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distração

Não entendia direito o porquê, mas naquela manhã Camile acordara aflita.  Não sabia se o certo era deixar fluidificar entrevne o produto daquilo que um dia fora para unir-se à chuva fina que molhava a Avenida.  Da janela, via mais fim de ano se aproximar e as incertezas que não se distanciavam ao precipitar dos novos ciclos.  Todos iriam embora, já era sabido, as caixas beges cheias de passado, empilhadas pelos cantos da casa semi-escura, denunciavam que, mais uma vez, era hora de partir.  Então, tinha que achar um lugar onde fosse possível guardar seu malogro, que parecia expiar os problemas de todos no seu entorno.  Ouvira pela manhã que a causa de seu mal-estar talvez pudesse se achar diluída na bebida, ou por certo  na fumaça dos cigarros que consumia.  “Os meus pequenos venenos”, pensou; eles eram mais escassos e menos eficientes do que todos pudessem imaginar.  Todos esses pensamentos faziam parte do contra-gosto do dia, o seu humor infra-glicêmico e o seu quase agnosticismo decadente, girando em torno do lugar onde as paredes eram a cada manhã mais cinzas e frias.
Seria tudo sua culpa, bradariam de lá de longe as línguas das ligas familiares.  Apesar de tudo, ela seguia seu caminho, e só se deixava chorar quando alcançasse uma distância segura de preservar sua reputação de um ser maldito.
Já preferia manter os nós atados mesmo, um bom nó do frade ou de pescador, nas cabeças daqueles que ousavam achar que sabiam, que leram, que viveram tudo aquilo pelo que passara.  Pensava que talvez esta fosse uma boa  revanche, parecer um tanto alheio, distraído, ouvir a voz dos inquisidores, mas ignorar a ordem.  Era sua forma de lutar contra todos os que a queriam integrada aos seus sistemas.
E assim, ela desceu as escadas do prédio, mãos trêmulas e vermelhas, mal entendia a estranha sensação que lhe rondara pela semana toda e que se acentuara agora, depois de ter recebido um telefonema.  Tudo sem importância, só tinha certeza do cansaço, do frio que sentia por fora e da febre que a consumia por dentro.
De leve foi ganhando a rua, dobrando a esquina e cedendo ao fervoroso caminhar das pessoas, rendendo-se à normalidade inconsciente dos pedestres, dos gatos, dos carros, dos outdoors manchados de sangue.
“Aqui fora faz frio, mas dentro de mim lufa um vento quente e  abafado”, pensou enquanto tentava encontrar seu casaco vermelho na bolsa.  Mas ela já não queria mais aplacar a febre, já não sabia mais o que querer.  O querer não fazia diferença.  Sentia a  ponte crescer entre ela e as pessoas, enquanto ensaiava uma aceno tímido do outro lado de si mesma.  Não a importava mais ser bela, nem parecer inteligente, tampouco a opinião comumente atribuída à sua maneira esquiva de andar e dizer o que pensa.  Começava a sentir um certo rancor das coisas e das pessoas, uma lentidão atacando seu pensamento de uns dias para cá, um hiato entre si e os outros.   Instransponível? Talvez não.  Só o que sabia é que um recesso se aproximava.  Com isso, já acha que não quer mais ver ninguém, parece que no mundo há gente demais e eles estragam as calçadas.  Camile está crescendo, já começa a aspirar um pouco do sentido da vida, embora caminhe e caminhe, sempre na estrada oposta.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 08/12/2005
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T82511
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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