tratamentos médicos, promessas, exorcismos, mas nada adiantou. Hoje acho que ele se cansou de tanto desejar um filho, pois, há quase dez anos ele nem toca mais no assunto.
Minha irmã nunca mais falou comigo. Na verdade, eu não a via há vinte anos, desde que me casei. Nunca mais nem ouvi falar dela, mesmo porque, nunca me interessei em saber sobre.
Hoje pela manhã, Fernanda, uma antiga amiga de infância, parou-me, enquanto eu fazia compras na feira, e contou-me sobre a doença do filho da minha irmã, o garoto estava com leucemia.
Essa vida é tão louca. Eu nunca morri de amores pela Rebeca, mas, nunca a desejaria algo assim. Imagino o quanto ela deve estar sofrendo. Pensei até em visitá-la, pedir perdão, mas como eu disse antes, o quão irônico é esse maldito destino.
Cheguei em casa com as compras nas mãos. Guardei-as. O remorso por Rebeca na mente dilatava meu cérebro. Fui à sala encontrar Bento, ele não estava. Fui ao quarto e ele não estava, mas ali havia algo dele, um envelope. Um bilhete. A minha morte.

Alice,
atrás de quanta mentira vivemos durante todos esses anos. Não devias ter me tirado dos braços do amor, assim como o fez há vinte anos atrás.
Tudo foi um grande erro e há nove anos eu redescobri aquele amor em minha vida. Confesso que fui covarde em só agora assumir esse fato, porém, antes tarde do que nunca.
Parto por motivo de força maior, meu filho de nove anos tem leucemia e ele precisa de mim.
Perdoe-me e seja feliz.

Pensei em cortar meus pulsos, mas eu morreria lentamente e durante a minha agonia
eu pensaria nele e essa se fazia a última coisa do meu querer.
Então, subi ao terraço do prédio onde morávamos e me comprometi ao encontro da morte.

Porquê você vai se matar, Alice, isso resolve o seu Problema?
Não, não resolve.
Mas, faz de mim vencedora. Se eu não vou viver ao lado dele, eu o obrigarei a me carregar para sempre em sua mente.

Todo esse inferno psíquico torturou  Alice por sete segundos, até o encontro do seu crânio com o asfalto.
Todas as reminiscências, as loucuras enfáticas e o poder de persuasão da mulher escorreram avenida abaixo. Um gatinho alimentou-se das memórias de Alice.
Estirado no chão, o cadáver segurava com força o bilhete que consagrava a vitória da sua besta competição consigo mesmo.

“Na vida não é novidade morrer,
Mas também não é novidade viver.
Não revelarão
      a causa desta perda
nem a corda
              nem o punhal suicida”
Talvez
       Se não morássemos em um apartamento
eu não teria razões
para saltar do vigésimo quinto andar
Mas teria razões para cortar as veias.
Escuta,
não esconda meu cadáver da tua mente
“Faze cair sobre a tua cabeça a avalanche da terrível palavra”:
Derrota!
E cada um dos teus músculos, Bento, como um alto-falante gritarão:
“Ela está morta, morta, morta!”

E o teu remorso eterno exaltará mais uma conquista minha.



Clebber Bianchi
Enviado por Clebber Bianchi em 20/11/2007
Código do texto: T744494
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Sobre o autor
Clebber Bianchi
Taubaté - São Paulo - Brasil
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