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Andorinhas e Anjos

       Quando a noite caiu, sentei-me nos degraus da escada. Isto foi há muito tempo, quando eu ainda morava no interior. A casa da minha avó era de madeira, sólida e antiga. Tinha um jardim na frente e um quintal no fundo. No quintal, havia um pomar, uma hortinha, um balanço disputado à tapa pelos meus primos. A noite caiu e eu me sentei nos degraus da escada. Naquele dia não havia balbúrdia da criançada e nem os ralhos dos adultos. O pomar parecia meio tristonho e os tomates da horta eu enxergava meio murchos naquela escuridão. O balanço não se mexia, nem o vento soprava. Minha avó havia ido embora.
Até eu compreender o significado da coisa levou horas. Primeiro me mostraram o céu. Era lá que ela estava. Na hora, voavam um bando de andorinhas e eu tentei identificar minha vó no meio delas. Imaginei que havia realmente enxergado. Mais tarde, uma prima mais velha me disse que vovó agora era um anjinho. Lembrei-me da grande bíblia que ficava no balcão da sala da casa de madeira e fui lá procurar algum anjo que pudesse ser ela. Não me satisfiz com nenhum.
Não entendia a tristeza das pessoas, nem as lágrimas do meu avô. Sendo anjo ou andorinha, não era bom assim? Eu não me sentia triste. Com cinco anos de idade eu também queria ser passarinho, borboleta, anjo, algo que voasse. Que sorte da vó, hein?
Então caiu a noite e eu me sentei nos degraus da escada do quintal. Os adultos estavam lá dentro. Já deveriam estar discutindo o que haveria de ficar para cada um. Haviam me esquecido. E eu de repente senti um vazio… se é que criança pode sentir algo parecido com um “vazio”. Ali no quintal, senti alguma coisa parecida com saudade. Na verdade, não sabia se era tão bom assim ser anjo ou andorinha se isto significava que nunca mais iria voltar para casa. Já era noite, ela deveria ter voltado. Era por isto que o vô chorava. E os meus bolos de chocolate? Minha gemada? Que andorinha ou anjinho iria descer do céu para cozinhar coisas gostosas para mim?
Droga, pensei eu. É muito melhor voar. Então, concluí eu, minha vó não vai mais voltar. Era por isto que meu vô havia encharcado o lenço dele e parecia tão curvadinho... e eu entendi que aquele vazio no meu peito se chamava saudade. Mas não chorei. Fiquei sentada um tempão até que meu próprio avô veio me chamar para comer um bolo que minha tia havia acabado de fazer. Nem tinha o mesmo gosto…
Hoje, onde ficava a casa da minha vó, é agora um prédio enorme. A minha cidadezinha virou quase uma cidade grande. Aqui onde eu moro não existem muitas andorinhas, acho que a poluição não permite. Anjinhos, então, nem se fala.  Porém, ficou um pouco de mim naquela casa. Antes de ela ser demolida pelos novos tempos, sentei no balanço para me despedir. Embalei-me bem forte, tão forte como nunca havia feito antes. Eu queria encostar no céu. Fechei os olhos. Enxerguei andorinhas e anjinhos, tropecei nas estrelas, abanei para minha
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 23/12/2005
Código do texto: T89866
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37854 leituras)
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Patrícia da Fonseca