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Um homem de família

As galinhas cacarejando, os porcos fazendo aquele barulho estranho quando comem, gansos alvoroçados e nervosos (eles vivem assim). Tudo normal em uma residência agrária do interior.
São pessoas simples naquela casa. Gente que nunca viu outra coisa a não ser poeira, café torrado moído na hora, leite das tetas da vaca e silencio. Muito silencio.
Os moradores dos lugares mais afastados da área urbana prezam isso. Como se fosse um troféu.
----- Viu como não tem barulho aqui? ---gabam-se.
Também, não tem nada aqui, barulho do que? ----alfinetaria eu.
Mas fiquei calado. Convêm não cutucar esse pessoal. Joaquim  é um deles. Se você fizer menção  de ofender seu pequeno paraíso, sai de baixo.
----- É tudo quietinho. Num é qui nem aquele inferno da cidade. Não sei como ocês  vivem num lugar daqueles.
----- A gente se acostuma. É igual a vocês aqui. A tudo se acostuma Joaquim.
Joaquim deve ter uns 25 anos. É o filho mais novo de D. Neca. Sujeito forte e tranqüilo, mas sem nenhuma noção da altura da própria voz. Fala tão alto que acaba ninguem entendendo o que ele diz. Aí tem que se afastar a procura de uma posição mais confortável para os tímpanos.
----- Não se acostumamo não. A gente nacemo aqui.
Essa é D, Neca, mãe de Joaquim e de mais onze, mas com somente quatro vivos.
Velhinha miúda, como conseguiu parir tantos filhos é um mistério. Outro mistério é a morte recente deles. Sempre de maneira trágica.
Diz-se por ali que enquanto ela paria os rebentos de pés grossos, fazia a lida da casa normalmente. Ora torrando café, jogando quirera para as galinhas ou amamentando aos mais novos, que mesmo tendo mais de 7 anos, mamavam ali mesmo de pé. E não é exagero dizer que os bebezinhos já nasciam de cascos grossos. Já vinham preparados para a dura vida no campo, onde sapatos ou qualquer coisa que proteja os pés é algo para se usar somente aos domingos na missa.
D. Neca é viúva. Mesmo tendo parido tanto, viveu mais que o falecido marido, que não fazia nada a não ser fazer filhos.
Mexia um tacho enorme, enegrecido não tanto pelo tempo de uso, mas pela falta de limpeza mesmo. Cozinhava um “mundo” (como ela dizia) de polenta. Borbulhava fumegante, lhe acertando as mãos, que por serem tão grossas quanto os pés, não sentia nada.
Então a polenta escorregava por entre seus dedos e unhas de aspecto nada confiável, e voltava para panela num suave e nojento conta gotas.
Desde a infância nas minhas primeiras visitas aqui, essa imagem sempre me impressionou. Aos poucos vou me lembrando porque não gosto de polenta.
----- Dito ---berrou ela por entre o vapor do tacho, sem parar de mexê-lo.
Segundos depois aparece Benedito. Negrinho mirrado, magro como o capeta. A impressão que se tem é que ele não se alimenta. Ledo engano. Come como nunca vi alguém comer. Come qualquer coisa que lhe caiba na boca, mesmo que não dê para fechá-la enquanto mastiga.
-----Senhora.
-----Matô a galinha que mandei? ---perguntou D. Neca, no seu eterno mexer de tacho.
-----Não senhora.
-----Pelo menos pegô ela?
-----Não senhora.
-----Tava fazeno o que então, seu tição?
-----Eu tavo lá na casinha.
-----Eita traste. Quando não ta comendo, ta cagando.
Enquanto ela falava e mexia, o vapor do tacho que impregnava sua testa, escorria e caía novamente de onde havia saído, do tacho da polenta. O almoço de hoje prometia.
-----Então pega o Joaquim e pede pra ele te ajudá. Num ta vendo que a gente tem visita?
Dito saiu gritando por Joaquim.
