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Zelinha e a escuridão

O passatempo predileto de Zelinha, a solteirona, no presente momento
e já de algum tempo, é jogar xadrez com o Bilú as quartas e sábados
das duas às cinco horas. Já nos demais dias da semana e no mesmo
horário, ela recebe a agradável visita de sua vizinha e colega de infância, Mercedes. Nesses encontros elas recordam da infância e da
juventude vividas na mineirinha e aconchegante Santo Antônio dos
Indecisos, para conversar, jogar baralho e principalmente assistir
religiosamente ao programa de TV "Vale a Pena Ver de Novo", no qual
elas revivem- pelas tramas desenvolvidas- as alegrias e as tristezas da
Terra natal como fiel retrato de suas vidas ou histórias.

Bilú, alfaiate aposentado, já na casa dos sessenta e até hoje ao que se sabe, indefinido genéricamente pois jamais fora visto namorando ou
vivendo com alguma mulher. Será ele misógamo? Apesar de ser considerado do tipo "boa praça" como popularmente de diz, fala-se dele por nunca ter prestado serviço no Batalhão do cupido. Mas isso
não importa.

Zélia Maria dos Anjos, a Zélinha, de origem humilde, muito sonhadora,
chegara mesmo a ser eleita "Miss Santo Antônio" e até namorar com
o filho do Prefeito, objeto do desejo e dos sonhos das gatas daquela
pequena cidade. A vida pode ser um imenso lago azul ou um furioso e
agitado oceano. Zélinha construiu sonhos impossíveis e por essa ambição, colheu o fruto amargo do desencanto e da frustração. Então, aos trinta anos tomara a decisão de comum acordo com a conterrânea e amiga Mercedes, de ir tentar a sorte no Rio de Janeiro.

Algum tempo depois partiram e instalaram-se na casa de parentes moradores no suburbio do Rio. Tempos difíceis. Mercedes conseguiu
trabalhar, fazer um curso de enfermagem e se ajeitou na área de
saúde. Zélinha, empregara-se numa fábrica de tecidos, no setor de
confecções. Decorrido certo tempo de trabalho, a dupla conseguiu
adquirir-com as economias suadamente guardadas- uma pequena
casa numa rua estreita e sem saída, como sem saída eram suas vidas,
até então. Uma coisa era comum na vida delas, a falta de sorte no
amor. As tentativas houveram, mas todas elas foram em vão.

Hoje, muitos e muitos anos passados, Mercedes caminha célere para a
casa dos setenta, irreconhecível e distanciada do vigor e dos belos
traços da juventude, outrora vibrante. Zélinha, na mesma proporção
da descrição da amiga e mais que isso, por motivo de ter sido assaltada algumas vezes, adquiriu a síndrome do pânico noturno e,
sua vida se passa sómente entre o amanhecer e o anoitecer, na
mesma rua estreita e sem saída, até hoje, guardada a sete chaves.
Na solidão, resta-lhe sonhar todas as noites com o "Besame mucho"
que nunca vingou. Talvez sua rígida postura de pureza e também a
formal seriedade mantida, tenham assustado os pretendentes, portadores de uma visão mais moderna e liberal acerca das relações
no amor. Hoje, solidão e desencanto lhes fazem companhia.

Zélinha fechou a janela da vida para o sol do amor. Agora não tem volta. Apenas lhe resta acender as luzes da casa do medo e ir dormir antes que a noite venha e até que do último sono, um dia não mais
desperte. Nesse dia será então efetuado o derradeiro movimento do
jogo, o xeque-mate do tempo!
jray
Enviado por jray em 28/11/2007
Reeditado em 01/05/2009
Código do texto: T756991
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Sobre o autor
jray
Três Rios - Rio de Janeiro - Brasil, 76 anos
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