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A VINGANÇA DA ZAGA

A vingança da zaga
FLAVIO MPINTO

Fausto Plauto andava inquieto: pudera, os irmãos de sua mulher, os seus adorados cunhados, andavam atrás dele. Já tinha sido cristiado diversas vezes por eles em tudo que é tipo de negócio, mas não sabe o que fez de errado, pelo menos desta vez e só lembra o que a mulher sempre falava:
   - Cuidado com meus irmãos. Eles têm o gênio do meu pai-o velho Circuncisão.  Sabes bem.
Cisão, como era conhecido, foi zagueiro do Centauro e dava tanto pontapé que ás vezes não se sabia porque o juiz deixava passar tamanha brutalidade. Talvez por medo de não saber o que se passava na cabeça do Cisão. Uma muralha feudal de chuteiras. Na várzea, então, reinava.
E o Fausto andava de um lado para outro buscando abrigo ou uma palavra de consolo de um amigo ou de proteção, não sabe para que, mas para depois sim. Não sabia o motivo, mas que iria levar uma surra, ah, não tinha dúvidas.
Sentou-se no bar de costume e diante de um copo de cerveja já quente e sem colarinho, por supuesto, lembrou algumas passagens da vida da família de sua mulher. O velho Cisão tinha se casado aos 65 anos com a Anorexia, 30 anos mais moça e com ela  teve os cinco filhos. Radiolândia, a Rádio, como era conhecida, era a filha do meio, tinha o Azancíbio, Balizeu, Clorestino e o Deverselino. Só por curiosidade, eram nada mais nada menos do que a defesa inteira do Centauro e, antes de entrar em campo, seguiam um estranho ritual: rezavam pela alma do velho pai agarrados numa chuteira suja de barro- a última usada pelo valente zagueiro. E reverenciavam a memória do pai dando pontapés até na sombra dos adversários.
Fausto resolveu sair do bar e ir para casa. Lá sabia que teria o apoio da Rádio e até da velha Norex e aí a coisa era mais embaixo: os irmãos as respeitavam.
Perto da praça, de longe, viu os quatro no bar do Pelêgo, sentados em torno de meia dúzia de garrafas. Sabia que os cunhados bebiam, mas áquela hora?
Foi chegando de mansinho e observando a atitude do grupo. Estavam bem diferentes, quietos, cabisbaixos.... estranhos....os copos pela metade parecendo abandonados.
Quando tentava se esconder por detrás de uma árvore para passar incólume pelo lugar, foi visto pelo Balizeu, que foi correndo ao seu encontro.
- E agora, pensou, não me dou com nenhum dos quatro, mas o Balí  é o mais acessível.
- Grande cunhado, o melhor cunhado do mundo, precisamos de tua ajuda. Desde de tresantonte andamos atrás de ti. Adonde te metias?
- Trabalhando, Balí. Preciso sustentar a família, não é?
É claro que não disse que passara os dias se escondendo dos cunhados.
- Mas vamos entrar e falar com os manos, convida Balizeu.
- Ih, que tal? Como vão? Fausto saúda os outros três.
- Tudo bem, Fausto, e a Rádio?
- Tá legal, Cloro, e tu?
- Lôco de especial.
- E tu, Dever, como le vai?
- É, falou curto o Deverselino e baixou a cabeça.
  Azancíbio permanecia quieto e calado. Não dizia uma palavra.
- Pois é, Fausto, queremos tua ajuda.
- Claro, Balí, cunhado não é parente, mas tamos aí. O que precisam? falou louco de medo da resposta o Fausto, sabendo da fama dos cunhados.
- Fausto, o velho Adarauba, marcou um jogo com os Piratas.
- Sim, e daí, Cloro.
- O caso é que vai ser a preliminar de um jogo do 14 pela Segundona. Bah, é o jogo que decide a classificação e o estádio vai estar cheio.
- Mas que coisa boa, Cloro. Vocês vão jogar com uma bela torcida.
Fausto notou que todos os quatro ficaram de cabeça baixa e nem piscaram. Pareciam ter visto um fantasma.
- Mas que coisa, parece que viram um fantasma? que houve? Estranhou Fausto
- Fausto, quem joga nos Piratas é o Teylor Nathan e o Delicardêncio. Tu não te lembras?
- Mas , bah, aqueles dois?
Fausto lembrou que os atacantes dos Piratas foram os responsáveis pela maior humilhação imposta á zaga do Centauro dois anos atrás e eles não esqueciam. Um era canhoto, Teylor, mas jogava pela direita e o outro, Delicardêncio, direito e jogava pela esquerda e literalmente entortaram a defesa do Centauro. Ganharam de 7 a 2, tendo toda defesa sido expulsa por jogo violento. Foram os quatro, um de cada vez, para o chuveiro mais cedo.
- Quem não tem recursos...falou e se calou rápido Fausto ante uma flechada de olhar do Azancíbio, sempre calado e que era a imagem e gênio do velho Cisão.
- Mas deixa aquele pretinho castelhano comigo, falou Deverselino.
- Cuidado, Dever, cuidado, falou o Cloro, referindo-se ao Teylor Natan., o pretinho castelhano, como dizia o Deverselino.

