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“João Carvoeiro”

   Certa vez numa fazenda lá do centro oeste mineiro, a “Fazenda da Lua”.
   O dono desta fazenda para aumentar sua emancipação cafeeira, cada vez mais apostava no desmatamento das árvores do cerrado e das matas ciliares dos rios.
   Os trabalhadores da Fazenda da Lua não tinham voz ativa nenhuma.
   O patrão mandava cortar as árvores, eles tinham que cortar, o patrão mandava mudar o curso dos rios, eles tinham que mudar.
   Neste ínterim na Fazenda da Lua, cresce um menino que com o tempo irá mudar o destino desta que é uma das mais belas das fazendas de Minas Gerais.
   Este menino se chama “João”, João Valente!Mais coitado, de tanto lidar com o carvão acabou apelidado de “João Carvoeiro”.
   João Carvoeiro não tinha tempo de estudar, saía bem cedinho pro cerrado com os pais, ainda com sono no olhar.
   João Carvoeiro vai descalço, de pés no chão de terra batida, acompanha seu pai e sua mãe na ingrata e desgraçada jornada da vida, leva na marmita fria: arroz, feijão, e uns dois ovos fritos, numa cabaça de abóbora seca, ele leva a água fresquinha colhida na mina da beira de um rio de águas claras que corre bem embaixo de sua casa, também foi o único que restou, na capanga ele leva um pedaço de rapadura, uns limões e uma garrafa de vidro com rolha feita de sabugo de milho cheinha de café frio.
   Chegando lá, o pai, mandado que é, corta as mais belas árvores de sucupira, a mãe dele com uma foicesinha vai desgalhando as pontas e João Carvoeiro vai empilhando as galhas mais finas.Depois de cortarem várias árvores de cedro, aroeiras, paus terra, jantares, sucupiras, jacarandás e os nobres pés de pequis, e araticuns, eles agora tinham que buscar um carro de boi para poder recolher toda esta madeira derrubada e transportá-la até a carvoaria perto do rio.
   João Carvoeiro agora virava João Candeeiro, espinhos entravam nas solas dos seus pés, pedaços de unha iam ficando pela estrada, o carro de boi ia devagar, às vezes ele parecia que ia virar.
   Chegando na carvoaria, João Carvoeiro tinha uma outra função, ele agora fazia o barro e tapava os buracos dos fornos, enquanto seu pai empilhava a madeira lá dentro para depois atear fogo, depois de carregar vários fornos ele então resolvem tirar uma fornada que ficou pronta, eles entram todos para dentro do forno quente e começam a pegar o carvão jogando-o dentro de balaios feitos de tiras de bambu.Em pouco tempo todos começam a tossir e a escarrar o pó do carvão que adentrara em seus pulmões.
   Pobre de João Carvoeiro, tão jovem ainda e já sofria tanto!
   Sua mãe sempre chorava escondida, morria de pena do seu filho amado.João era um menino muito esperto, quando acabava a comida, ele se enfiava cerrado adentro em busca de frutas da época, ora era araticum, ora era guabiroba, ora eram cagaiteiras.João Carvoeiro certa vez teve que andar mais de quilômetro para encontrar umas poucas sementes de pequi.
   Chegando na carvoaria, João com tom de preocupação assuntou com os pais:
   _Pai, mãe!Antigamente eu encontrava os pés de pequi bem aqui perto da carvoaria e também tinham muitos lá perto de casa, agora eu ando, ando e olha, está cada vez mais  difícil de encontrá-los.
   Seu pai, Chico da Mata, ficou sem palavras pois em tantos anos cortando as árvores do cerrado ele nunca pensou que estaria acabando com as frutas que eles tanto gostavam.

