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Os olhos da tenente

Os olhos da Tenente
FlavioMPinto

Quem era ela?
Indecifrável. Inatingível. Confiante. Solitária. Não vacilava quando qualquer professor ou professora, ou até mesmo um palestrante, entrasse na sua área e abordasse irresponsavelmente qualquer assunto. Não o deixava sair impunemente: atacava-o com doces palavras filosóficas, sabidamente colocadas e calcadas em antigos princípios, princípios que hoje são raros, os da filosofia clássica. Ainda mais em moças como ela.. pelo menos eu imaginava. Imaginava...
Mas que olhos...os seus olhos eram mortais. Fulminavam quem se atrevesse encará-los.
Ao esboçar o menor ato de fazer uso da palavra recebia olhares reprobatórios de duas colegas marxistas:
- Quem é essa lambisgóia  para falar assim desse assunto? Fulminava uma.
A outra queria esganá-la toda vez que encarava os professores quando estes abordavam aspectos da formação juvenil baseada na cartilha de Paulo Freire. Falando sobre as coisas belas, literalmente desmontava os argumentos do prócer da educação popular.
Eu presenciava, meio de revesgueio, aquelas trocas de olhares que mais pareciam balas de metralhadora.
Porque tanto se incomodavam as duas marxistas com as colocações sobre as coisas belas?
Certo dia, mais atento ainda, admirava o belo par de pernas que sustentava aqueles olhos de Marlene Dietrich. Seria por isso? Certamente não, mas....
Aqueles olhos cinzas pedintes me fascinavam, mas não conseguia encará-los, assim como não conseguia saber quem era ela, pois sempre chegava quando a aula já havia começado  e saía pouco antes de terminar. Que sofrimento. Quem era ela afinal? Por quê se dava o direito de proceder dessa forma? Sempre atrasada. Por quê fazia isso? Onde iam aqueles olhos conduzidos por aquelas pernas depois da aula? E antes?
Bem, tenho de descobrir. Tenho de atacar. Pensei com meus botões.
Ao meu lado, um padre, como a ler meus pensamentos, me disse baixinho: Não mire os olhos dela. Cuidado.
- Padre, de que o senhor fala? indaguei
- Sabes bem, meu filho, sabes bem.
E ela saiu novamente antes da aula terminar. Não dava chance.
Iniciada a aula, pouco tempo depois ela entrava com seus olhos cinzas, cabelo negro liso e  curtinho á la Cleópatra, a franjinha na metade da testa...ah.. e aquelas pernas....
Tchã, tchã, tchã, tchãããnn... Um belo dia, um colega reuniu a turma antes da aula e informou que estava de aniversário. E convocava todos para comemorar num bar próximo da faculdade e era boca-livre. Tudo com ele logo após a aula.
- É hoje, novamente com meus botões.
Já imaginava atendendo os pedidos daqueles olhos cinzas: o melhor vinho, com certeza. Qual seria o seu preferido: tinto, branco, não importava. Ou cerveja? Ou simplesmente nada bebe a não ser refri? Ou nem isso? Que gostaria de acompanhamento? De que ela gostaria? Não importava. Sentia aqueles olhos pedintes  junto de mim e ela falando: Aqui, oh, o belo é a essência da vida...... O ser humano nasceu para as coisas belas e delas não devemos nos distanciar. .... Guardadas as devidas proporções, lembrem-se do que foi a civilização helênica.
Sim, minha deusa , minha Vênus de Milo, como lembro.
Sentei, estrategicamente no lugar onde ela costumava sentar , deixando o lado vago. Não passaria desta aula. Ah, não passaria mesmo.
A aula já começara e nada. Que espera ansiosa.
- Cuidado com os olhos dela, praguejava o padre.
Não sei porquê cargas dágua as marxistas de plantão estavam quietas. Mas uma  delas, muito radiosa, comemorava dez, puxa vida, dez anos  que fazia psicanálise e isto que ela era psiquiatra!!! A outra vestida com um conjunto completo imitando couro de oncinha dos pés a cabeça, nem o sapato escapou, certamente para provocar a sua amiga naturalista xiita.
E ela não vinha e não veio. Fim da aula. E eu parecia ver a todo momento aqueles olhos pedintes, indecifráveis....entrando na sala atrasados...
No bar, deixei o vinho de lado e tomei alguns chopes, os mais sem graça que tomei até hoje. Até uma sangria , o bar era de estilo espanhol, encarei com uma professora coroa muito avançadinha. Mas ela não veio.
Na aula seguinte, ela chegou como sempre, com um vestido preto coladinho ao corpo, daqueles tecidos bom para namorar, e veio sentar ao meu lado. Gelei. Mais ainda quando..
- Como é ? Sentiste a minha falta? Falou ela.
Não acreditava que falasse dessa maneira. Não acreditava que aqueles olhos falassem dessa forma e  com quê intimidade.
- Não. Porque sentiria? Respondi ainda meio atordoado e surpreso.
- Tem certeza? Fulminado-me com os olhos pedintes.
Mas como ela tinha certeza que eu tinha certeza que sim, mas não queria confessar?. Sentia tanta falta que não me conformava em ficar mudo ante sua pergunta, ali ao meu lado, ao alcance dos seus olhos cinzas pedintes? Pensei
- Porquê faltaste? Não sei como consegui perguntar
- Não podia vir, respondeu prontamente.
Numa fração de segundos mil e uma indagações passaram-se na minha mente. Seria casada? Teria compromisso? Teria filhos doentes? Mas que coisa  essa de preocupar-me? Estava ficando louco. Louco, pelos olhos pedintes e pelo par de pernas ... ah e a franjinha negra a la  Cleópatra.  Bem que o padre me avisou e não dei bola.
- Mas, e daí?indaguei.
- Eu estava de serviço, não podia vir.
De novo mil e uma indagações. Que serviço seria esse? Porquê não pode vir? Mas que patrão  era esse? Insensível.
- Serviço? Novamente surpreso  indaguei
- Sim, eu sou tenente do Exército e estava de serviço na terça.
Fiquei perplexo. O mais belo par de olhos que conheci cuidando de soldados. Por essa não esperava.

FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 03/12/2005
Código do texto: T80421

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
530 textos (94106 leituras)
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FLAVIO MPINTO