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Princesas e Dragões

        Havia uma princesa que morava num castelo encantado, num reino ali adiante. Todos as noites, quando as estrelas apareciam no céu, a princesa subia até a torre mais alta e passava horas sonhando acordada com seu príncipe encantado. O velho rei dizia que ele estava a lutar em terras distantes, buscando por glórias ainda inalcançáveis, duelando com dragões em reinos além-mar.
Os anos passaram e o príncipe não voltou. O velho rei um dia morreu e quem assumiu o trono foi o irmão mais velho da princesa. Como ela já estava ficando um pouco velha, com mais de vinte anos, o novo rei decidiu que ela deveria passar o resto dos seus dias confinada em um convento. E lá se foi a princesa, em uma carruagem puxada por lindos cavalos brancos, cumprir seu destino. Tudo isto porque seu príncipe encantado não aparecera montado em lindos cavalos brancos como aqueles que a levaram para o convento que seria o seu túmulo. Ele perdera a guerra para os dragões e para os exércitos de reinos inimigos e deixara a bela princesa ficar prisioneira atrás de muros altos e fortes. Para todo o sempre.
Havia uma mulher que morava em um prédio numa avenida ali adiante. Todos as noites, quando as estrelas apareciam no céu, ela ía até a janela do seu quarto e ficava observando o movimento dos carros dezessete andares para baixo, planejando o que faria do seu tempo no dia seguinte. Precisava chegar cedo no trabalho, lutar contra homens poderosos que procuravam subestima-la a cada instante, duelar contra todos aqueles dragões que apareciam na sua frente e que queriam queima-la com suas línguas de fogo.
Esta não casou também. E nem ficou horas sonhando acordada esperando seu príncipe chegar. Esta mulher que nunca seria uma princesa na sua vida, era dona do seu próprio coração, vontades e desejos. Quando chegou aos trinta anos descobriu que ainda não atingira o seu auge como mulher. Estava apenas no começo. O mundo a aguardava e não seriam os muros que a sociedade construiu que fariam com ela desistisse de galgar os degraus do sucesso que tanto planejava do alto da sua torre no 17º andar.
Não que não sentisse falta de um amor. Claro que amar também era necessário. Mas ao inverso das princesas de terras distantes, ela sabia que um homem não seria jamais capaz de consertar a vida de qualquer mulher que fosse. Alguns até tinham o péssimo hábito de desmoronar com todos os alicerces e fundações. E um aconchego é bom de vez em quando, um carinho, uma noite de amor selvagem. Sim, esta mulher do século 21 também ficou diversas vezes conferindo segundo a segundo o seu celular para ver se aquele cara, com jeito de príncipe não iria ligar. E se ele não ligasse, nada que uma boa volta pelo shopping ou um chopinho com as amigas não resolvesse. Não somos mais princesas. Não deixamos mais que decidam nossas vidas, nos enclausurem em conventos ou atrás de muros de um relacionamento de fachada.
Ser princesinha não tem mais graça. O bom mesmo é lutar contra dragões.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 11/01/2006
Código do texto: T97170
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37847 leituras)
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Patrícia da Fonseca