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Um pum no consultório

Não sei se isto também acontece com você, caro leitor, mas comigo é assim: sempre que tenho que sair de casa, minutos antes (para ser mais precisa: um minuto e vinte segundos antes) me dá vontade de ir ao banheiro. Para aquela atividade mais demorada, sabe? Pois é. Naquele dia não foi diferente. Ao dar a última ajeitada no cabelo, em frente ao espelho do quarto, senti o sinal familiar: um rebuliço no intestino. Olhei para o relógio, calculei o tempo. Não, já estava atrasada. Quem sabe na volta? Enquanto isso, tentaria pensar em outra coisa.

Segui para o carro. Iria a uma consulta na ginecologista. Horário marcado, sabe como é. Foi aí que me toquei: logo na ginecologista?! E se na hora do exame de rotina (aquele mesmo, da posição ginecológica que o leitor bem sabe qual é, ou imagina, no caso de ser homem e não ser da profissão) eu deixasse escapar um pum?! Bem na cara da doutora!

Pra que eu fui pensar nisso? Durante todo o trajeto até o consultório, fui soltando terríveis puns, ora mal cheirosos, ora barulhentos (desculpe o leitor, pelo tom escatológico da história, mas acho que não há outra maneira de me fazer entender).

Voltemos aos fatos. Deixei o carro no estacionamento e segui para o prédio. Até a entrada do elevador, havia conseguido me conter, passando heroicamente pela atendente na recepção. Mas ao ficar sozinha dentro dele, aproveitei para me livrar de todos que estavam na fila de saída. Sorte que não entrou ninguém durante o percurso.

Entrei na ante-sala do consultório e enquanto me apresentava à recepcionista, me esqueci da turbulência gastrintestinal. Mas depois de me sentar, olhar em volta e ver uma, duas, três, quatro pacientes a minha frente na ordem de consultas, me enervei o suficiente para provocar outro motim orgânico.

Com um esforço supremo, conseguia soltar vagarosamente e, mais importante, silenciosamente as inoportunas ventosidades anais (repare o leitor que estou tentando tornar o texto mais literário). Entretanto parecia que quanto mais eu me livrava delas, mais elas procriavam. Decidi, então, ignorá-las. Mergulhei na leitura duma dessas revistas de futilidades e, por uma hora, fiquei livre do tormento (vez por outra, me inclinava disfarçadamente para uma eliminação incontida).

Estava tudo indo muito bem, ou melhor, a contento, quando chegou a minha vez de ser atendida. Levantei, peguei minha bolsa, andei até a entrada da sala, entrei, cumprimentei a doutora, sentei de novo e iniciou-se a consulta. Perguntas de praxe, respostas de praxe e eu fui me desconcentrando a ponto de me lembrar do que não podia acontecer. Mas não tive tempo de analisar a minha situação interna, a médica se levantou e me indicou o caminho do banheiro para a retirada da roupa. Apesar do local propício, me mantive inalterada. Na verdade, não parei para pensar onde estava, ou o que se faz num lugar daqueles; me despi com rapidez e vesti a camisola aberta na frente.

Quando saí, ela já me esperava na sala de exames. Sentei-dentei na cadeira-cama e apoiei as pernas no local apropriado. Nada parecia me incomodar, a não ser a apalpação necessária nos seios. Até me distraí, quando a médica começou a falar comigo. Mas no momento em que ela apertou a minha barriga em busca de alterações suspeitas nos órgãos internos, senti uma bolha de ar se mover. Foi o estímulo de que ela precisava para se soltar. E quanto mais a médica apertava, em diferentes pontos do ventre, mais eu sentia a bolha se mexer. E o que era uma pequena bolha de ar foi adquirindo dimensões gigantescas. Por onde passava, outras se juntavam a ela, como numa passeata grevista. E iam caminhando e cantando (bem, cantando ainda não, mas ao sair... Não! Não podiam sair. E se fizessem barulho?! Pois são esses que fazem barulho: os grevistas! Não, não quero transformar isto numa história política. Voltemos ao pum, quer dizer, ao pré-pum.)

Fiz um esforço descomunal para contê-lo, mas parecia determinado a sair pelo mundo, numa rebeldia incontrolável. Talvez por ter sido deslocado violentamente de seus esconderijos. Tentei pensar em outra coisa. Como se o cérebro lá em cima pudesse controlar o que acontecia lá embaixo. E ainda aquela cadeira moderna me deixava na diagonal, facilitando a ação da gravidade. Então o pior aconteceu: a doutora se postou bem à frente da minha genitália (que palavra horrível!) e introduziu o espéculo para afastar as paredes vaginais e começou a me examinar. Foi o empurrão que faltava para o pum sair. Sentindo que nada poderia detê-lo, e com medo do possível barulho, apelei para a única solução que me veio à cabeça: simulei um espirro, barulhento o suficiente para sufocar qualquer outro ruído corporal. O repuxo que provoquei em meu corpo fez com que o espéculo cortasse uma das paredes da vagina, provocando uma pequena hemorragia. Gritei, assustada com a dor. Imediatamente, a doutora retirou o instrumento e providenciou a sutura do ferimento. Resultado: um mês sem poder sentar e dois meses de jejum sexual.

Nunca mais saí de casa sem antes dar uma passadinha no banheiro.
Aline Ponce
Enviado por Aline Ponce em 11/01/2006
Código do texto: T97466
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Sobre a autora
Aline Ponce
São Carlos - São Paulo - Brasil
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Aline Ponce