Agora ele começa a entender por que está cada vez mais difícil de encontrar as frutas, as flores e as plantas medicinais que seus antepassados gostavam e usavam tanto.
   Mas “seu” Chico da Mata nada podia fazer, pois seu patrão seguia a ganância financeira do mundo atual sem se preocupar com o que isto poderia lhe causar no futuro.
   Certo dia chegaram na Fazenda da Lua, vários homens da Polícia Ambiental para investigar o porquê de alguns rios estarem secando e muitos peixes estarem aparecendo mortos.Eles foram alertados por biólogos e ambientalistas da região, que uma devastação enorme estaria acontecendo por lá, por isso chegaram de surpresa, foram até um desmatamento e apreenderam várias máquinas de esteiras, moto serras, machados, foices e muitos facões, fecharam todos os fornos da carvoaria, um dos guardas da polícia ambiental de nome Gabriel disse a eles que esta área era de preservação ambiental e que eles estavam cortando muitas árvores protegidas por lei, como os pés de pequi por exemplo.
   O guarda Gabriel viu um menino todo sujo de carvão, o rosto dele estava todo preto, nele só se viam os lábios e a cor dos olhos, tinha no corpo uma camiseta rasgada na altura do ombro e um calção todo esfarrapado.
   O guarda chamou o menino e lhe perguntou:
   _Como é o seu nome filho?
   _Meu nome é João Valente, mas pode me chamar de João Carvoeiro.
   _O que é que você está fazendo aqui filho, onde estão seus pais?
   _Eu trabalho aqui com meus pais, você sabia que eu sou muito forte moço?Eu sou pequeno, mas consigo carregar até uma tora deste tamanho, dizia ele mostrando ao guarda o tamanho da madeira com as mãos, eu também consigo carregar um balaio cheinho de carvão.
   O guarda Gabriel ficou perplexo:
   _Você?Deste tamanho já faz tudo isso?
   _Faço sim seu guarda, por que eu tenho que ajudar os meus pais na carvoaria todos os dias.
   _Você estuda João?Perguntou o guarda.
   _Não, eu comecei um dia, mas tive que parar porque eu não tinha tempo para ir à escola.
   _Quantos anos você tem João?
   _Tenho nove, mas desde os cinco anos eu ajudo meus pais na lida da fazenda.
   _João, você não pode trabalhar nesta idade, você deveria era estar na escola, ou brincando com outras crianças.
   Ele então chama os outros e lhes conta a história de João.
   _Imagine só, esta criança me contou que trabalha desde os cinco anos, e ouçam esta agora, não sabe ler nem escrever, e também não sabe o que é brincar com outras crianças.
   Todos ficaram alarmados e pediram a João que os levassem até os seus pais.
   _Olha, eu moro muito longe!Disse João
   _Não importa João, nós iremos com você até lá.Falou o guarda Gabriel.
   Eles entraram no Jipe e partiram, passaram em áreas que mais pareciam um deserto, enfrentaram um sol escaldante, mas enfim chegaram lá.
   Seu Chico da Mata, pai de João, estava sentado na porta de sua casa fumando um cigarro de palha e amolando um machado velho.
   _Pai!Gritou João Carvoeiro.Estes homens da polícia querem falar com o sinhô!
   _Bom dia senhor, tudo bem, como vai?
   _Dia sêo guarda, em qui é qui eu posso ajudá ocês?
   _Estivemos conversando com seu filho e ele nos disse que não vai à escola e que tem que trabalhar em uma carvoaria todos os dias, isto é verdade?