O ponteiro era daquele tipo ciscador. Além disso era também remelexo de uma murga em Rivera, o que muito  lhe ajudava na ginga de corpo.  Magro, pequeno, retinto, rápido e ciscador. Não tinha quem o alcançasse na corrida com ou sem bola. Pontapés, então ,...passavam longe tal a rapidez do Teylor. No mesmo nível era Delicardêncio, e que, além de tudo, jogava com uma graminha de guanxuma na boca, sempre mascando e debochando dos marcadores. Esse era realmente debochado, mas jogava muito.
- Mas o querem comigo, afinal? Disse Fausto.
- Queremos que jogues de líbero com nós.
- Mas parei faz tempo, Bali. Nem chuteira tenho mais.
- Não te preocupa, cunhado véio, te arranjo uma. Ainda mais só faz dois anos que paraste. Te lembras?
- Pois é, foi naquele jogo, não é, Balí?
- É, Fausto, aquele jogo em que deste naqueles dois e queremos que faças o mesmo domingo.
- Dever, mas peguei eles desprevenidos.....e dei neles porque mexeram com a Rádio.
- Sim, mas pegou, Fausto. E deste uns karatê neles e saíram todos quebrados, não é? e ainda vocês ganharam o jogo.
- É.
- Então, vamos ?
Enquanto pensava, recebeu mais uma flechada do Azancíbio e decidiu ajudar os cunhados. Agora  mais tranqüilo, espírito desarmado...
- Tá bem, mas e o juiz, quem vai ser?
- Não te preocupa, o Dever já se encarregou disso, falou o Balizeu.
- Quem vai ser o juiz, Dever?
- Fausto, vai ser o Atagualpo, um baita gato.
- Tá bem, Dever. Mas já deste uns trôcos prá ele ir jogar no prado?
- Claro, Fausto.

Domingo, estádio João Martins quase lotado, antes mesmo da preliminar.
Os Piratas chegaram, se fardaram e entraram logo no campo.
- Ué, e o neguinho Teylor e o Deli não vão jogar? perguntam os torcedores ao treinador dos Piratas.
- Não, o nosso esquema mudou e eles estão fora, responde esse. Mas fiquem tranqüilos, pois vamos estreiar uma dupla de centrofoward. Vamos de dois centrofoward  prá cima deles.
Um amigo do Adarauba que estava por perto foi logo contar a novidade.
- Que esquema, que nada. Me disseram que os dois não iam jogar prá passear com as patroas e que estavam doentes. Eles estão locos de medo. Vamos dar neles com torcida e tudo, disse a Balizeu. E outra, o Nelvo, que eles contrataram, levantou um muro lá na casa do Seu Lácido hoje de manhã. Deve estar podre de cansado. Tinha também um cara com ele, mas passou todo tempo dormindo. Devia ser um folgado.
- Com o juiz do nosso lado, então....falou Adarauba. Vamos lá turma.

Começa o jogo e toda vez que um centaurista passa ao lado dele, o juiz falava- Entra na área e te atira que eu dou( pênalti).
A velha Norex, torcedora símbolo do Centauro, enquanto 0 a 0, não parava de gritar e xingar o juiz.
- Mas pára, mãe. Tu não sabe que o juiz é nosso!
- Oh, tô xingando prá pensarem que não sei. Vou encher ele de osso. E outra vai te catar!
- Que é isso , Mãe?
- Te sossega e me deixa ver o jogo. Já fiz as minha benzedura e tô concentrada, tá.
Mas a reza da velha Norex não deu certo.
Resumindo, os Piratas venceram por 3 a 0 com 3 gols de fora da área, especialidade do Lizelóide, que tinha um pataço e era o auxiliar de pedreiro que passara todo tempo descansando na obra. Do Nelvo, que estava cansado do trabalho da manhã, foram os 3 lançamentos para  contra-ataque do seu auxiliar. Três lançamentos, três escapadas, três gols do Lizelóide, que dizia que chutava de fora da área para não ter de correr muito. Foi só que os Piratas fizeram.
FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 03/12/2005
Reeditado em 30/10/2007
Código do texto: T80442

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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FLAVIO MPINTO