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Mulher ou Borboleta

         
MULHER OU BORBOLETA
                                                                                                                       
       Tarde de primavera, os jardins das residências vicejavam em flores.  O perfume das rosas, jasmins ou gardênias, era um irresistível convite àquela pequenina e frágil borboleta, tão comum, sem coloridos, encontrada em qualquer mata nativa. Verdadeira caipira de nossa mata atlântica. Uma digna selvagem da fauna brasileira, integrante do nosso meio ambiente e sujeita as normas da sociedade contemporânea.
      Levada pelo vento da esperança, levantou vôos mais altos com a intenção de obter uma vida melhor e, como as folhas secas, foi arrastada por estradas de terra até chegar na cidade que sempre foi presença obrigatória de todos os seus sonhos. Ali estava a cidade diante de seus olhos, a sua espera.
       Maravilhada com as casas suntuosas de enormes jardins que, como as praças, estavam repletos de grandes flores, bem cuidadas e exalando perfumes inebriantes de seus néctares, parecendo-lhe um verdadeiro manjar dos deuses, à sua inteira disposição, extasiou-se por alguns momentos. A paisagem superava em beleza, todas aquelas que já tinham lhe visitado em sonhos.
       Deslumbrada, hesitou por instantes, até decidir-se à qual jardim faria sua primeira visita. Feita a escolha, alçou vôo em sua direção, afinal de contas havia viajado bastante e a fome já era sua companheira. Mal havia iniciado sua trajetória e uma forte corrente de ar, ocasionada pela passagem de um ônibus em alta velocidade, jogou-lhe contra o poste, causando-lhe alguns arranhões. Refeita do susto, cautelosamente, após olhar em todas as direções, partiu em busca de sua refeição. Sem percalços, acabara de aprender sua primeira lição de sobrevivência dentro da cidade.
        A partir daquele momento, fez da gulodice a sua razão de vida porque, diante do sortimento de néctares à disposição, era impossível não experimenta-los um a um. Quando não mais conseguiu ingerir, sequer uma gota, super satisfeita, acomodou-se debaixo de duas folhas, naquele mesmo ramo de gardênia e extasiada dormiu por toda a noite.
       Pela manhã, bem cedo, acordou com muitas cólicas, pensou e falou: Comi demais! Porém com tanta fartura, quem haveria de resistir?
     Eu e todos nós. - Interpelou-a um gafanhoto que passara a noite naquele mesmo ramo. - Certamente a pequena borboleta não é daqui?
     Não! Porque? - Respondeu-lhe.
     Continuando o gafanhoto falou: Ontem, quando cheguei aqui nesse ramo, você estava tão ávida deleitando-se nesse néctar que nem me percebeu. Fiquei preocupado, mas por não conhece-la, constrangi-me de chamar sua atenção. Acontece que as flores aqui na cidade são grandes, bonitas e ricas em néctar, por serem tratadas com adubos foliares, hormônios, fungicidas e muitos outros produtos químicos. Por isso é que estás intoxicada, com cólicas. Por aqui não se come até saciar a fome, se assim fazemos, corremos o risco de passar mal ou mesmo morrermos. É importante que você entenda isso, temos que comer pouco para que o organismo resista a carga de tóxicos que ingerimos. Despediu-se da borboleta, deu um salto e pôs a bater suas asas, indo embora.
       A borboleta havia recebido sua segunda lição de sobrevivência na cidade.
       Depois que melhorou da intoxicação, atenta as duas lições recebidas, alçou vôo e foi cautelosamente visitar outras praças e jardins. Ao adentrar numa praça, foi brutalmente agredida por um grupo de pardais que, disputando-a, acabaram por atingir uma de suas asas. Sabiamente, por pavor ou apenas por instinto, deixou de bater as asas caindo bruscamente no chão. Ali, misturada à folhagem seca, permaneceu inerte e prendeu a respiração o quanto pôde. Como não tinha colorido, os pardais não conseguiram localiza-la naquele monturo de folhas e acabaram por desistir, saindo em disparada em busca de novas presas.
       Muito abalada, com uma asa mutilada, levantou-se lentamente, dirigiu-se até uma gota d’água que repousava sobre uma folha ainda verde e lavou seu ferimento. Ainda estava se recuperando do susto e agressão quando, saindo debaixo das folhas secas, um grilo perguntou-lhe: Você não gosta de sua vida? Se continuar andando assim, nessas praças, totalmente desprevenida!... Tome muito cuidado!
      Então a pequena borboleta contestou: Mas senhor grilo, eu sou tão pequena e feia que nunca, anteriormente, um pássaro havia me atacado! Aliás, nem sei porque isso aconteceu!
      Notando que ela não era da cidade, o grilo achou por bem orienta-la para que não sofresse novas agressões: Pois é pequena borboleta, aqui na cidade, os pássaros não podem escolher suas presas, simplesmente têm que pegá-las, a primeira que avistem, caso contrário, não sobreviverão. Por aqui não existem insetos suficientes para saciarem as necessidades dos pássaros, eles precisam vencer uma competição muito árdua, é questão de sobrevivência. Os insetos, em sua maioria, são eliminados pelos produtos químicos e pela poluição do ar.  Por isso é comum observar-se os pássaros alimentando-se de restos de rações animais e do próprio homem.
