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Futuro incerto

“ Meu futuro é incerto ” --- pensava o garoto. Tinha ouvido um  trecho da música que dizia a frase. Acabou encasquetando. Ficou com aquilo na cabeça.
Sentou na beira da calçada vendo a molecada brincar de queima, olhou os próprios pés encardidos e atinou aquilo quase a tarde inteira.
Convidaram ele ---“ Vem Alexandre, tá faltando um.”. Ele maneava a cabeça dizendo que não, não podia. Seu futuro era muito incerto para brincar descalço na rua.
Ficou ali, sentado, vendo a sombra da sua cabecinha mudando de lugar com o sol. Notou que quanto mais o tempo passava, mais a sua sombra se mexia. Ele olhava e pensava.----“Olha só o tempo passando, e meu futuro incerto ”. Levantou e começou a fugir da sombra. Escapar do tempo
O sol se pôs e a noite chegou. Agora o tempo pára de passar, ponderou ele. A mãe chamou para tomar banho e jantar. No banheiro ficou olhando o chuveiro e pensando porque sabia tão pouco das coisas que existiam. Nem ao menos entendia como aquela água subia pelo cano.
Outro dia tentou fazer aquilo com canudinhos de refrigerantes, sem sucesso. Será que sua falta de conhecimento era porque seu futuro era incerto? --- matutava ele enquanto via a água cair.
----- Ale, não demora com esse banho. Teu pai não é dono da companhia de água.
Sua mãe sempre dizia isso. Ele sabia que o pai não era dono de nada. Consertava carros. Ela sabia que ele sabia. Mas sempre repetia a mesma coisa. Não entendia. Tanta água que ele via quando ia para a praia nas férias. Aquele marzão sem fim. Sentia tanto medo. E ainda tinha que ficar economizando.
Ninguém explicava nada. Nem ao menos o deixavam ir para a escola. Aprendera a ler, mas em segredo, com os livros da irmã mais velha. Será que ele não podia ir para a escola porque seu futuro era incerto? ---- teimava em pensar.
Passando a toalha pelo corpo molhado, refletia se tudo não tinha a ver com o seu físico.
Sentia-se fraco diante dos outros meninos. Pequeno e frangote. Seus braços e pernas eram como varetas. Na mesa arriscou perguntar.
-----Mãe. Por que meu futuro é incerto?
A mãe estranhou a pergunta. A irmã riu.
----- Quem disse isso menino?
----- Ninguém disse. Eu ouvi no rádio.
A mãe colocou o prato com a comida na mesa.
----- Pare de falar besteira. Coma antes que esfrie.
Não entendia também o por que de ter que comer sempre coisas quentes. Quando estava frio era muito mais saboroso. Não se queimava.
----- Lembra quando ele escutou no rádio que Jesus estava voltando? Ficou uma semana perguntando se ele já tinha chegado.---- disse a irmã.
----- Não fica lembrando.----  interrompeu a mãe.
Ele ficou ali emburrado, olhando a fumacinha que saia da comida.
----- Você só tem 2 anos. Pra que ficar preocupado com essas coisas? O importante é se alimentar pra ficar forte e crescer. Ainda tem muita coisa pra aprender.---- completou  mãe.
Começou a comer. Não por estar com fome, mas para que a mãe parasse de falar. Dois anos comendo sempre a mesma coisa, e nada mudava. Nunca ficava forte. Perguntava a si mesmo se o governo não daria assistência para que garotos insatisfeitos como ele pudessem trocar de família.
“Amanhã vou dar uma olhada na lista telefônica”---- pensou enquanto tomava seu suco de laranja e acompanhava com os olhinhos verdes e miúdos a irmã e a mãe.



                                                     
FIM
Márcio José
Enviado por Márcio José em 29/11/2005
Reeditado em 08/11/2007
Código do texto: T78499
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Sobre o autor
Márcio José
Curitiba - Paraná - Brasil, 48 anos
61 textos (26981 leituras)
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Márcio José