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LESADERA*

A leveza da estrutura molenga, levava a moça á balançar. Acostumada com as ondas do mar e o caminhar frenético dos caranguejos nos mangues, a modernidade para ela vinha como um soluço, sempre a pegava de susto e a erguia ligeiramente para o inesperado.
Completamente só na matéria, ela se aludira aos pensamentos. Uma solitária por natureza, seus atos se concluíam em poemas. Numa literária forma de viver, abrangia com os olhos a introspecção dos seus pensamentos.
Quem a via tão somente acompanhada por todas aquelas pessoas no metrô, não alcançaria a abrangência metafísica de sua viagem. A sonolência era uma arte equivocada de se manter só, e assim seguia.
Ocupando dois bancos, ela mantinha suas laterais vagas, como pressentindo o que virá acontecer. Criatura de vôos errantes e lutas ideológicas inebriantes, sempre tropeçava no cotidiano. É uma ave selvagem presa, que persistia em tentar sair pela greta da gaiola.
O movimento que agora se segue, podemos defini-los como uma catarse. O metrô acaba de entrar numa fechada curva. Completamente entregue às leis da física, o corpo sonolento gira num eixo diagonal, se entrega a uma estado horizontal e finaliza numa postura vertical.
Agora uma pausa se tornou obrigatória. A sonhadora por excelência, de física, geometria e estatísticas não se incumbia. Então teremos que retroceder-mos ao fatídico ponto e situar a “donzela” ao verdadeiro encanto. Retrataremos como ocorreu o tal solavanco.
Afastando-se cada vez mais para o mundo dos visionários, eis que a Terra sente a falta da tal lesada, coube ao metrô a incumbência de regressá-la ao atual sistema.
Logrado com a função plena, o bicho levou-a num súbito enternecimento. Embalada por um leve rufar de tambores africanos, viu-se uma índia bailar no ar. O balé meticuloso de pernas e braços deixou o ambiente em pleno suspense. A deslumbrância acidental em que ela se propusera conteve secamente uma descarga de blasfemas, que viria a tomar o ambiente. A dança fermatizou-se numa mudança reflexiva de posição, terminando com um minueto e uma Monalisa estática e observadora.
Solenemente tronada, ela se fez rainha, a pose altiva destacava a súbita transformação de ouro à farinha. Delgada e perspicaz ela procurava vestígios dos últimos acontecimentos. Não tendo nenhum elo com os telespectadores, coube a moça mergulhar num profundo cepticismo e assim deu-se por encerrado o evento.
O momento de estabilidade, que representava seu semblante, era uma mera toada designada para acalmar sua timidez. Ela se sentia tão esperta e tão encabulada que só sabia disfarçar. Seu corpo suava, não pelo susto da queda, mas pelo medo de perder a dignidade. Maltratada, ela passa a mão pela testa. Limpando o suor, ela tenta limpar aquele breve passado, o ligeiro piscar dos olhos mostra que ela realmente voltou a si, tão perdida como é.
Há quem já viu estes movimentos em olimpíadas, outros em fantasias, têm os que já viram até em cinema e alguns mais libertinos que os reconheceram de pornografias. O cômico é que ela acreditou que ninguém viu, o trágico é que todos fingiram não reparar, o absurdo é ela ter que pegar um outro metrô, por não ter acertado o lado que deveria desembarcar.

* à Andiroba.
Cobalto
Enviado por Cobalto em 07/12/2005
Reeditado em 08/12/2005
Código do texto: T82059
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Sobre o autor
Cobalto
Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil, 36 anos
39 textos (1943 leituras)
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