       A borboleta ensaiou um pequeno vôo desequilibrado pela falta de parte de uma de suas asas, agradeceu e despediu-se do grilo. Esboçou um vôo mais longo e finalmente conseguiu sair daquela praça, mais esperta e arisca do que nunca. Havia aprendido sua terceira lição.
       Na manhã seguinte, mal o sol enviara seus primeiros raios de luz, a pequena despertou com uma forte dor em uma de suas frágeis patinhas. Avistou um verdadeiro exército de formigas subindo no ramo do arbusto onde dormira aquela noite. Sem tempo a perder, bateu fortemente sua patinha contra o ramo e num esforço muito grande, consegui desvencilhar-se da formiga e sair voando rapidamente até a copa de uma grande árvore, onde pousou para descansar e recuperar-se. Havia perdido uma de suas patinhas. Abriu as asas e deixou que os raios solares lhe aquecessem fornecendo-lhe energia. Aliás, precisava de muita energia para continuar seu caminho.
       Subitamente, uma libélula pousou em uma folha vizinha e disse-lhe: Olha pequena borboleta, você não pode dormir em pequenos arbustos por aqui. As formigas logo pressentem a sua presença e te atacam impiedosamente.
      Transtornada, a borboleta respondeu: Mas eu nunca tinha sido atacada por uma formiga sequer, lá na roça onde vivia!
      A libélula percebendo que a borboleta era inocente, ponderou: Acontece que na cidade não tem alimento suficiente para as formigas. O solo e as plantas estão comprometidos devido ao uso indiscriminado de herbicidas, fungicidas, bactericidas, etc... Por isso atacam qualquer outro animal em
busca de suas proteínas. Esteja sempre atenta minha companheira! Tchau....
       Era sua quarta lição de sobrevivência, para que se conscientizasse de onde estava.
       Tomada por total insegurança, perguntou-se: Aonde eu vou dormir? Não sei mais voltar para a roça! Estou perdida! Fiz essa aventura em busca de uma vida melhor, para encontrar novos amigos e a felicidade! Mas o que achei? Todos parecem estar correndo, sei lá pra onde e porque? Ninguém se entende? E a felicidade? Onde estará? Sem opção tomou a única decisão que lhe parecia segura. Alçou um vôo bem alto e arremeteu-se pela janela de um prédio ao lado da praça. Entrou na sala e pousou no canto de uma sanca.  Era fim de tarde e a borboleta resolveu descansar em paz e passar uma noite tranqüila.
       Ao acordar com fome, devido ao avançado da hora, esfregou os olhos com as patinhas dianteiras, levantou vôo e rumou para a praça em busca de néctar, quando: Plaft ! Chocou-se violentamente contra o vidro da janela que havia sido fechada na tarde-noite anterior, quando a secretaria daquele escritório, encerrou o expediente.  Mal sabia a pequena borboleta o que ainda enfrentaria! Era sábado e o escritório só reabriria na segunda-feira.
       Confinada no escritório, sem água, sem alimento, restava-lhe enfrentar a situação e resistir. Ainda mais que os escritórios modernos só têm computadores e diplomas pelas paredes, carecendo de vasos enfeitados por flores.
       Uma pequena aranha que se pendurava num finíssimo fio de sua teia, com voz sussurrada cumprimentou-a e, em seguida, retornou ao teto.
       A borboleta sabia que a aranha, embora pequena, apenas aguardava que as forças lhe faltassem para ataca-la. Então bravamente resistiu até a manhã de segunda-feira.
       Por volta das 7:00 h, uma moça muito bonita, entrou no escritório. Puxou as cortinas que estavam entreabertas até os cantos da parede e escancarou as vidraças. Uma forte corrente de ar entrou no escritório e derrubou a borboleta da sanca. Sem forças suficientes que lhe permitissem voar, andou vagarosamente, sobre o tapete, até um raio de sol que se fez presente. Abriu as asas e ficou aguardando a renovação de suas energias. Esperançosa e ansiosa para voltar à praça aonde as flores guardavam o néctar de sua vida, a borboleta foi avistada pela bela moça que, abaixou-se, pegou-a pelas asas, foi até o banheiro, colocou-a no vaso sanitário e acionou a descarga.
        Com a quinta lição a pequena borboleta aprendeu, antes de ir para os “quintos do inferno”, que não poderia confiar em ninguém e nem nas aparências. Entendeu que todos que dela se aproximaram, alertando-a quanto aos riscos pelos quais passava, a bem da verdade não tinham nada a tirar dela. Portanto, você mulher, tal qual a pequena borboleta, cuide-se, pois o homem é o maior predador da natureza.  Portanto, também terás que enfrentar, muitas barreiras e dificuldades, da sociedade atual, que exigem aprendizado, segurança e confiança em si próprio.
       
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 23/11/2005
Código do texto: T75444

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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