Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Manequim

        Minhas visitas ao shopping já eram quase diárias. Somente em caso de calamidade pública que eu não batia ponto por lá, sempre depois do meu trabalho. Motivo? Um manequim. Mas não era um manequim qualquer. O dito tinha a cara e quase o corpo do Guto, meu ex. Que droga… Eu havia descoberto o manequim, com aqueles incríveis olhos azuis vidrados uma semana depois do rompimento do nosso noivado. Eu estava acompanhada da minha mãe e foi ela quem me cutucou e falou bem alto, para meu total constrangimento:
- Aquele boneco ali da loja é a cara do sem vergonha do teu ex-noivo!
        E desde então – e já fazia praticamente mais de um mês – eu dava a minha passadinha no shopping, ficava em frente à vitrine namorando o manequim e voltava para casa, murcha. Dizia a mim mesma que no outro dia eu não voltaria, que lutaria contra meus próprios sentimentos e que aquela ferida aberta deixada pelo Guto iria cicatrizar. Porém, no dia seguinte, lá estava eu, grudada na vitrine de uma loja a qual nunca tive coragem de entrar. Eu nem queria imaginar o que as vendedoras deveriam estar pensando daquela mulher que aparecia todos os dias, no mesmo horário, com a mesma cara de louca, olhando para sabe se lá o quê na vitrine. Sim, porque eu disfarçava. Aposto que nunca ninguém jamais desconfiou de nada. Lógico que depois que minha mãe efetuou a descoberta, eu nunca mais a trouxe para passear comigo no shopping. Imagine se ela sai com mais um comentário daqueles? Cruzes.
        Um belo dia fiz tudo como pregava a minha nova rotina. Saí do trabalho e fui para o shopping. Até tinha recebido um convite de colegas para uma esticadinha em um bar, mas recusei. Eu ansiava ver o clone do Guto. Sei lá, já estava me achando meio neurótica. Um mês e meio de separação e aquela dor no meu peito ainda não havia passado. E eu nem tentava lutar para sair do buraco. Maldito manequim. Se ele não existisse, talvez minha ferida já houvesse fechado. Então, o choque. O manequim não estava na vitrine. No lugar, havia uma manequim, com a peruca loira e cheia de cachos caindo pelos ombros. Meio que surtei, pois além do manequim Guto ter sido despachado da loja, a que colocaram no lugar ainda era parecida comigo! Comigo! Juro, pensei em entrar na loja e peitar vendedoras, gerente, auxiliar de almoxarifado, qualquer um. Eu queria o manequim Guto na vitrine. Ou melhor, que me dessem o dito cujo para que eu levasse para casa. Será que achariam da minha proposta algo passível de internação?
Mas eu não fiz isso. Segurei minha dor e voltei para casa. Comuniquei a minha mãe que, caso ela fosse naquela mesma loja em que havia um manequim igual ao Guto, agora ela acharia um que era clone meu. Ela ficou entusiasmada. Disse que iria lá no dia seguinte, quando o shopping abrisse. Enfim, coisas de mãe. Tranquei-me no quarto, atirei-me na cama, curtindo a minha dor. Sem Guto, sem manequim… as fotos dele eu havia rasgado todas em um momento de raiva. Somente nos meus pensamentos eu tinha as imagens do Guto. E isto não era o bastante.
Batidas nervosas na porta me tiraram dos meus devaneios. Dei um pulo, apavorada. Era minha mãe. E ela segurava um telefone. Somente disse:
- É o Guto.
Disfarcei minha emoção. Como se fosse algo normal, peguei o telefone, agradeci e me tranquei de novo no quarto. Quando me sentei, as minhas pernas já estavam bambas, as minhas mãos suavam e eu estava à beira de um colapso. Porém, minha voz saiu impressionantemente firme:
- Alô?
- Oi, Dani. Sou eu.
Ahá! A voz dele estava um tanto constrangida. Sinal de que o Guto não estava à vontade. Mas o que aquele diabo queria comigo?
- Eu sei.
Decidi ser dura. Só que meu coração saltava pela boca. Não podia falar grandes frases, porque corria o risco de terminar gaguejando ou soluçando.
- Sabe – começou ele, no mesmo tom de voz – tenho pensado em você.
- Jura?
Comemorei aquela frase com um soco no ar, tipo Pelé. Ele foi em frente.
- Estive no shopping hoje de manhã.
- Ah é? – minha voz fraquejou. Nada de longas frases.
- E descobri algo sensacional.
Uma aliança de casamento, pensei.
- Tipo o quê?
- É meio esquisito o que vou falar, mas existe uma loja que tem um manequim com o seu rosto, seu cabelo, seus olhos… aliás, para ficar igual a você só faltam os óculos, mas isto é um mero detalhe.
Era caso para rir ou chorar? Perguntei:
- E você me ligou para dizer isto?
- Liguei para dizer que não posso viver sem você. Quer casar comigo?
Dani, se faça de difícil. Banque a durona.
- Quero, sim. Quando?
- O mais rápido possível. Vamos até o shopping amanhã comprar as alianças?
- Eu acho que podemos ir agora mesmo.
- Então eu passo aí.
- Certo, mas não demora.
Desliguei o telefone. Procurei, no peito, aquela velha ferida aberta que sangrava sem parar. Não achei. Olha, não adianta. Têm coisas que somente um homem pode sarar. Detalhe: tem de ser homem de verdade.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 27/12/2005
Código do texto: T91088
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37914 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 09:09)
Patrícia da Fonseca