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FEMME FATALLE

Ela era uma simples menininha criada ao som de RPM e que de vez em quando se via obrigada a ouvir Roberto Carlos, pois sua mãe ainda era uma de suas fãs. Quem era ela? Não se pode dizer ao certo, pois Deborah Prado não era só uma. Era duas, cinco, nove meninas-moças convivendo harmoniosamente num corpo que se fazia mulher. Ingênua? Podia ser. Matreira? Outro tanto. Refinada? Quase sempre. Pois a mulher que despontava daquele corpo tipo violão estava arrasando corações e dominando as técnicas da sedução como uma artista global o faria, sem, no entanto, ser.
Precoce no talento de ser mulher, aos treze anos já despertava paixões na sua rua, quando desfilava de forma natural, usando um cabelo longo, tipo castanho ondulado, onde madeixas mais generosas escorriam por sua face, provocando uma sensualidade latente naquele corpo de menina. Seu sorriso simpático e os olhos meio estrábicos denunciavam uma garota safadinha que se escondia por detrás daquele rostinho bonitinho.
Mas ela não era apenas um rostinho bonitinho. Quando completou catorze, resolveu cortar o cabelo bem curtinho, num corte radical, deixando poucos fios por cima da orelha e acentuando ainda mais o olhar, tornando-o vivaz e audacioso. Também seus lábios, agora muito mais maquiados com um batom vermelho Ferrari, expressavam a sensualidade de uma mulher que desabrochava sorrateira naquele corpo juvenil. Ela parecia um menino travesso num corpo de mulher.
Porém, ela não era apenas uma artista da caricatura e do disfarce. Aos catorze e meio experimentou um momento fértil de mudanças em sua vida. A libido que aflorava e a deixava mais com jeito e vontade de mulher, ampliou os traços de sua face, aumentou as bochechas, deu densidade e sensualidade as suas expressões feminis e provocou uma revolução em seu jeito de ser, propondo-lhe uma nova plástica, mais feminina, com mais adereços e um jeitinho de mocinha que na minha cidade ficou conhecido como “pega rapaz”.
Deborah, no entanto, era muito mais que uma garotinha mimada querendo carinho de macho latino. Ela queria dominar por completo todas as artes de ser mulher e ter o homem – qualquer homem e todo homem – aos seus pés, instigado pelo desejo e pela paixão e submisso aos seus caprichos desenfreados. Foi assim que, aos quinze, assumiu um ar de Lolita esperançosa e transformou-se na menina traiçoeira que arrastava para junto de si toda espécie de homem, de garotos imberbes a velhotes safados. A todos, ela subjugava com maestria e determinação.
Quando completou quinze e meio, ela resolveu fazer uma revolução em seu visual e fez um tratamento nos cabelos, provocando ondas volumosas que a tornavam uma figura de marcante presença, onde se destacava novamente seu sorriso sedutor e seu jeito persuasivo de ser. Deu umas borrifadas mais claras no cabelo castanho escuro e assumiu um ar de artista que a todos confundia, pois postura e vontade ela tinha. Passou a ser convidada para as festas e era a parceira ideal para danças e similares.
Mas nem só de festa vivia nossa linda Deborah. Por isso, quando completou dezesseis, danou de prender os cabelos nas laterais, utilizando-se da famigerada maria-chiquinha e assumindo um ar de sapeca, que transpirava sensualidade por todos os poros. Foi nessa ocasião que foi para a cama pela primeira vez, depois de uma festa mal resolvida na casa de um amigo e de uns bons goles de cerveja que lhe deram a beber. Sofreu bastante, pois a coisa não foi natural. Ela não teve prazer e se sentiu violentada em seu direito de fazer amor quando quisesse e num ato que fosse legal para ela.
Para mudar os rumos de sua vida e, quem sabe, tentar apagar a malfadada experiência recentemente vivida, ela entrou numa fase loira, investindo seriamente numa tintura nos cabelos que a deixou completamente mudada, numa transformação de layout total, deixando-a totalmente repaginada. Isso se deu aos dezessete, quando mais parecia uma artista americana de filmes pornôs, sendo que seu biótipo era bem brasileiro onde sobressaía o bumbum e não os seios enormes, siliconados, de uma Pámela Anderson, por exemplo. Carregou ainda mais no batom vermelho, acentuando seus lábios grossos e sensuais e fazendo um contraste visual com o loiro do cabelo. Nesta fase namorou muito e começou a fazer alguns trabalhos para revista, desfilando também nas passarelas, produções de verão e de inverno da alta costura de sua cidade natal.
Quando completou dezenove, escancarou de vez esta tendência que vinha crescendo dentro dela desde os dezessete, por uma ascendência em seu corpo e mentalidade de uma mulher fatal, que gostava de ser apreciada, amada, desejada e paparicada. E Deborah Prado, nossa linda fêmea brasileira assumiu um visual estilo sexy total em que toda a sua postura e suas roupas e as caras e bocas que fazia transpiravam sensualidade e convidavam ao prazer.
Precoce na arte de ser mulher, o que se via nesta brasileira linda era uma capacidade insuperável de ser a mesma e ser outra ao mesmo tempo, de ser alguém hoje e outra pessoa amanhã, de mudar de cara, sem comprometer a essência de sua feminilidade latente. As mudanças que assumia com pressa e com artifícios devidamente estudados provocavam percepções diferentes de sua personalidade, mas emprestavam consistência à dinâmica que empreendeu para sua vida.
E foi assim que Deborah lançou-se a uma lista de experimentos infinitos. As mudanças de look que a nossa femme fatalle empreendia de tempos em tempos a transformavam nessa mulher inquieta e interessante que desperta paixões por onde quer que ande. E por que uma alma inquieta habitava aquele corpo, quando fez vinte e um anos, resolveu mudar radicalmente seus conceitos. Abandonou o louro Marilyn Monroe e reassumiu o castanho claro, investindo na franja reta na altura das sobrancelhas, cortada de uma têmpora a outra, num modelo ao mesmo tempo sutil e delicado.
E assim nossa menina-moça fez-se mulher. E rodou o Brasil. E rodou o mundo. Sempre nos braços da fama, depois que foi contratada pela Nata Brasil, uma das grandes agências de modelos a despontar em solo brasileiro. E sempre nos braços dos homens que deram um empurrãozinho em sua carreira e fizeram dela essa mulher que acreditava ser uma fêmea fatal.
Mas os tempos passaram, a celulite apareceu, a barriguinha cresceu, os seios despencaram e Deborah Prado voltou para Volta Redonda, sua cidade natal, cumprindo o ciclo da vida de uma mulher que, após a ascensão pela beleza, experimentou a queda pela falta do que tinha e que já não tem mais ou pela diminuição dos dotes intrínsecos ao ser mulher ou ainda pelo rodízio cruel neste mundo caricato da moda, onde rostos bonitos se sucedem a rostos bonitos e se vive vida efêmera, fugaz e vazia, num arremedo de existência que as menininhas sonhadoras do Brasil vivem a desejar, sem, no entanto, saber o mundo que as espera lá do outro lado do espelho da vida...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 12/01/2006
Código do texto: T97749
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima