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Ecos do Ocaso


Eu vivia o amanhecer dos meus dias. Meus olhos eram voltados, tão somente, para o verde das plantas, o branco das flores dos cafezais e seu perfume. A poeira que nos banhava o dia todo não me incomodava em nada, estava ali já a oito anos, fazia parte do nosso corpo e do nosso pulmão.
Nas horas de folga eu podia brincar com ele. Ele era apenas um raio de luz matinal. As pernas mal sustentavam o corpo em seus primeiros e vacilantes passos. Valter mal completara seu primeiro aniversário, mas era meu parceiro para brincar com os carrinhos feitos de carretel de linha, enegrecidos com carvão, para que cantassem como um carro de boi de verdade. Os bois eram feitos de chuchu que recebiam pernas de espinho de laranjeira e às vezes umas favas como pés. A brincadeira consistia em eu fazer e organizar e ele desorganizar. Era a nossa diversão. Claro que apareciam as interferências, o que não faltava era irmão, maior, menor, de calças ou de saias. Até nosso pai uma vez nos interrompeu. Alto, forte e sisudo. Cravou seus olhos azuis nos meus e mandou lá de cima um “convite-pergunta-ordem”.
– Vamos ao açude pescar?
Pelo padrão educacional vigente, a resposta era única. Era proibido dizer não aos mais velhos. Olhei o meu pequeno parceiro e fiquei imaginando se ele me via como um gigante, assim como eu via meu pai. Achei um colo feminino para abrigar o pequeno e corri atrás do gigante, que já tomava o caminho do açude. Colocou em minhas mãos o caniço, que era composto de uma vara de mamona, um pedaço de corda de violão – não chegava a um metro– e um grande anzol enegrecido pela ferrugem, com um pedaço de bofe de boi a título de isca. As instruções foram breves.
– Imite uma pitanga caindo na água. A traíra te puxa para baixo e você a puxa para cima.
Iniciei o “plop-plop” da isca batendo na água, enquanto ele se afastava. Viajei nos círculos concêntricos feitos pelo anzol ao bater na água e me assustei com o “tchabum” do corpo do gigante se atirando à água há uns vinte metros, no mesmo momento em que a traíra abocanhava o anzol. Puxei-a para cima e fiquei admirando o brilho das escamas ao sol, até que ela, por tanto que se debateu, livrou-se do anzol e voltou à água. Joguei a vara sobre a moita de capim mais próxima e saí gritando.
– Papai, papai! Peguei uma! Peguei uma!
– É mesmo! E onde ela está?
– Na água.
Eu vi e me lembro, pois era raro. O sorriso brotou em seu rosto, mas, se você me perguntar que cor era, lhe respondo sincero: ele era amarelo.
Poderia dizer que foi como um destes balões de gás que, de tão cheio, explode, mas não foi assim, fui vazando aos poucos, como uma moringa de bico para baixo que precisa daquelas bolhas de ar para soltar a água. Voltei ao meu posto, mas não toquei no caniço, as emoções estavam completas. O calor do pleno, dava lugar ao frio do nada. O vácuo que se fazia dentro de mim, forçava a entrada daquelas bolhas que pareciam subir pelas plantas dos pés em direção ao meu peito. Explodiam deixando algo gelado. Por muito tempo ouvi o “plop”, não do anzol na água, mas do soluço da minha alma ao ouvir o explodir das bolhas.
Ouvi seus passos largos e pesados se aproximando, depositou ao meu lado duas grandes traíras dizendo:
- Para o sal do jantar.
Com tantas bocas para alimentar, ele só poderia estar pensando em comida, mas, para mim, o que contava era a emoção de ter um brinquedo animado, cheio de vida e que teve a liberdade de me procurar para aquele contato, fração de segundo que permanece na minha memória até hoje. Postou-se a alguns metros à minha esquerda e eu fiquei a olhar os dois peixes inanimados perdendo o brilho e a cor enquanto o sol os secava.
O silêncio reinou por todo o caminho de volta para casa. À noite, sob a luz amarelada da lamparina à querosene, minha mãe estendeu em minha direção o prato esmaltado com angu e feijão, coroado por um pedaço de peixe dourado na banha de porco. Voltei imediatamente ao momento do brilho das escamas ao sol e à vida que havia ali. Em silêncio, fiz com a cabeça um gesto de recusa e ela passou o prato ao próximo. Com o correr do tempo, fiz outras, mas aquela foi minha primeira greve de fome. No escuro do barraco, entre o ressonar dos irmãos, eu captava o cochicho dos dois:
- O que houve no açude que deixou o menino tão jururu?
- O “pamonha” deixou o peixe escapar.
- Você zangou com ele?
- Claro que não! É tão “boca-aberta” que ficou alegre porque o peixe fugiu.
- Então por que ficou tão macambúzio?
- Vai saber?!
Mergulhei na escuridão da noite e desliguei meus ouvidos. Tudo que existia eram aqueles dois momentos, os poucos segundos de contato com o irracional, mostrando a certeza do lutar pela vida e o diálogo dos racionais, que me ensinou que a vida está sujeita aos equívocos. Eu não estava à procura de um herói que me enchesse o cesto de peixes ou o prato de comida. Queria, tão somente, que alguém se desse conta do turbilhão de emoções que girava dentro de mim. Eternizei aqueles momentos que foram tão breves e saltaram da luz do sol e do escuro da noite para dentro da eternidade da minha alma acompanhando-me até hoje e, acredito que, para sempre.

