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Vidas Breves I

Ele havia começado o dia mal. Tropeçou na cama quando levantou, deu uma topada na geladeira, derramou o leite no fogão, manchou a camisa do trabalho, aumentou a mancha ao tentar limpar, quando chegou ao portão teve de voltar para pegar a chave que havia esquecido. Saiu impaciente pensando no que falaria ao patrão quando chegasse atrasado pela terceira vez na semana.
Mal chegou no ponto de ônibus e um taxista apressado passou por uma poça d´água que para alívio dos transeuntes não era grande o suficiente para molhar mais que um deles. Foi logo fazendo sinal para o ônibus, lotado, que se aproximava moroso. Pagou a passagem, o trocador não tinha troco, se acomodou ao lado de um gordo que suava feito louco só pra esperar até que pudesse recuperar seu raríssimo dinheiro, que é claro, viria na forma de vales transporte.
Não estava preocupado com o que viria. Já havia se acostumado com a maré de azar que o perseguia implacavelmente. Estava com fome, pois não havia tido tempo de tomar café; dormir tarde não é bom negócio. Ele teria visto um bom filme na noite passada se a luz não houvesse acabado no minuto final. Com toda a certeza não tinha sorte mesmo. Com trinta e cinco anos não havia se casado. Não por não ter tentado algumas vezes, mas porque não tinha sorte nem mesmo com as mulheres. Como dizem que quem não tem sorte no jogo a consegue no amor, achou que a recíproca poderia ser verdadeira e resolveu jogar na loteria.
Pegou um cartão, na última semana, foi até a mesinha no canto escuro da lotérica e tomou para si uma dessas canetas que ficam amarradas no balcão para não serem levadas por cleptomaníacos, fez seu jogo com dificuldade. A caneta falhava muito e não havia outra. Foi decidido até o caixa e pagou o bilhete. Agora, no ônibus ele se lembrara do jogo quando guardava o troco que estava esperando. O bilhete todo esfarelado que a empregada havia deixado na calça sem conferir antes de jogá-la na máquina de lavar. Pegou o bilhete, abriu com cuidado para que não se desintegrasse. Pegou o jornal em sua pasta e foi conferir o jogo. 05, 07, 29, 31, 34 e 42. Seu coração disparou sua bochecha ficou vermelha uma dor lhe correu o peito e ele caiu morto sem ao menos notar a linda moça que o observava desde que entrara no ônibus e agora perdia todas as esperanças de casar com o homem que havia esperado por toda a vida.
gothmate
Enviado por gothmate em 30/11/2005
Código do texto: T78724

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Sobre o autor
gothmate
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 41 anos
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