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O QUARTO EMUDECEU

O QUARTO EMUDECEU

Entra pé ante pé. Um forte chulé de calçado recém tirado invade as narinas, provocando um recuo momentâneo. Será mesmo verdade! Mas não vê os sapatos. Resolve sentar no sofá da sala e aguardar um pouco. Elisa deve estar em casa, a porta estava aberta. Pode ser o chulé do tênis dela que sentiu. Certamente não o trairia em pleno sábado à tarde, sabendo que ele poderia voltar mais cedo depois da discussão da manhã. Opusera-se a que Damiano fosse jogar seu futebol costumeiro. Cismou em dar um passeio na orla, a primavera já dá condições de praia, até biquini novo já comprou. Ele não concordou, jamais deixaria os colegas na mão. Elisa embirrou e, nem ao almoço, quis conversa. Toma um banho sem pressa, mas a angústia aumenta ao passar dos minutos. É a primeira crise mais forte entre eles desde que estão juntos. Sai do banho e quer ir ao quarto para se vestir. A porta está trancada. Bate. Sem receber resposta, bate mais forte, chama. Ela não responde. Estaria dormindo ou fazendo muxoxo para castigá-lo? Ou teria saído levando a chave do quarto? A última hipótese julga pouco provável. Sem outro remédio, volta a usar o abrigo sujo e suado e vai para fora ver a janela. Está fechada e bem trancada. Certifica-se que não está sendo visto por transeuntes na rua e bate forte na veneziana. O silêncio no quarto é total. Volta ao sofá e conjetura sobre as medidas a tomar. Deve simplesmente esperar que ela volte ou então se acorde. O cheiro do chulé volta. Agora duvida que possa provir do seu próprio calçado. Poderia ter sido dele quando o sentira na chegada. Pouco provável; cheiros somente emanam de calçados depois que são tirados dos pés. Volta a incômoda sensação, de que está sendo traído por outro, que sentira depois daquela ligação anônima denunciadora. O pensamento faz lembra-lo do celular para ligar no número dela. Efetua a ligação e no mesmo instante ouve o sinal de chamada vindo da estante. O fato deixa Damiano ainda mais preocupado. Se ela tivesse saído, na certa teria levado o aparelho. Mas se estiver dormindo, por que o deixou na estante? Ou estaria acompanhada mesmo e aguardando o momento para o parceiro fugir, quem sabe pular a janela? Volta a ligar a tevê e tenta encontrar um programa atraente, passa por todos os canais; como nada interessa, deixa-a sintonizada aleatoriamente. Reclina-se. Cochila por alguns instantes. Não quer dormir porque alguma coisa terá de ser feita. Não sabe o quê! Liga para a casa de sua mãe. Conta-lhe o ocorrido. Ela pede que se mantenha calmo, não perca a cabeça, mulher nova e bonita é assim mesma, jeitosa e fazendo-se difícil e rogada. Decerto está na casa de uma vizinha amiga e fica se divertindo às custas da angústia dele! É só ficar na sua sem qualquer alarde que ela não vai demorar e voltar. Pode ser que seja assim mesmo. E se não for? Pensa em dar uma volta. Vai até o carro que deixou na rua. Coloca a chave na fechadura quando se lembra de que não pode dar chance para alguém sair de sua casa, sem que saiba quem seja. Passaria a ser um corno facilitador. Volta ao sofá ainda mais incomodado. Liga para a casa da sogra. Não sabem de Elisa. E ainda ficam preocupados. Arrepende-se de tê-lo feito. Resolve observar o movimento da rua discreta e de forma que pareça distraído. Quem sabe não perceba movimentos que elucidam o enigma. Nas casas do lado oposto nenhum sinal dela. Os vizinhos da direita, um casal de velhos, foram visitar filhos em outra cidade e na direita mora uma família de crentes que, a essas horas, estão na igreja. Os outros ele não conhece. O bairro é composto por pessoas que trabalham e bem poucos freqüentam a Associação de Amigos do Bairro. Já pensou até em sugerir que mudem esse nome para Associação de Desconhecidos dos Vizinhos. A crítica, também a poderia atribuir a