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Amor Virtual Amor

A gente estava conversando virtualmente já fazia um mês. Ele vivia pedindo meu telefone, querendo me encontrar. Eu negando sempre. Nunca havia conhecido ninguém desta forma. Meus métodos sempre foram os tradicionais. Conhecer um cara num barzinho, festa ou algum lugar público. Rola um olhar, um sorrisinho, ele se aproxima, começa o papo e por aí vai. Transa ou namoro, mas tudo tradicional. Virtual não era comigo. Tudo soava muito estranho. Mas tive duas amigas que até casaram com homens que conheceram num chat destes que existem na internet. E agora chegara a minha vez.

Ele me mandara duas fotos. Achei uma gracinha. Mas ainda tinha dúvidas se aquele era ele mesmo. Mandei uma foto em que eu estava mais ou menos. Ele adorou. E queria me conhecer. Porém, eu tinha muito medo. Minhas amigas - e até minha mãe - me chamavam de bobona. Acho que no fundo, todas queriam me desencalhar. Quase trinta anos e sem namorado. Coitadinha da Fernanda. Como se conseguir um homem fosse a chave para o meu sucesso e felicidade. E ele, o Arthur, não parava de insistir.

Só que um dia, numa bela tarde de sábado, ele fez uma ameaça virtual: era aquele dia ou nunca. Levei um susto. Apesar dos meus receios, eu estava gostando daquelas nossas conversas, das trocas de confidências. Parecia que eu o conhecia há um tempão. Sabia onde ele trabalhava, quantos irmãos tinha, os problemas domésticos. Era tanta coisa que eu já sabia sobre a vida do Arthur, que a impressão que eu tinha era que quando eu criasse coragem para conhece-lo, ele já viria com uma aliança para selar nosso casamento. Mas ter que encontra-lo era algo que me enchia de pavor. Eu ficaria frente a frente com uma pessoa que virtualmente era o homem dos meus sonhos. Só que quando a realidade se impõe, ela é cruel. E se o Arthur tivesse bafo, chulé ou fosse mão de vaca? Óbvio que eu não tenho nem bafo, nem chulé e muito pelo contrário, mão de vaca é algo que jamais vão poder me chamar. Não tive outra alternativa e aceitei. Conforme orientação das mulheres da minha família, decidi que um lugar público seria mais apropriado. Perto de casa ficava um shopping. Combinamos de nos encontrar na frente do cinema. Talvez até assistíssemos um filminho. Era melhor que sentar num bar e ficar olhando um para a cara do outro, sem assunto nenhum. Só depois de tudo combinado é que me dei conta que nunca havia escutado a voz dele. Puxa, e se o cara fosse fanho?

Eu estava apavorada. Nunca tive nervos de aço. Ficava nervosa sempre que precisava encarar algum desafio. E este, ao meu entender, era imenso. Eu podia estar indo ao encontro do amor da minha vida ou de um grande chato. Cada passo que eu dava em direção ao shopping, eu agradecia por ter colocado mais desodorante que o habitual. Coloquei uma bata preta, esvoaçante, para ele não ver possíveis manchas de suor. Eu tinha quase trinta anos e queria minha mãe.

Fiquei sentada na frente do cinema por mais de uma hora. Nem sinal do Arthur. Eu tinha o número do celular dele, mas não liguei. Meu orgulho era forte demais. Imaginei o que eu iria dizer em casa. possivelmente ele me vira de longe, escondido, e chegara a conclusão que eu era um jaburu. Com o orgulho ferido e com vontade de esganar o desgraçado, levantei-me do banco e fui gastar. Já estava no shopping mesmo. Meus nervos que não eram de aço, agora estavam em frangalhos. Até vontade de chorar eu tive. Rejeição é pior para uma mulher do que ser chamada de gorda.

Entrei na loja decidida a estourar o limite do cheque especial. Escolhi as roupas mais sedutoras possíveis, minissaias curtas, decotes profundos, calças justas. Nem me dei conta que o Arthur estava próximo, observando minhas compras. Ele se aproximou de mim justo quando eu inspecionava uma calcinha de renda vermelha, com uma abertura na frente, tão pequena que achei que cabia na minha sobrinha de três anos. Arthur se apresentou, deu uma longa explicação pelo atraso, pediu desculpas e só não me avisou porque esquecera o celular em casa. Encontrara-me na loja por pura sorte e porque eu revelara, certa vez, que adorava gastar quando estava com raiva. E disse que eu era mais bonita pessoalmente do que por aquela foto que eu havia mandado.

Saímos juntos da loja. Eu com as mãos livres e ele carregando todas as minhas sacolas. Um gentleman.

Hoje é o dia do meu casamento. Estou apavorada. Tomei tanta água de melissa que acho que vou querer fazer xixi durante a cerimônia. Ao meu redor, todas as gurias estão calmas e rindo da minha cara. Já desisti e larguei tudo nas mãos de Deus. Paciência. Se meus nervos sobreviverem ao dia do meu casamento, posso me considerar satisfeita.
 
 
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 02/01/2006
Código do texto: T93556
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37855 leituras)
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Patrícia da Fonseca