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Guerra de Torcidas

        Nosso namoro estava indo à mil maravilhas. Gostávamos das mesmas coisas, adorávamos os mesmos filmes, curtíamos os mesmos shows. Disse para todas as minhas amigas que havia encontrado o homem da minha vida. Minha mãe, então, nem se fala. Adorou o genro. Solícito, ele a colocava no carro e juntos, faziam todas as compras do supermercado. Obviamente, ele se tornou o genro número 1 sem fazer quase nenhum esforço. O Toninho, na opinião da família era o máximo. Tinha valido a pena a espera, eu dizia para mim mesma.
Domingo, meio dia. Churrasco na casa da minha avó. Família toda reunida, quem ainda não conhecia o Toninho, estava ansioso para conhecer. Ele já estava famoso. Havia conseguido me desencalhar. E eu estava morrendo de medo que alguém fizesse algum comentário neste sentido. Sempre tinha um tio gordo ou uma prima solteirona e jaburu para encabeçar brincadeirinhas sem graça e constrangedoras. O que poderia acontecer?
Aconteceu. Toninho chegou. Parou o carro na frente da casa da vó, buzinando. Como era de se esperar, já estava íntimo de quase toda a família. Abri a porta cheia de amor para dar e vender e levei um choque. Ele estava de verde. Camisa do Palmeiras. A bermuda também era da mesma cor. Parecia um periquito. E eu odeio o Palmeiras e qualquer coisa relacionada a ele. Como eu nunca havia perguntado o time do Toninho? Como ousara me esquecer de um detalhe tão importante?
- Toninho, o que é isto?
Lembro que parei em frente a ele, na porta, barrando a entrada. Ele me olhou surpreso.
- Isto o quê?
- Esta camisa, Toninho! O que significa isto?
Minha voz, um pouco alta, chamou a atenção de alguns primos adolescentes. Inocentemente, ele respondeu:
- Palmeiras, meu amor. Eu torço para o Palmeiras.
Ele proferiu aquela frase tão naturalmente que eu quase vomitei. Mas não tive tempo para vomitar toda minha decepção em cima dele. Meus cinco primos adolescentes, que haviam escutado nosso curto e triste diálogo, pularam em cima do Toninho como se estivessem comemorando um gol. Minha família era praticamente Palmeirense. Só eu torcia para o São Paulo e um que outro para o Corintihians. Quando o Palmeiras desceu para a segunda divisão, nossa casa era o retrato da tristeza e da dor. Só eu e mais uns cinco comemoramos o descenso. E agora isto… o único homem que um dia parecia ter me amado agora surgia totalmente vestido de verde. Presumi que as cuecas deveriam ser da mesma cor tamanha a paixão que eu podia ver enquanto o Toninho e meus primos, abraçados, berravam no meio da sala algo tipo “Palmeiras é o terror, dá-lhe Verdão”  e por ai afora. Que horror! Naquela loucura que se seguiu, eles foram parar lá na churrasqueira. Meu pai terminou por se integrar à turma e quando cheguei, desolada, no pátio, havia umas quinze pessoas – incluindo o Toninho – cantando o hino do verdão. Uma cena para lá de deprimente.
- Toninho, venha cá.
Minha voz saiu em tom normal, mas eu queria esganar o Toninho. Ninguém me ouviu. O escarcéu era medonho. Minha prima, corintiana, parou ao meu lado e perguntou:
- Você não sabia?
Nem respondi. Pela minha cara estava óbvio demais que eu desconhecia a preferência clubística do meu namorado. Ou quase ex. Ele não podia ter me escondido aquilo. Toninho sabia que eu torço para o São Paulo. Custava ele me revelar toda a verdade, por mais terrível que fosse? Palmeirense?!
Como ele não escutou minha voz, avancei no meio daquela horda e o retirei, debaixo de vaias, e o arrastei até a salinha da TV. Tranquei a porta e o encarei. Ele também me encarou com a cara mais inocente do mundo.
- Por que você nunca me disse nada?
- Disse o quê, amorzinho?
Cínico, pensei. Acertei uns tapas nele e enfiei meu dedo na camisa verde, acusando:
- Que você torce para o Palmeiras! Por que nunca me contou toda a verdade?!
- Sei lá, achei que não havia necessidade. Não era algo tão relevante assim.
- Você… você parece o Incrível Hulk! – esbravejei – Este verde chega a me doer os olhos.
- O verde é a melhor coisa para acalmar os olhos – retrucou Toninho, calmamente – Se você fica muito tempo na frente do computador, a melhor maneira de repousar os olhos é focá-los em um ponto verde. Então…
- Fora daqui! Fora da minha casa, do meu churrasco, da minha vida!
- Mas amorzinho – argumentou ele, sem sucesso.
- Eu pensei que havia arrumado um companheiro para me levar aos jogos do São Paulo! E agora descubro que você é Palmeirense! Sabe como estou me sentindo? Somos rivais, entendeu? Rivais!
- Mas não no amor – respondeu Toninho, tentando me abraçar – Não vamos permitir que nossas diferenças clubísticas nos afastem. Isto pode até se tornar excitante.
Olhei para ele, tentando analisar aquela frase. Por fim, perguntei:
- Você deixaria de ficar comigo para ir a um jogo do Verdão?
Toninho hesitou. Não respondeu no segundo seguinte, como eu esperava que fizesse. E aquilo determinou o fim de nossa relação. Empurrei-o para fora da sala, mas havia um grupo de alviverdes esperando que nós terminássemos de conversar. Ele foi cercado outra vez. Minha avó apareceu de repente, agora vestida com uma camisa do Palmeiras. Fiquei sabendo, mais tarde, que havia sido o Toninho que a presenteara em uma outra ocasião. Traição. Eu havia sido traída por toda minha família e pelo Toninho também.
De qualquer forma, talvez nosso namoro estivesse fadado ao fracasso. Dois meses  – e muitas lágrimas – depois, consegui um emprego no Sul do país. Acabei me apaixonando por um gaúcho. Gaúcho e gremista. Tricolor como eu.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 11/01/2006
Código do texto: T97169
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37857 leituras)
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Patrícia da Fonseca