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A casa de um prato só

A água fervia no fogão a lenha. A madeira queimando estalava nervosamente.
Rita alimentava o fogo, desanimada, entristecida. Não havia muita coisa a ser preparada. Talvez fizesse um mingau ou cozinhasse os ovos que havia ganho do vendeiro.
Seu prato, o único que tinha, estava preparado. Gostava de comer nele, se sentia importante.
Disseram a ela que era uma louça muito cara. Os meninos não ligavam. Tinha medo de dar na mão deles. Podiam quebrar. As vezes comiam nele, mas ela ficava lá, de olho. Logo que terminavam, recolhia, lavava e guardava enrolando num paninho.
Jerônimo estava demorando ----pensou ela.
Já tinha escurecido. Prometera que não chegaria muito tarde dessa vez. Era noite de natal, traria alguma coisa para as crianças. Estavam lá fora brincando.
Não queria ter tido tantos filhos, mas Jerônimo não se cuidava. Coitada, muito bobinha. Paria e logo pegava barriga de novo. Dos seis que nasceram, se foi a única menina. Gabriela, tadinha. Era muito doente. Não tinha como vingar. Besteira ficar matutando agora. Melhor saber que é natal. Cuidar do fogo. Tirar o prato da mesa, os meninos podem vir de repente e estabanados como são.
Será que Jerônimo vai fazer isso de novo? Saíra logo cedo, nem se despedira dela. Ele não costumava sair cedo. Vai ver tinha algum bico pra fazer, por isso prometera trazer alguma coisa para os meninos. Deve ter perdido a lotação.
Não tinha ido de bicicleta, era longe decerto. Ela era velha. Sem freios. Tinha medo.
Mas sempre saía de bicicleta, mesmo que não fosse perto.
Olha a panela, já tá fervendo. Tinha que cozinhar os ovos. Dava certinho, um para cada. Que  bom, assim não dá briga. Os meninos estão vindo, olha a bulha deles.
Vou fazer um mugunzá com o fubá. Só o ovo é pouco.
Os meninos entrando, olhando o fogão, mexendo no fogo. “Tira essa mão daí menino, vai se queimar “.È ovo. A mãe vai cozinhar ovo.” “Pronto. Já viu, agora sai , depois eu chamo”.
E Jerônimo que não vem, vai voltar tarde com a mesma desculpa de sempre. Chega batendo na porta. Mãe. Mãe, abre aqui. Mesmo que  eu não abro, os meninos vão e deixam ele entrar. Muito apegados ao pai.
Não vou esperar. Azar dele. Deve comer alguma coisa na rua.
“Olha, um pra cada um,  não joguem a casca no chão".
Barulho lá fora. Deve ser ele chegando. Não, é o seu Batista. Chega seu Batista, quer provar um mugunzá? O Jerônimo ainda não chegou, mas deve estar vindo aí. Não obrigado D. Rita. A prosa é rápida. Eu sei que o Jerônimo não tá. Vim trazer um recado dele mesmo. O que é, conte logo seu Batista. Como vou dizer pra senhora. Ele foi embora. Pediu pra mim contar só quando ficasse noite. É coisa de bastante tempo. Disse pra não se preocupar. Mas o que faço seu Batista? As crianças. Olha D. Rita, se precisar de alguma coisa... A gente não pode ajudar muito, mas o que tiver no alcance. Bom, vou indo. A Maria tá me esperando. Vamos pra casa dos irmãos dela. Feliz natal pra senhora e pras crianças. Noite.
E agora? Não podia ter feito isso. Assim, avisando quando já tinha ido. Tinha que ter conversado primeiro. Ver como ficaria. As crianças miúdas.
Os dois mais velhos de olhos arregalados, entendendo, mas silenciosos.
Os pequenos comendo no prato. Era pra comer na panela mesmo. “quem mandou pegar? Cuidado, tá na beirada da mesa, vai cair. Segura. Não. Olha só que fizeram. Espatifou tudo.”
Os cacos no chão, branquinhos. “tem concerto mãe?” “não filho, tem não. olha pra não pisar nos cacos. Viu? Não disse? Sai daqui, que vou limpar”.
A louça branquinha, mesmo quebrada ainda era bonita. Faz lembrar Gabriela, tão linda. Judiação. Iria guardar. Ficar de lembrança.
Agora ficara sem prato e sem marido. Mas Jerônimo ainda volta. Não ia ter coragem de ir embora assim. Aquele monte de filhos. Foi trabalhar, e quando voltasse as coisas podiam melhorar.
As coisas sempre melhoram. E ele sempre volta.
O prato não. Acabou. Nunca mais teria um igual. Ganhara de uma patroa granfina, mas ela morreu. Agora tudo quebrado. Tanto cuidado pra nada.
Mas Jerônimo volta. Logo ta ele batendo na porta. Mãe. Mãe. Os meninos correndo abrir. A algazarra. Iam fazer festa. Bem que podia trazer alguma coisa pra eles. Quem sabe ele traz alguma louça, uma bem branquinha. Acho que mês que vem. Trabalho grande é sempre de um mês. Ele levou todas as roupas. Mas mês que vem ele tá batendo aí. Tá sim.





FIM





 
Márcio José
Enviado por Márcio José em 22/11/2005
Reeditado em 22/11/2005
Código do texto: T74722
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Sobre o autor
Márcio José
Curitiba - Paraná - Brasil, 48 anos
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Márcio José