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Love na Repartição

        Era sempre assim. Quando a repartição estava em total silêncio, somente se escutando o digitar no teclado dos computadores, começava a batucada. No início, o pessoal estranhou. Houveram alguns comentários velados, risadinhas e discussões no intervalo do almoço e do happy hour. Depois, todo mundo se acostumou à mania de Juarez, o novo chefe. Ele era assim mesmo. Ficar batucando na mesa era uma mania dele desde criança, ele explicara certa vez. Chegara a lhe render algumas suspensões na escola e outros vexames na época da faculdade. Lá na repartição todos já sabiam que quando o Juarez começava a batucar, era porque estava nervoso, angustiado.
Quando a Salete começou a trabalhar como digitadora, a batucação aumentou. Não era para menos. Salete era loira – de farmácia, mas loira – só usava roupas justas, provocantes e curtas, para deleite dos homens e implicância das mulheres. Quando abria a boca para falar, não falava. Miava. E o mais interessante de tudo é que Salete era inteligente. Juarez não podia olhar para Salete que começava a batucar na mesa. Flora, com pouco mais de 30 anos de repartição, jurava que nunca vira nada igual. Chegara mesmo a conversar com Juarez, chamando-lhe a atenção, discretamente. Juarez se fez de sonso e continuou com sua mania de batucar na mesa até ficar com os nós dos dedos roxos.
Então, um dia, para surpresa geral, Juarez convidou Salete para almoçar quando ambos se encontraram no cafezinho, no canto da sala. Foi um convite discreto, sem muito alarde para que ninguém mais além de Salete escutar. Mas Flora escutou. Assim como a Ivone, a Bia, o Tadeu e o Renatinho. E Salete disse que sim, com um sorriso satisfeito, miando que claro, por que não? Juarez voltou para sua mesa com um jeito de andar diferente, pomposo, quase arrogante. A batucação aumentou. Porém era diferente de todas as outras. Era alegre e não nervosa como as anteriores. O Renatinho conseguiu identificar um pagode entre as batucadas e, sem querer, quase ao meio dia, eram os dois a batucar na mesa, no mesmo ritmo, para horror das mulheres. Flora chegou a comentar em alto e bom som que Salete iria subir em uma mesa para sambar se os dois não parassem com aquele concerto pavoroso.
Toda a repartição assistiu à saída dos dois. Salete, com uma intimidade inesperada, enfiou seu braço no de Juarez e saiu rebolando ao lado dele, com suas longas pernas bronzeadas e sem uma única celulite. Bia jurou que enxergou uma subindo pela coxa e foi rechaçada pelos homens. Tadeu jurou que colocaria Juarez contra a parede para que ele revelasse seu segredo. Afinal, tanto ele próprio como Renatinho e outros mais, já haviam feito várias investidas em Salete e ela rejeitara a todos. Qual o segredo de Juarez? Era a sua mania de batucar? Se fosse este o caso, Tadeu estava disposto a batucar tudo o que pudesse para sair com Salete. Pois ninguém acreditava que Juarez tivesse qualquer chance com a moça. Era muita farinha para o caminhãozinho dele.
Para espanto e comoção geral, Juarez não veio trabalhar pela tarde. Salete também não. Flora tomou várias águas de melissa para se acalmar. Juarez não era disto. Aquela Messalina virara a cabeça do pobre homem. Renatinho e Tadeu ficaram mudos a tarde toda, não acreditando na boa sorte do Juarez. Talvez houvesse acontecido um acidente. Juarez poderia ter se engasgado com a espinha do peixe ou ter sido atropelado por uma jamanta, qualquer coisa do gênero. Bia e Ivone, pelo contrário, discursaram sem parar, exaltando o mau comportamento da vagabunda. Pobre Juarez, diziam elas, será iludido pela espertalhona. A tarde acabou, a repartição foi fechada e nenhuma notícia do Juarez e da Salete.
Entretanto, no outro dia pela manhã, lá estavam os dois. Quando o pessoal chegou, Juarez e Salete já estavam lá, trocando olhares carinhosos, as mãos e outras partes do corpo se esbarrando. Era um tal de “Ju” para lá e “Sal” para cá que ninguém agüentava mais. Ao sair para o almoço com uma enxaqueca torturante, Flora confidenciou para Ivone e Bia que estava sentindo falta do antigo Juarez. E aquela mania de batucar? Onde fôra parar? Ivone e Bia também se sentiam assim, meio perdidas. A paixão de Juarez era tão grande que ele parara de batucar. A mesa já devia estar sentindo falta dos dedos dele. Sua velha mania de infância se evaporara graças ao tesão que sentia por Salete. O velho Juarez havia morrido para dar lugar a um homem apaixonado e confiante. Nada como uma mulher, suspirou Flora, sem revelar para ninguém que amava Juarez e suas manias. É, talvez fosse a hora dela pedir aposentadoria.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 27/12/2005
Reeditado em 28/12/2005
Código do texto: T91091
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37926 leituras)
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Patrícia da Fonseca