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A MENINA E O SAPO ENCANTADO

   




Já fazia muito tempo que ela se colocara diante da janela, olhando a imensidão distante, tentando perscrutar o infinito como se fora algo que residia bem ali perto.
Há muito tempo que ela, naquela posição, ficava indiferente ao que se passava ao seu redor, como se fosse somente ler no tempo e espaço, nada conseguia tirá-la daquela posição. Postada como estátua, ela ficava ali horas e horas sem se preocupar com nada.
Por diversas vezes, sua mãe a chamara, procurando afastá-la daquele mutismo doentio,  sem, contudo, conseguir nenhum objetivo, era como se nada mais existisse além dela e aquela janela que se encontrava em sua frente.
As obrigações sempre ficavam para depois, naquele instante nada mais lhe importava que não fosse ficar olhando o  horizonte distante, como se estivesse à espera de alguma coisa ou de alguém  que  lhe pudesse tirar de seu alheamento.
Era a terceira filha mulher de uma família de quatro filhos, caçula, nascera gêmea, porém das duas era a mais nova, embora fosse a maior.
As duas sempre estudaram juntas, sempre na mesma classe e turma e com isso sempre houvera uma certa concorrência sadia entre elas.
Ainda que gêmeas, não se pareciam, elas haviam sido geradas em placentas diferentes,  ela era morena, embora mais nova, crescera mais rápido que sua parceira de barriga. E  transcorriam-se os dias e  nada mudava na rotina daquela moça que se auto-intitulara de “a moça do tempo”.
O nome lhe fora inicialmente  dado por um parente bem próximo e ela, em sua doce característica, adotara incontinenti aquele apelido que passara a fazer parte do seu próprio nome.
As irmãs mais velhas sempre pediam e “moça do tempo” prontamente atendia aos anseios das irmãs, pois se colocara diante de todos como uma mera serviçal. E muitas vezes era chamada de mucama.
Era como se fosse uma versão moderna da gata borralheira, uma vez que ela assumira para si todos os afazeres da casa, sem nenhuma restrição, simplesmente por não querer a aprender olhar e ver as horas no relógio postado na parede da cozinha.
O pai, um homem carrancudo, sempre tentara ensinar-lhe a ver as horas, porém ela em sua ingenuidade e também num misto de ignorância, achava mais cômodo, assumir todos os serviços da casa do que se interessar por aprender.
Outros tentaram por diversas vezes ensinar-lhe, porém ela se recusava em definitivo a aprender e com isso ficava como a gata borralheira da casa, talvez à espera de seu príncipe encantado, que bem poderia ser um simples sapo, pois dizem que os sapos geralmente são príncipes.
Colegas da “moça do tempo”, sempre lhe diziam que os sapos são príncipes encantados. Ela não podia ver um sapo que já pensava em beijá-lo para que ele se transformasse em príncipe, porém sempre acontecia que o sapo continuava sendo sapo.
E rotina dela em nada se alterava, por única  vontade que não admitia a mudança e não queria que nada mudasse.
As pessoas, geralmente, não acreditavam que isto realmente acontecesse por não acreditar que uma moça que era, bonita se sujeitasse às lides domésticas, por não querer aprender e como era necessário que ela aprendesse, ela continuava a faina diária e tudo indicava que seria ainda por muito tempo.
O pai, por ter um coração bondoso, todos os dias se colocava ao dispor “da moça do tempo”, tentando ensinar-lhe, porém, como sempre, recusava-se  a aprender, como se isto fosse um verdadeiro tormento.
As irmãs achavam aquela situação bastante cômoda, pois estavam livres das obrigações caseiras e podiam dedicar-se as suas coisas em particular, sem se preocupar em estragar as unhas e mãos, lavando louças, banheiros e varrendo a casa.
A moça tinha o hábito de pescar e procurar sapos nas lagoas, por onde passava, tentando fazê-los príncipes e com isso partir para o seu reino encantado, onde tivesse suas próprias empregadas e os relógios fossem todos digitais,  sem ponteiros, porque aí não haveria necessidade de ter que aprender.
E a vida da moça, continuava em sua costumeira rotina, entre os estudos e as obrigações domésticas que eram bastante, pois a família era composta de 6 pessoas e no mínimo era o tanto de louça que se tinha que lavar todos os dias, sem contar as tigelas, panelas, garfos,facas etc.
Enquanto o tempo corria, a “moça do tempo” já se interessava por aprender a ver as horas, que eram marcadas somente através dos relógios comuns que existiam na casa, ou seja, relógios de ponteiros.
Na época do Natal, o serviço da “moça do tempo”, praticamente triplicava em razão do número de visitas que vinham.
E assim, a vida ia-se delineando de acordo com o que havia sido previsto e assumido por ela, que parecia divertir-se com tudo aquilo.


    VEM-15/01/02
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 18/12/2005
Reeditado em 08/05/2009
Código do texto: T88111
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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