si mesmo. Os devaneios parecem ajudar a suprimir um pouco a angústia da espera por uma definição. Mas Damiano precisa desfazer idéias que não levam à solução de seu problema. Difícil é decidir-se por alguma iniciativa que não acabe sendo uma idiotice. Esse chulé que entra nas narinas, parece aumentar mais ainda. Leva os sapatos para o banheiro. Parece não ser deles e nem das meias, que deixou junto, a proveniência dos odores que sente. Resolve procurar por todos os cantos acessíveis da casa, mas não encontra nenhum sinal de calçado, exceto os seus. Pensa nas chuteiras e lembra-se que nem as tirou do carro. Dos pés é impossível que venha pois o banho retirou qualquer indício de suor de seu corpo. Poderia estar no abrigo, porém o tecido não retém odores, logo é impossível que o cheiro emane dele.Escuta passos que vêm se aproximando, que logo entrarão pela porta. Damiano fica inerte, imaginando ser Elisa, quem sabe, acompanhada. Resolve fazer-se de emburrado. Vai vingar-se dos momentos chatos que passou na incerteza. Os passos param. Ele fica em silêncio, desligando também a tevê. O conselho da mãe ainda lhe soa nos ouvidos. Mulher nova e bonita é jeitosa! Não quer que ela note sua presença sem ter entrado em casa. Os passos não avançam, mas, também não se afastam. Elisa estará sozinha? Se não estiver, quem é a companhia? Durante um minuto eternamente longo espera. O ronco de um carro acorda-o da dormência que o silêncio causou no cérebro aturdido. Nenhuma nova percepção dos passos! Teria sido uma alucinação? Será a mesma coisa misteriosa do chulé que não quer sair das narinas? De um salto põe-se de pé. Sai pela porta afora! Não vê ninguém!Uma súbita necessidade obriga-o a ir ao banheiro. Demora-se mais do que gostaria. O mal-estar parece não querer deixá-lo. Ainda preso à necessidade parece ouvir os passos outra vez. Uma forte dor nos intestinos não permite que volte para a sala. Aguça os ouvidos, mas os passos calaram. Agora consegue livrar-se do vaso, puxa a descarga e depois da higiene feita volta para a sala. Sua frio. Ao voltar a si tudo gira. Os lençóis alvos do leito hospitalar cheiram a perfume. Confunde o rosto de uma enfermeira com o de Elisa, cujo nome balbucia. Após longos penosos minutos a mente recupera a capacidade de orientação e estabiliza os sentidos por completo, embora a visão ainda um pouco turva.
- Por que estou aqui?
-    Trouxeram você há duas horas. Sua mulher o encontrou desmaiado no sofá.
- E onde ela está?
-    Aguardando aí do lado de fora. Quando você melhorar entrará por uns minutos.
- Mas eu corro tanto perigo?
-    O perigo já passou. A pressão está quase normal. Logo poderá ir para o quarto.
- Não, que eu estou na UTI?
- Está, mas só para se recuperar mais rápido?
- E o que me aconteceu?
- Isto só o médico vai poder lhe dizer. Ele logo virá para liberá-lo daqui?
- Pode chamar a Elisa?
- Só depois que o médico vier?
O doutor Claiton entra e expressa um sorriso ao encarar Damiano.
-    Então o senhor queria experimentar um desmaio. Tão novo e sucumbe a uma tensãozinha! Pode lembrar o que sentia antes?
- Perfeitamente. Um forte cheiro de chulé e ouvi passos lá fora!
-  Os sintomas da tensão! Interessante como os homens, sempre tão senhores de si, reagem à ausência da mulher amada e de quem cismaram em desconfiar!
- Eu quero ver a Elisa!
-   Calma! Ela já vem buscá-lo. Nem precisa ir para o quarto do hospital, pode ir direto para o seu, em casa.
- Meu quarto está emudecido, não respondeu aos meus chamados!
- Desde quando um quarto fala?
- Mas a Elisa poderia falar!
- Claro que poderia, se estivesse lá!
- Ela disse onde estava?
- Não! Mas pode perguntar para ela mesma!
Elisa,  de penteado novo, entra rindo discretamente, o celular na mão direita.
Prof Roque
Enviado por Prof Roque em 27/01/2006
Código do texto: T104604
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