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Ônibus e Percepções

Estava apressado. Não que tivesse que fazer algo, mas simplesmente não gostava de permanecer no Centro da cidade. Apressou o passo enquanto via uma das barcas aportar no cais. Era uma visão agradável, via a baía com a ponte que separava duas cidades ao fundo e um pôr do sol obstruído pelas nuvens que adensavam enquanto pingos grossos caíam.

Apressou o passo, pois carregava pacotes de presentes, cujos eram a razão da ida ao Centro e estava definitivamente a alguns passos do ônibus quando visualizou aquela que ia logo a sua frente. Usava uma calça jeans surrada, uma camisa de algodão que aparentava ser de meia idade. Notara também que seus cabelos curtos com mechas louras exibiam certa dose de vaidade, gostou, apenas pela quase vulgaridade do conjunto. Pensou que ela poderia dar alguns momentos de prazer.

Sentou-se no ônibus após pagar a passagem e tentou aproveitar a viagem. Quase ninguém o fazia. Estavam todos imersos na vida frenética que lhes próprios induziam. Sentavam no banco do ônibus e começavam. Celulares, revistas, dormiam, conversavam frivolidades e uma incontável variação dos detalhes de cada opção já listada. Nunca paravam para apreciar o momento. Perdiam seu tempo se preocupando a possível perda dele.

Veja bem, olhe minuciosamente, tantas coisas a se apreciar. O velho que se sentara no banco da frente porque achava que era o assento mais rápido e mais seguro que podia conseguir. Pensando do mesmo jeito alguns idosos se amontoavam na frente do ônibus. Com aquelas roupas que seria quase impossível não dizer que eram velhos. Estendesse a roupa em um lugar e perguntasse a alguém qual a idade do usuário, sem perder milésimos de segundo a resposta viria imediata.

Em contrapartida, via atrás várias pessoas menos privilegiadas. Incrível como elas se auto-direcionavam para os últimos acentos. Como que se dissessem que eram excluídos e determinavam-se como últimos sempre em qualquer ocasião. Ficava abismado como ainda a separação de cores ocorria freqüentemente entre as pessoas. Mesmo que essa separação fosse claramente atiçada pelas classes diferentes que ocupavam.

Os negros ocupavam majoritariamente as classes mais baixas da sociedade. Seria o preconceito contra negros? Ou seria contra pobres? Nunca se esclareceria essa duvida, mas que os últimos acentos eram destinados aos mais pobres, freqüentemente por eles mesmos, eram sim. Ou não! Puramente uma impressão reduzida da totalidade das viagens de ônibus que podia fazer. Ficou feliz, pois, pelo menos, estava pensando.

Os velhos, ou idosos, como determina a norma culta para chamar as pessoas com mais idade, sempre se posicionavam nas primeiras cadeiras. Impressionante como os motoristas os tratavam com total desprezo, como se fossem nada. Idoso era para jogar fora. Acho que eles sentiam esse sentimento, já que tratavam o motorista de igual forma. Como se fosse o ultimo ser humano na Terra a ter alguma consideração.

Reparar nos ônibus, quantas pessoas fazem isso? Todo aquele ferro retorcido, adicionado a um mote de aparatos, para que transportassem devidamente as pessoas de um canto a outro, publicamente, mas pago. Todo o modo de ver a paisagem passando descontrolada e frenética, virando de um lado pra cá ou pra lá. Todo esse movimento sinuoso, o faz notar aquela que caminhava a sua frente, de jeans surrados.

Está há um banco na frente do lado oposto do corredor. Sinceramente mente para si mesmo dizendo que ela é atraente. Sabe tudo o que poderá escutar e toda a previsibilidade da coisa o deixa sem tesão algum. Bola um jeito de abordá-la a fim de provar sua mesmice. Ele iria provar que ela era mais uma no meio de milhares. No fundo não queria ficar com ela, só não queria ficar sozinho.

Levantando rapidamente entre uma freada e uma arrancada proferida pelo motorista que se achava algo perto de um piloto sentou-se ao lado da moça, que olhou com certa dose de cuidado e apreensão. Não que ele parecesse ameaçador, mas aquilo não era muito usual acontecer.

Não teve grandes sucessos, em um tempo menor do que ele levou para começar a falar ela levantou-se e puxou a cordinha, que, como sempre, foi seguida do característico “pi”. No tempo que existiu entre o ônibus parar e ela saltar sua cabeça ainda virou na direção dele e devido a uma troca de olhares instantânea ela sorriu levemente e desceu.

Nunca vai-se saber se ela sorriu por simpatia ou por ter escapado sagazmente de uma situação incomoda de forma brilhante. Ele não preferiu achar nada e ficou apenas com o sorriso sem justificativa dela em sua mente. Esse que, como muitas outras coisas, nunca seriam esclarecidas, cabendo a pessoa que experimentou o acontecido ou morrer apreensiva ou ignorar solenemente a coisa toda.

Voltando a sua imersão a própria viagem de ônibus viu que estava agora percebendo o quanto de freios e arrancadas a coisa toda envolvia, passageiros descendo e subindo, dinheiro vindo e troco voltando, comentários, acenos, derrapadas, porta abre e porta fecha e aquele ar externo renova o ar viciado do interior condicionado pelo ar artificialmente gelado.

Estava chegando o ponto em que deveria saltar e mais uma vez, como sempre acontecia nos últimos tempos, se sensibilizou com as pessoas. Todas elas andavam todos os dias conjuntamente mas se indignavam a serem pessoas públicas, sociais. O recolhimento e a reserva era algo bem típico dessas pessoas que ao entrar no ônibus queriam ser as primeiras, as primeiras a saltar também. O melhor lugar deveria ser para elas e tudo o mais, senta fecha a janela, no importa se chove ou faz sol, se abafa ou refresca. Não importa o ônibus mas sim seu próprio conforto dentro daquele microcosmos simulando toda a nossa relação social.

Chegou o momento, se levantou de vagar e antes que pudesse pensar em puxar a corda outra pessoa mais à frente, que ignorava sua intenção, puxou a corda de uma maneira que ele odiava. A infeliz puxou a corda com toda a força e testou a elasticidade do material ao máximo. Quase que se apoiando na corda para se levantar. Odiava essa demonstração total de egoísmo com o bem comum que certas pessoas demonstravam.

Saltou do ônibus e viu a pessoinha que ia andando, aquela que tentou destruir a corda, freneticamente, alheia a tudo no mundo. Esbarrou em um casal que ia passeando pela rua, mas nem se abalou, eles que não deveriam estar ali. Apressou-se, pois iria pegar outro ônibus, e se meteu a frente de uma velhinha que ia entrando vagarosamente no ônibus.

Continuou andando e pensando. Ficou feliz por ter tido mais uma viagem de ônibus e mais uma vez constatado toda a pequenez de nossa gente, dele mesmo e de todas as ações possíveis que poderia ter, o máximo que podia fazer era continuar vivendo e apreciando cada viagem de ônibus que porventura viesse a ter, assim como viagens de carro, vans ou seja lá qual outro meio de transporte. E garantiu para si mesmo que nenhum estresse de nenhum dia a dia iria estragar nenhuma viagem que fosse ter.


leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 11/12/2005
Código do texto: T84563
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz