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Somente Teus Olhos

Quando me deparei com teus olhos, meu coração sentiu que coisa boa não viria pela frente. Sentei no bar, tentando disfarçar que tudo estava bem. Olhei em volta, comentei que naquela noite não havia nenhum conhecido por ali, que a lua estava muito bonita e a noite agradável. Mas teu jeito permaneceu o mesmo. Teus olhos. sempre tão alegres, brilhantes, naquela noite estavam sombrios. Tentei relaxar, sorri, nem quis perguntar como havia sido teu dia, pois achei que seria o ponto ideal para que tu passasses a falar tudo aquilo que estava trancado no teu peito. Puxa, mas justo no Dia dos Namorados? Entre tantas datas festivas e comerciais do ano, tinha que ser justo no dia 12 de junho?

Teu presente estava guardadinho dentro da minha bolsa. Eu mesma havia feito o embrulho, porque não gostei daquele que a moça da loja havia feito. E dos teus olhos eu passei a olhar para as tuas mãos tentando visualizar algum pacote enfeitado, qualquer coisa que se assemelhasse a um presente. Nada. Nem um volume nos bolsos laterais da calça, qualquer coisa que insinuasse um mimo para mim. E agora? O que eu iria fazer?

Era Dia dos Namorados, mas eu torci desesperadamente que chegasse algum amigo teu, sentasse ao nosso lado e contasse histórias engraçadas para te fazer rir um pouco. Toda a minha criatividade utilizada para te divertir se evaporara com o frio do teu olhar. Que vontade eu teria de conversar coisas amenas contigo sabendo que o mundo estava prestes a desabar sobre mim?

E então você falou. E falou, falou, falou e falou. E eu escutei, escutei, escutei e escutei. E foi só isto mesmo que aconteceu. Você falou e eu escutei. Deixei você despejar toda as suas verdades, todo o seu descontentamento, todas as suas confissões. Procurei fazer com que a expressão do meu rosto se mantivesse inalterada, como se nada daquilo estivesse me atingindo.

E tu não tens a menor idéia de como tuas palavras me atingiram. Talvez tenha sido por isto que não falei nada. Sei que meu mutismo te impressionou, mas o que eu poderia dizer a um homem que confessava não me amar mais porque conhecera outra pessoa e estava apaixonado por ela? Contra certos fatos, não existem argumentos. E eu não tinha nenhum. Simplesmente decidi que não iria mendigar teu amor. Meu amor próprio sempre veio em primeiro lugar.

Quando você finalmente parou de falar, reparei que teus olhos ficaram mais iluminados. Aliviados. Tu estavas te livrando de um peso. Meu coração sangrou, pois o peso da tua vida era eu. E, para que eu não chorasse na tua frente, resolvi pegar minha bolsa e ir embora do bar e da tua vida.

E fui mesmo. Nem olhei para trás. Contudo, até que eu chegasse em casa, teus olhos me perseguiram como dois monstros assustadores. Joguei tuas coisas dentro de um saco de lixo daqueles grandes, deletei teu telefone do meu celular e teu endereço de e-mail da minha caixa postal. Nos dias que se seguiram também tentei te deletar da minha vida, te jogar na lixeira e clicar "excluir". Não deu certo.

Não esqueci teu celular e nem te deixei por muito tempo na lixeira. Quis dar um "del" em ti, mas acabei apertando na tecla do "insert". Tu estás ainda "insert" na minha vida. Hoje, passado mais de um ano, acabei sonhando contigo, com aquela última noite. E então resolvi te escrever este e-mail, só para que tu soubesses o quanto eu sofri no Dia dos Namorados do ano passado. Eu sei, o texto é meio longo, mas é para compensar o mutismo que tomou conta de mim naquela noite. Nem sei se tu serás capaz de ler tudo, mas antes que tu delete isto também, não estou digitando estas linhas como pretexto para que tu voltes para mim. É que esta noite sonhei com teus olhos e, sei lá, de repente me bateu uma saudade...
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 03/01/2006
Código do texto: T93663
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37911 leituras)
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Patrícia da Fonseca