   _É verdade sim sêo guarda, aqui neste fim de mundo as coisa num são tão fácil assim pra nóis, e a gente acaba têno qui botá o muleque mais cedo nu sirviço.Eu tenho dó do danadinho, purísso eu dêxo ele fazê só os sirviço mais leve.
   _Quanto o senhor ganha de salário trabalhando aqui na fazenda seu Chico?Perguntou o guarda.
   _Ih sêo guarda, já vai pra mais di um ano qui eu trabáio sem ganhá nenhum tostão, o patrão vem aqui, tráis pra nóis um arrozinho trêis quarto, uns pedaço di retáio, umas farinha, uns pedaço di toicinho, umas ferramenta, mais dispois ele cobra tudo da gente, e quando nóis vai lá pra recebê o ordenado, ele fala qui nóis tá é devêno pra ele;Ai de nóis si num é essa hortinha qui nóis tem aqui em casa, nóis tava é todo mundo morto di fome, o João ais vêis busca uns ananais pra nóis, ôtra hora ele pega uns inhames e assim nóis vai vivêno nas graça de Deus nosso Senhor.Antigamente inda tinha uns pêxinho qui a gente pescava nu riberão, mais agora os rio tá é secâno tudo!
   _E o senhor sabe por que é que os rios estão secando seu Chico?
   _Sei não sêo guarda, deve de sê pru causa desse solão qui tá di matá!
   _Não é não seu Chico, os rios estão secando é por causa das árvores que estão sendo derrubadas, sem as árvores, seu Chico, rio nenhum sobrevive.
   _Ô pai!Entãofoi por isso que aquela lagoa secou depois que nóis cortâmo as árvores que tinha em vorta dela, disse João.
   O guarda da polícia ambiental ouvindo o que dissera o menino, tentou explicar a eles o mal que estavam fazendo para o meio ambiente sem saber.
   _Olha João, é isso mesmo, quando a gente derruba a mata ciliar que protege as nascentes dos rios e dos lagos, naturalmente o que acontecerá é esses rios e lagos secarem.Temos que proteger o meio ambiente.
   João Carvoeiro sem titubear pergunta logo ao guarda:
   _O quê que é meio ambiente seu guarda?
   _Meio ambiente, João, é tudo isso ao nosso redor, é formado por todos os elementos, seres vivos e não vivos como a terra, o ar e a água.Precisamos cuidar bem da natureza João.Quando surge uma ameaça ambiental como esta que está acontecendo aqui na Fazenda da Lua, precisamos agir com rigor, punir os responsáveis, e fazer um criterioso monitoramento das áreas degradadas no intuito de recuperá-las e trazer de volta os rios, as matas e os animais de volta ao seu habitat natural.O cerrado é um ecossistema em extinção e cabe a todos nós proteger a biodiversidade de plantas, animais, pássaros, insetos e peixes existentes nele.
   João colocou a mão na cabeça e perguntou:
   _O sinhô entendeu alguma coisa pai?
   _Ara...num intindi nada João.
   O guarda tirou o chapéu, bateu ele na perna e disse:
   _Olha, vou resumir pra vocês;se acabarem com os rios, se acabarem com os animais e os insetos, isto aqui vai virar um deserto, vocês entenderam!Bom, agora temos que ir.Sêo Chico!Não deixe mais o moleque trabalhar não, ta bom!
   Vamos informar ao conselho tutelar e eles enviarão alguém aqui para avaliar e ver o que é que pode ser feito, não só a respeito de João mas de todas as crianças desta fazenda.
   O guarda passou a mão na cabeça do menino e depois partiram pra sede da fazenda.Chegando lá não encontraram ninguém, o dono da fazenda ao saber da fiscalização entrou em seu avião e viajou para a capital.
   Mas não teve jeito, em pouco tempo ele foi preso, todos os canais de televisão divulgaram a notícia e além disto ele foi multado e obrigado a pagar todos os encargos trabalhistas aos seus empregados com juros e correção monetária e também terá que recuperar todas as áreas degradadas.
   João foi para a escola, estudou e se formou em agronomia, hoje em dia ele é o encarregado da fazenda, João recuperou os rios, as matas, acabou com as vossorocas, reflorestou os morros com árvores nativas e implantou um sistema de manejo sustentável, assim eles poderiam retirar certas árvores, excluindo as de lei, sem prejudicar o meio ambiente.
   João incentivou o eco turismo e acabou com a pesca predatória e hoje a Fazenda da Lua serve de modelo para todas as outras.













   

Belchior Contins
Enviado por Belchior Contins em 08/01/2006
Código do texto: T96221
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Belchior Contins
Lagoa Santa - Minas Gerais - Brasil, 50 anos
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Belchior Contins