-----Cê vai posar né? Os meninos vão vir mais a noite.
-----Vou sim tia. Quero ver os primos.
Tive intenção de pedir  para ela sair um pouco daquele tacho. Sentia que a qualquer momento ela podia cair morta e cozida, tanto era o calor daquele fogo.
-----Tem de mexer assim tia?
Ela abriu um sorriso mostrando sua velha e gasta dentadura, que solta, não caiu dentro da comida por um milagre de São Desdentado, protetor das dentaduras desprotegidas.
-----Ela empelota tudo. Ta quase bão já.
-----Sou muito chegado em polenta não tia. Muito quente para comer no verão.
-----Come quando esfriar. Com leite da vaca morninho. Vai  vê o que é bão.
Não sei o que era pior. A polenta fumegante, cheia de suor e saliva, ou o leite morno tirado das tetas inchadas e cheias de veias de uma vaca que era como o Dito. Come e caga o tempo todo.
O leitor pode se perguntar o por que de minha presença ali, num território estranho, se nada me agradava. Boa pergunta, sabe quando você decide ( e se arrepende depois) de respirar um ar mais saudável, sair da rotina e doar alguns litros de sangue aos esfomeados e subnutridos pernilongos do campo? Foi o meu caso.
Então a gente imagina que nunca deveria ter saído do meio da fumaça, da violência e do barulho. Eu era feliz e não sabia.
-----ocê sempre gosto de polenta frita. Quando ocê não tinha os dente a tia mascava procê comê. Comia e batia os bracinho na mesa pra querê mais.
-----Sabe tia. Quando a gente cresce começa a entender as coisas. E tudo tem um limite tia. Tudo tem um limite.
Ela balançou a cabeça cheia de suor que se espalhou uniformemente  pelo tacho. Não entendeu nada do que eu havia dito. Achava que gente da cidade não entendia das coisas da vida. E não entendia mesmo. Absolutamente nada.
Ficamos eu e ela. O tacho e o fogão de lenha. Aquela sudação. O ciclo interminável de vapor e suor. Podia ouvir até a sinfonia formada pelo som da lenha estalando e a polenta borbulhando.
Por um momento imaginei não estar ali. Vaguei por entre shoppings  e praças de alimentação com ar condicionado. As terríveis filas dos bancos.
Senti até a consistência oleosa e exuberante de uma pizza quatro queijos. Sua lubricidade. A gelidez sensual de um copo de coca. Sua refrescância. Os eternos minutos  dentro de um ônibus num engarrafamento.
Um gole de coca agora me faria bem. Elixir para o espírito de um homem cansado de falta de stress e da mesmice da vida no campo.
Meu momento de introspecção urbana foi interrompido por Dito que veio gritando pela cozinha adentro.
-----Mãe. Mãe.
D. Neca não se mexeu um músculo sequer, fora aqueles que usava no tacho.
-----Mãe. O Joaquim morreu ----gritou Dito.
D. Neca finalmente largou aquilo, colocando as mãos sobre o peito.
-----Como assim morreu Dito. ----perguntou ela, já quase tendo um treco.
-----Tá lá no terreiro deitado. Foi pegar a galinha e ela matou ele.
-----Como sabe que ele ta morto, Dito. ----perguntei.
-----Ele ta sem a cabeça, ué. ----disse, me olhando feio.
A mãe fez menção de desmaiar, mas segurou-se no tacho fumegante.
-----Calma tia. Vamos ver isso.
Fomos para fora e lá estava Joaquim, provavelmente morto, pois sua cabeça não estava no lugar.
-----Ele ta morto mesmo tia. ----comentei já ao lado do primo sem cabeça.
A velha vendo a cena, se estatelou no  chão, espantando até as galinhas que cacarejavam e ciscavam curiosas ao lado do corpo.
Benedito olhou para mim com  a cara mais feia que podia.
----- Eu vi que foi ocê. ----disse apontando para Joaquim.
Eu  simplesmente acenei com a cabeça.