Não passou muito tempo e lá estava o gigante e eu também, mergulhados no silêncio. Só que, desta vez, eu torcia para que, em seu rosto, aparecesse qualquer sinal de emoção, nem que fosse o tal sorriso amarelo, mas nada, não havia nada. Mediu o Valter, mediu as tábuas e dedicou-se ao trabalho, serrou e pregou. Depois, enquanto minha mãe chorava e revestia o esquife com aquele pano de cor horrorosa, ele fazia a tampa, impassível. Na hora em que suas manoplas depositaram ali o conteúdo a que se destinava, eu vi o gigante se curvar. Senti que os “plops” das bolhas da alma agora explodiam dentro dele. Perguntei-me, assim como pergunto até hoje: “Em que estado fica uma alma enquanto constrói a mortalha do próprio filho?”.
Esticar as canelas deixou de ser uma simples expressão. Tornou-se literal. Meu parceirinho, ao dizer adeus ao sol, esticou não só as canelas, mas o corpo todo e o resultado é que seus pés ficaram de fora do caixão. Senti que o gigante registrava na alma as fissuras do momento, uma vida sem continuidade e um esquife fora da medida. Imprevidência. Deixei de olhar aqueles pequenos pés roxos e voltei para nossa laranjeira e, tanto ali, como embaixo de todos os pés de café onde eu me enfiava para trabalhar, por semanas seguidas eu sentia a presença do meu parceirinho.
Subiu o sol do meu viver, as emoções da infância foram substituídas pela chegada dos hormônios, passaram a exigir novos horizontes. Emoções vieram e se foram, no entanto, não galgaram um patamar duradouro. Lá pelo meio dia, o gigante já não era tão forte, dava sinais claros de que se aproximava o ocaso. Como um elefante que se prepara para o fim, também ele se afastou da manada. Perambulou de léu em léu, pouco ficou em sítios que poderia chamar de seu ou dos seus. Foi para seu último repouso, aliviado por não ter que fazer uma segunda mortalha. Deus o livrou disto, mas seu segundo filho a ser enterrado, Paulo, não se livrou de experimentar um esquife de tamanho menor. Recado do além ou mera imprevidência do serviço de limpeza pública?

O sol que queima meu tempo é testemunha de que eu me enchi ainda outras vezes com todas as emoções que tem no mundo. Amor cego e ódio irracional conviveram por aqui. Às vezes, lado a lado. Outras vezes sobrepostos, misturados um ao outro como uma combinação de sabores doce e amargo. Estiveram solitários também, separados pelo tempo e, com o tempo, se foram. O ódio envolto no esquecimento e o amor em doces lembranças. Ah! As lembranças! São elas que mantêm um coração vivo, retardando a chegada do ocaso.

Eloy Fonseca
Enviado por Eloy Fonseca em 07/12/2007
Código do texto: T768820

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Sobre o autor
Eloy Fonseca
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 66 anos
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Eloy Fonseca