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PROBLEMA OU OPORTUNIDADE?


Aquele cheiro  vindo da cozinha, combinava bem com a fome que eu sentia naquela hora.
          Todo dia era aquele tormento. Chegava da escola às onze e quarenta com o estômago vazio sem nenhum resquício daquele café “ralo” que tomara às seis e meia da manhã.
O cheiro agora bem mais forte com minha proximidade da cozinha, vinha dos pastéis que a minha mãe acabava de fritar para ser entregue ao bar da esquina.
         Eu pegava a cesta com cem pastéis, meio tonta de fome, torta com o peso da cesta, pois  era magricela e comprida. Entregava os pastéis, recebia o dinheiro, voltava correndo,  a cesta vazia  não pesava  e a fome já era insuportável.
          Com o dinheiro recebido, mamãe comprava às vezes carne ou o que faltava para fazer o almoço, além de comprar também o material para nova remessa de pastéis
           Quantas vezes, eu, dentro dos meus nove anos de idade me perguntava intrigada: por que não comíamos  os pastéis (éramos oito pessoas), matávamos nossa fome e acabava de vez com aquele martírio?  Pergunta que nunca obtive resposta pois a fazia só para mim.
             Morávamos num barracão de quarto, sala e cozinha. Dormíamos todos no único quarto onde havia duas camas.
Eu, dormia com a minha mãe numa cama, e os outros seis se agrupavam como podiam na outra cama.
              Eu já havia percebido a preocupação da minha mãe, na hora que eu saia para a entrega  torturante dos pastéis. Ela, por detrás da porta, como que escondendo de mim, fazia o sinal da cruz. Era um pedido sim, para que o dono do bar ficasse com os pastéis. Era extremamente necessário! Aquele dinheiro era a salvação de todos os nossos problemas.
              Certa manhã, a rotina foi totalmente, horrivelmente quebrada! O dono do bar, aquele dia, não  podia ficar com os pastéis...(...). Entrei em pânico! Nem sequer  passou pela minha cabeça de que este fato poderia me trazer a resposta de que tanto esperava e a solução imediata para aquela minha terrível fome. Poderia matar meu desejo: comer pastel até....Mas, e aquele “sinal da cruz”? Eu já sabia o seu significado.... Será  que a minha mãe havia esquecido de fazê-lo ou o “seu”  Deus esquecera dela?  Qual seria a reação da minha mãe quando chegasse com aquela cesta entupida de pastel? Não! Isto não  poderia acontecer! Esse dinheiro era muito importante
Fiquei olhando aflita para aquela  cesta que já me era tão familiar e jamais imaginei que pudesse ficar ali, parada, sentindo aquele cheiro que combinava tanto com aquela minha  fome!
                  Precisava fazer alguma coisa e rápido! Andei mais um pouco sentindo que a rua se tornara pequena e com mais alguns passos eu estaria em casa...
                  Parei defronte à uma oficina mecânica que havia bem pertinho e olhando aqueles rapazes trabalhando , me ocorreu uma idéia: será que já haviam almoçado? Enquanto pensava ouvi uma voz saindo de dentro do galpão:_ oi menina o que é isto  na cesta? _São pastéis respondi quase engolindo as palavras.
_Quanto custa?
Eu era “esperta” e sabia que no bar era mais caro. O dono do bar pagava vinte cruzeiros pelos cem pastéis, portanto respondi imediatamente:_ vinte centavos cada!
_quero três, disse o moço, suspendendo o papel cor de rosa que cobria toda a cesta e com as mãos sujas de graxa retirava os pastéis e me entregava sessenta centavos.
Quando dei conta todos que estavam lá dentro do galpão já me rodeavam e cada  um retirava a quantidade que queria, pagando corretamente.
Em pouco tempo a cesta  se esvaziava e eu, atenta, recebia  o dinheiro , dava o troco como se isso fosse até natural e para minha surpresa fazia com muita habilidade.
Percebi também que não eram só  os rapazes da oficina que compravam. Os moradores da rua, vendo aquele “borbotão” de gente, aproximavam e como estavam acostumados a  comprar os mesmos pastéis por preço bem maior, começaram a pedir também alguns. Outros até traziam o vasilhame  para caber maior número.
Voltei para casa exausta pela tensão e muito atordoada com aquele “bolo” de dinheiro suado na mão ( o dono do bar sempre me dava uma nota de vinte cruzeiros).
Deveria contar a mamãe o acontecido? Será que ela iria desconfiar caso mentisse que o dono do bar ficara com os pastéis? Ela já estava aflita  com a minha demora, ficava sempre apreensiva com essa ida todos os dias no bar e eu nunca mentira para ela...e aquele “sinal da cruz”? Será que sabia realmente o seu significado?
Minha cabeça doía todo o meu corpo doía!
Sim, eu me orgulhava do meu gesto, apesar de, mais tarde esse acontecimento ter causado um “problema” e uma nova situação na vida da minha mãe: o dono do bar ( do qual nunca soube o nome) era um português educado, porém carrancudo e não havia gostado nada desse episódio pois perdera toda sua freguesia de pastel.
Com isto, mamãe passou a fazer pastéis por encomenda, e eu, descobri a minha grande vocação: VENDEDORA, profissão que até hoje eu exerço.  Se houve problema, foi para o meu crescimento e o começo de uma brilhante carreira de VENDEDORA!

         
Fato real
dezinha
Enviado por dezinha em 27/11/2005
Código do texto: T76912
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Sobre a autora
dezinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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