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PAZ POR FIM

O dia começara como sempre. A rotina os fez assimilar um estilo sereno ao acordar... Com diferentes relógios biológicos, ela dormia bem cedo e da mesma forma, logo de manhã, acordava. Levantava suavemente da cama, para não incomodá-lo, e velava por seu sono com todo esmero. Compreendia que ele, por sua vez, preferia dormir mais tarde e ainda que não se importasse em levantar cedo - dormindo poucas horas durante a noite - ela entendia que sua aparência ficava muito melhor quando ele dormia mais, e então cuidava para não acordá-lo. Somente quando ia sair, enchia-o de beijos e então partia para seus compromissos profissionais ao longo do dia.

Naquela manhã ela o chamou antes do horário normal. Programara-se para participar de uma reunião logo cedo e ela seria seu despertador. Ele não abria mão dos seus beijos para despertá-lo; Ela não dispensava tais caprichos e carinhos. "É direito dele, e um prazer pra mim cumpri-lo!”.

Não puderam se encontrar para o almoço. Trocaram mensagens no decorrer do dia, encontraram um intervalo na agenda da tarde e conversaram um pouco pela internet. Programaram um cachorro-quente para o lanche. Depois do compromisso dele no início da noite, chegaria já trazendo os pães para se deleitarem com o delicioso molho de tomates que só ele sabia fazer! Tudo já estava pronto. Só faltavam os comensais.

Como toda história feliz tem sempre suas tempestades além dos dias de sol e céu azul, para eles o tempo mudou de repente e num segundo as nuvens negras os envolveram de tal forma que ela, ao ouvir da boca dele a notícia dum encontro matutino, apenas pegou as chaves, tornou para a porta, atravessando-a e batendo-a logo em seguida atrás de si. Ele, estático no meio da sala, não conseguia pensar ou entender a atitude que ela tomou depois do que ouviu.

Um par de horas se passou, os pães sobre a mesa, o lanche abandonado intocado, ligações incessantes para o celular, silêncio como resposta, e abruptamente a porta se abre. Ela adentra o pequeno apartamento e começava a expandir sua raiva, sua revolta, sua indignação. Ele, como de hábito, tentava justificativas... Nenhuma seria suficientemente razoável para aplacar a onda de cólera que parecia só aumentar nela, que sempre se mostrara sossegada. Quanto mais as justificativas eram procuradas mais a raiva se expandia.

Ela gritava, falava ofensivamente... Palavras duras, tom de voz áspero. E o seu olhar... Aquele olhar... Queria ele nunca lembrá-lo. A voz, não reconhecia. Não fora com ela que se casara. E a certeza permanecia no seu coração. Aquela é a sua mulher. E ela também sabia que não haveria nem haverá outro que não ele, como ele. O que ela não concebia era o fato de que não se casara com o homem perfeito. Ele cometeu um erro. Para ela, fatal. Para ela, imperdoável. Na sua personalidade rancorosa, sofria porque não conseguia aceitar a idéia de que era possível perdoar e seguir adiante, rumo aos objetivos, planos e projetos sonhados, traçados e iniciados com ele...

(Será que depois de um banho relaxante e uma noite de parco descanso nossa heroína mudará de idéia e tomará seu homem em seus braços e o convidará aos deleites que selam e marcam o amor eterno?)

Porém ele não se continha. Caminhava em círculos, ia até a varanda, voltava, não conseguia desgrudar o olhar dela, queria entender, queria reconhecer o que se passava ali dentro e lhe era impossível. Quem conhecerá o coração humano? Não ele. Não o dela. Não assim, nem naquele instante.

Manteve-se alerta. Vigilante, como atalaia no alto de uma torre. Com o pensamento murou seu lar, cercou-o de cuidados e o centro de tudo era ela, sua eterna companheira, sua escolhida. Queria vê-la bem, novamente contente, tranqüila. Jamais pensara em prejudicá-la nem fazer algo que lhe entristeceria ou enraiveceria. Continuou atento, aos mínimos movimentos. Buscava nela o encontro de olhares. Não conseguiu.

Passadas horas, ela recolhida em seu leito, abafada pelas mantas, ele continuava tenso, reticente quanto a tomar seu lugar ao lado dela, ou manter a distância acreditando que assim poderia ver o tempo remediando o conflito e dando o espaço necessário para a calma novamente abrigar naquele coração e a paz reinar enfim e por fim até o final de sua vida.

Este, seu puro e único desejo naquele instante: permanente paz entre si e sua amada.

ana K
Enviado por ana K em 04/12/2005
Código do texto: T80764

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Sobre a autora
ana K
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