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Os últimos segundos de um homem

                                           
 As mãos batendo na água, espalmadas. A cabeça a procura de ar. O pulmão já quase sem oxigênio, no limite. O corpo na horizontal e os pés buscando apoio, mas caóticos. Desorganizados.
Era Jonas se afogando. Ainda  sem respirar  a água, mas com o organismo quase desistindo. Tinha alguns segundos ainda, quando então o cérebro, num reflexo instintivo, faria com que ele inspirasse a procura de uma última fagulha de vida, de esperança.
Nesse pequeno intervalo, entre a vida e a morte, enquanto se debatia num desespero catatônico, Jonas ainda conseguia medir as conseqüências, caso conseguisse salvar-se.
O cérebro, essa maquina, verdadeiro computador orgânico, enquanto controlava os movimentos desconexos do corpo, fazendo com que o coração trabalhasse no menor ritmo possível, adiando uma catastrófica inspiração de água para os pulmões, conseguia ainda produzir uma serie de reflexões que bombardeavam a confusa mente de Jonas.
Começou a imaginar que se morresse ali, seria uma morte tremendamente estúpida.
Jonas até sabia mergulhar, o que não era vantagem nenhuma, já que até uma pedra sabe. Seu problema principal era a dificuldade em voltar á tona. Colocar-se na vertical, de onde, pensava ele, jamais deveria ter saído.
O que o incomodava no momento era que mesmo tendo conhecimento das suas limitações, arriscava-se em insólitos mergulhos.
Mas Jonas não queria morrer. Na verdade ele não podia, pelo menos naquele momento. Lembro-se repentinamente de algumas fotos comprometedoras que deixara no meio de um grosso livro sobre os grandes pintores do século. Algum bisbilhoteiro acabaria por descobri-las.
Não seria um grande escândalo, mas mancharia sua tênue índole, principalmente se a vissem durante o velório. E isso realmente não lhe agradava.
Arrependeu-se de ter fugido da escolinha de natação na primeira aula, após ter sido empurrado na piscina pelos colegas. Ele era somente um garotinho indefeso, e a piscina muito funda. Acabou engolindo um pouco de água e foi só. Sua sorte foi ter caído de pé junto com a bóia  de isopor. Nunca mais voltou lá.
Seria um prenúncio do que viria a acontecer anos mais tarde? Seria esse seu triste fim? Inchar de tanto engolir água. Alem de defunto, um defunto inchado e roxo.
E Jonas  confabulava. Ele e sua consciência. Mas Jonas não se conformava. Continuava na sua sinistra batalha.
Precisava de oxigênio. Nem que fosse uma minúscula bolha.
E o chão? Onde estava aquele maldito chão? Jonas! Jonas! Jonas! Porque sempre deixava as coisas para depois? ----pensava ele de si para si.
Sabia que precisava aprender a nadar, afinal, para um homem de meia idade, isso era vergonhoso. Mas sempre adiava. As vezes por causa do inverno, ou por estar gordo demais para se expor ao ridículo de colocar uma sunga. Mas eram somente desculpas. Tinha até pensado em escrever um livro: “As desculpas de Jonas”. Agora mudaria o titulo: “O cadáver de Jonas”. Roxo e inchado boiando na piscina.
Os filhos achariam que só estava brincando. Brincando de morto. Seus filhos não eram tão espertos assim.
Notar que o pai estava em dificuldades e procurar ajuda. Devem estar rindo e dizendo uns para os outros que o pai estava fingindo que se afogava. Moleques idiotas, por que não me ajudava? ---protestava o cérebro de Jonas.
  Mesmo porque agora só tinha isso. Sua consciência. O resto ainda se debatia, cada vez mais desgovernado.
Mãos e pés procurando o chão, um apoio ou qualquer coisa que não fosse liquido.
Mas ele não ia se entregar assim tão facilmente. Não antes de ter um feito um seguro de vida, pensou.
Então num golpe de sorte, sua mão tocou a superfície da beirada da piscina. Essa era sua salvação. O porto da vida onde poderia atracar com segurança.
Num último esforço, tateou até a borda, e apoiando-se conseguiu levantar-se. Já de pé, e com a água batendo nos joelhos, respirou o ar como se fosse o primeiro de sua vida.
As crianças riam-se. “O pai tava se afogando na piscina das crianças”, diziam cheias de escárnio.
Jonas dizendo que não. Que estava brincando. Que calassem a boca senão quem acabaria se afogando eram eles. Fossem para o vestiário se trocar, que iriam embora.
Nunca mais voltou ao clube.
Na verdade, agora Jonas só mantêm contato com água em maior quantidade na sua Jacuzzi. Mesmo assim com alguma ressalva. Se livrou das fotos, fez um seguro de vida e vendeu a casa de praia.
Jonas reconheceu que existem certas decisões que um homem jamais deve deixar para o outro dia.
        Afinal, nunca se sabe quando serão os últimos segundos de um homem.


FIM




Márcio José
Enviado por Márcio José em 05/12/2005
Código do texto: T81206
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Sobre o autor
Márcio José
Curitiba - Paraná - Brasil, 48 anos
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Márcio José