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O aposentado

O aposentado
 (1º lugar no VIII Concurso Literário da AMBEP  -  jul /1999)

   Edinésio chegou ao escritório às 7:15 como fazia há 35 anos. Era seu último dia de trabalho. Na verdade, só faltava limpar a gaveta maior, pois já havia ensinado todas as tarefas e macetes ao seu sucessor Borges. Apesar de ter feito muitos amigos no trabalho, suas pernas tremiam pela ansiedade de deixar o recinto e iniciar sua nova vida. Estava saturado daquela rotina diária, em frente aos monitores ligados às Bolsas de Valores de mais de 20 capitais. Seus dois filhos já estavam casados, dois netos de 5 anos já faziam algazarra no sítio onde a família toda (cerca de 14 pessoas) morava em boa harmonia. Seus 6 apartamentos alugados e o pecúlio mensal lhe dariam tranqüilidade adequada para sobreviver com o mesmo conforto atual. Amanhã mesmo iria começar a montar o desejado viveiro, para no próximo mês, enche-lo com os pássaros que apreciava. Também passaria a pescar no riacho de águas límpidas, a 2 km de distância da casa, para depois fazer um churrasco à moda indígena, regado a vinho branco. Como sobremesa, poderia escolher em subir numa jaqueira frondosa
(como fazia aos 8 anos de idade), numa mangueira, ou sem subir em nada, apenas esticar as mãos debaixo das goiabeiras.

   Ás 16:30, emocionado pela gentileza dos colegas (lhe deram uma bela TV de 29 polegadas), aproximou-se do Diretor Fagundes para abraça-lo pela última vez.

   - Como é Edi?  Não quer mesmo ficar mais uns dois anos conosco? Passaremos seu salário de R$ 8.000,00 para R$ 10.000,00 ! Depois deste tempo, quando tivermos adquirido o Robolsa (um robot que estava sendo criado para ser interligado às Bolsas), você poderá sair com uma pensão mais polpuda, fazer uma viagem pela Europa, ...

   - Agradeço muito sua gentileza, mas estou vislumbrando uma vida mais saudável para mim, em constante contato com a Natureza. A única bolsa com a qual vou trabalhar agora é a de carregar os apetrechos de pesca - sua voz rouca encheu o recinto.

   As gargalhadas sobrepujaram o som da música que tocava no fundo da sala.

   No dia seguinte, acordou às 6:30, disposto apenas a ler os jornais e revistas das quais era assinante mas não tinha tempo nem de ver as capas. Levantou-se, fez a higiene matinal e pela 1a. vez num dia de semana, tomou café  junto com os netos, que já estavam prontos para a escola. Quando engoliu o último biscoito com geléia, os meninos lhe pediram que os levassem à escola (apenas até que o carro do pai retornasse da lanternagem). Edi não podia negar este pedido aos seus parceiros de traquinagens. Quando retornou do engarrafamento de 2 horas, foi direto à cozinha procurar algo para molhar a garganta. Quando estava no segundo gole da boa laranjada, sua esposa Doris, lhe pediu para ir ao mercado comprar batatas, sal e macarrão, que ela não havia encontrado na mercearia da esquina. Após cumprir mais esta tarefa (30 minutos), guardou o carro na garage para evitar o desejo de mais alguém em lhe pedir algo mais longe.

   Sua nora mais nova (Dalva) lhe pediu para colocar um óleo nas dobradiças da porta do quarto, que rangiam mais do que correntes de castelo assombrado (bem ou mal, não sabemos). Depois de eliminar a gordura das mãos, sentou-se na varanda, saboreando o gostoso aroma do almoço que estava próximo.

   Após a deliciosa sobremesa de morango, assistiu o jornal na TV por 45 minutos, enquanto fazia planos para a parte da tarde. Neste momento, sua nora Telma lhe pediu para consertar a corrente da pulseira de estimação, que havia prendido na maçaneta da porta. Assim foi feito, depois de quase 30 minutos brigando com pequenos alicates e ter furado um dedo com uma traiçoeira chave de fendas.

   Quando estava chegando ao quintal, o sobrinho Afonso lhe pediu uma rápida ajuda para desempenar a roda traseira de sua bicicleta, que também apresentava problemas em 4 das 12 marchas que possuía. Foram mais duas horas de sujeira e dores nas mãos.

   Resolveu tomar um banho e colocar o pijama. Porém, teve de mudar de roupa quando Doris lhe lembrou para pegar os netos na escola às 17:00 horas e passar no mercado para trazer o peixe para o jantar. Ficou imaginando o cheiro que se espalharia no ambiente de seu carro.

   O cartaz na porta do escritório era visível a mais de 5 metros:

“PRECISAMOS de um experiente consultor para atuar junto às diversas Bolsas de Valores.
Salário inicial : R$ 3.000,00 . Transporte, refeição e saúde, por nossa conta.
Trazer documentos e xerox dos mesmos no horário comercial.”

   Quando Fagundes acabou de pregar o último percevejo, ouviu uma voz rouca e familiar às suas costas, impregnada de esperança e felicidade, que lhe perguntou :

- Posso começar hoje mesmo?

 
Haroldo
Enviado por Haroldo em 27/11/2005
Código do texto: T77278
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Sobre o autor
Haroldo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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