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Ponto de Vista

        Saí apressada de casa. Não tive tempo de prender o cabelo ou coisa parecida. Passei um batom nos lábios, uma maquiagem leve e peguei a bolsa. Estava pronta para ir trabalhar. Eu havia dormido tarde na noite passada; na realidade, só dormira quatro horas, por conta de uma festinha horrível que amigos meus insistiram para que eu fosse. Jurei, depois daquela, nunca mais ir a festa alguma. Pelo menos em dia de semana. Agora eu estava morrendo de sono, tão atrasada que mal pudera escolher a roupa para ir trabalhar. Passei a mão na primeira que vi, fui combinando tudo aleatoriamente e ai de quem falasse de mim. Quando abri o portão do meu prédio, deparei com o Carlos. Carlos e família. Não dava tempo de eu entrar de novo. Ele e a mulher já haviam me visto.
Meu ex-noivo vinha segurando o bebê nos braços. A esposa, vinha ao lado. Eu sabia que ele já era pai, mas não conhecia ainda a criança. E nem nunca quis conhecer. Que droga! Tudo isto porque eu me acordara quinze minutos mais tarde. Ele me viu. Eu disfarcei. A mulher também olhou para o meu lado e me reconheceu. Disfarcei procurando na bolsa alguma coisa, tentei colocar meu cabelo na frente e me amaldiçoei por não estar tão arrumada quanto deveria. Queria que Carlos visse como eu estava bem sem ele. Mas eu não estava. Eu havia sido trocada por ela. Pior, havia sido traída. Queria matar os dois.
Consegui reparar nela. Desejei que ela estivesse gorda e fora de forma depois da gravidez. Mas não. A esposa do Carlos – mais jovem do que eu, ainda isso – parecia muito bem. Ela vestia uma calça jeans justa e blusa estampada, que combinava com os olhos verdes dela. O cabelo estava preso, ao contrário do meu que cobria o meu rosto envergonhado. Dava a impressão de ser uma mulher séria e compenetrada, o tipo de mulher que Carlos escolheria para se casar e constituir família. Definitivamente, eu não era e nunca seria a esposa ideal para ele. Foi por isto que ele me abandonou. Sim, fiquei com inveja deles… já estou com quase trinta anos. Também quero ter um marido, minha casa, meus bebês.
Toda minha avaliação durou dez segundos. Foi o tempo que eu os enxerguei e o tempo que disfarcei minha raiva e meu constrangimento e saí apressada na frente deles, rezando para não virar meu pé, por conta daquela sandália de salto alto que nem combinava com a roupa que eu vestia.
                              *
Acho que a primeira coisa que reparei na Isabel foi o cabelo. Estava mais louro, mais comprido. Mais sexy. Ela parecia mais sexy. Segurei o bebê nos braços com mais força. Confesso que a visão da minha ex-noiva me abalou. Aquela minissaia eu não conhecia. E a sandália? As sandálias dela sempre me fascinaram, porque Isabel tem as pernas longas e torneadas. Fazia e deve ainda fazer algum sucesso entre meus amigos. Será que ela está saindo com alguém? Acho que a Gabi não percebeu meus olhares para a Isabel. Eu sabia que as duas já se conheciam de vista e só o que me faltava era criar algum clima ruim entre minha mulher e a minha ex-noiva. Mas Isabel continuava uma gata… era impossível que não tivesse alguém ciscando por ali. Ela não era o tipo de mulher que ficava sozinha. Muitos amigos, gostava da noite, não havia convite para festa que ela recusasse. Não era o tipo de mulher para mim, embora eu confesse que sinta um pouco de nostalgia daqueles tempos em que eu era solteiro. Às vezes me sinto preso nesta rotina familiar. E agora com filho pequeno… tudo muda. Sair de noite, nem pensar. Bom, a Gabi nunca foi muito festeira mesmo. Sempre foi “família”, o sonho da vida da minha mulher era casar e ter filhos. Bem, pelo menos a ajudei a construir seus sonhos. Sinto-me bem ao lado dela. Porém, quando vi Isabel, alguma coisa se acendeu dentro de mim.
                              *
Puxa, que azar. Porque Carlos foi inventar de passar por aqui justo hoje? Será que foi para ver a vagabunda? Ali estava ela, de minissaia e salto alto. Muito bonita, sou obrigada a reconhecer. Ele já disse que Isabel é mais velha que eu, mas nem parece. Pelo contrário, ela tem um jeito de menina ainda. Algo que perdi desde que o bebê nasceu. Sinto-me mais velha, mais responsável, dona de casa. Não é tão boa a vida de casada quanto eu pensei que fosse. Só ficar em casa, cuidando da bagunça de marido e filho não é aquilo que eu esperava. Por que fui largar a faculdade para casar? Mas que burrice a minha! Deveria ter esperado um pouco mais para engravidar. Agora estou refém da minha rotina. Amo Carlos e meu filho, mas quando vi Isabel e sua exuberância, algo se apagou dentro de mim. Estou me sentindo uma gorda. Custei a entrar dentro destas calças jeans e coloquei esta blusa estampada para disfarçar a barriga que herdei da gravidez. Pelo menos Carlos nunca falou nada sobre meu corpo ter modificado. Droga, estou morrendo de inveja desta Isabel. É impressão minha ou este sacana do meu marido está de olho comprido para cima dela?!
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 27/12/2005
Código do texto: T90841
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37926 leituras)
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Patrícia da Fonseca