----- Cê deixou a mãe lá com o tacho, viu que eu fui na casinha de novo, deu a vorta na cozinha, pegou o machado e acertou ele pelas costa.
----- Por que você não contou para a tua mãe que fui eu?
-----Purque num sei. Mais agora vô podê ficá cum a radiola dele.
----- Com certeza. ---- disse eu, enquanto observava os pés de Joaquim.
A sola dos seus pés eram absolutamente grossos, e estavam tão sujos que por um momento pensei que ele estava de chinelos.
----- Eu vi pelo buraco da tálbua. Tinha contenda cum ele?
-----Não. Até gostasva dele. Menino bom. O único defeito era que falava muito alto.
Benedito acendeu um pequeno toco de cigarro de palha que pegou do bolso da camisa. Deu uma olhada para o céu azul e apertou os olhos por causa do sol forte e ardido.
Ele num me deixava ouví a radiola. Falava que eu num sabia mexê. Ia riscá os disco.
Deu uma pitada forte, quase acabando com o pequeno cigarro.
----- Vô tê que me lascá sozinho na lida agora. ---- continuou ele.
-----Olha Dito, isso aqui que aconteceu não foi nada pessoal. Mas eu não ia comer aquela polenta. Faria qualquer coisa. Mataria até tua mãe. Melhor teu irmão que ela.
Ficamos em silêncio alguns instantes, observando Joaquim morto e a mãe desmaiada.
-----Num era pessoar? Cê degolo ele.
D. Neca já começara a  recobrar os sentidos, incentivada pelas galinhas que bicavam suas mãos sujas de polenta.
----- O que você quer para continuar dizendo que foi a galinha.....
----- Que cê tem?
----- Gosta de bolacha?
----- Gosto.
----- Te mando um fardo por mês.
----- Dois.
----- Tá bom.
----- Mai tem que mandá.
----- Eu mando.
----- Cê tem disco pra radiola?
----- Tenho também.
----- Manda.
----- Pode deixar. Te arranjo um punhado.
Dito cuspiu, jogou o cigarro no chão e pisou com a botina, como que encerrando o assunto. Foi para o fundo da casa, pegou o machado que cortou a cabeça de Joaquim e rumou para o caminho que levava ao Riacho da Canoa. Voltou meia hora depois sem nada. D. Neca já tinha acordado e eu a havia levado para dentro.
A história não se encerra por aqui. Duas vezes por ano faço uma visita para minha tia. Sempre que vou para lá levo algumas coisas  para meus primos que sobraram. Camisetas para o Laércio e bicicleta para o Jurandir. Alem de alguns discos antigos de vinil para o Dito. Não preciso mais levar selos para a coleção de Joaquim. Coitado.
Conversamos bastante. Evito tocar no assunto das mortes estranhas e misteriosas que andam acontecendo entre os irmãos. Gosto muito dos meus primos.
D. Neca nunca mais fez polenta. Tudo por causa de Joaquim. Uma espécie de homenagem.
Naquele fatídico dia não comemos a que estava sendo preparada. Não havia clima. Acabou queimando todinha. D. Neca parou de mexer o tacho. Mesmo porque não se costuma comer polenta em velório.
A lenda da galinha que cortou a cabeça de um homem a bicadas, para não morrer  na panela, corre por toda a região. Muitos dizem que quando alguém inventa de fazer polenta em noite de lua cheia, se pode ver no terreiro um homem sem cabeça com uma galinha no colo.
Mas isso são somente estórias inventadas pelo povo do campo. A imaginação dessa gente é muito fértil. Nunca acontece nada nesses lugares. Só vou lá porque é minha tia. Minha querida tia.


   
FIM



 

 


Márcio José
Enviado por Márcio José em 28/11/2005
Código do texto: T77587
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Sobre o autor
Márcio José
Curitiba - Paraná - Brasil, 48 anos
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Márcio José