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Lugar-comum (Português medieval estilizado)

LUGAR-COMUM

José Augusto Carvalho

— Dá-me a tua mão direita
Que ta quero apertar.
— A direita eu não ta dou,
Que eu já tenho a quem-na dar.
(Canção portuguesa)
Já não tenho alegria
Já me posso sepultar:
Quem perdeu o que eu perdi
Vivo se pode enterrar.
(Do Cancioneiro popular português,de Leite de Vasconcelos)

     Eu vos digo agora, se me quiserdes ouvir. Minha filha em tudo era a mais de todas, no que de bom se julgar. Era jovem e bonita minha pastorinha, e muito lhe deixei de grande herança e sem partilha, porque outro rebento mo negou Deus, per Sua Mercê. Eu tive-a pera tudo guardada no cor e no imo, que viúvo sou, e só ela me restava como família.
     Um dia veio-me à porta um mal-andante a pretender tirar-ma. Sempre achei que não poderia impedir que a meninha se casasse, mas planejei que seria depois de acabado o estudo e com quem pudesse guarecer com ela a riqueza que amealhei. Não poderia permitir que um lixoso sem lorigão nem joelheira fizesse capa de minha pastorinha, pera que mal parada ela não quedasse. O meninho cujo fosse eu sogro haveria de ter perfiado sabor de tratá-la bem, sem cuidar apenas do meu dinheiro ou de com ela folguedar.
     Volto ao interrompido: um dia veio-me à porta aquesse mal-andante a querer pedi-la. Em puridade lhe indaguei sobre o que fazia para o conservamento do teto e da mesa. E el, embargado, confessou, esquivando-se de uma resposta direita: com muita sofrença de amor, carpia a cabeça per minha pastorinha, em cuj’entendia ser marido. Não lhe trazia doas, por ser pouco favorecido da sorte, porém amor lhe trazia e carinho e ternura. E perguntei-lhe por que carpia os cabelos; e o muito nojoso, então, respondeu destro: que estivera com ela no fornízio e nos trebelhos do amor. Que muito não se arrependera, que o gostar-se um do outro é coisa pura, mas aquilo que entre dois é bom, sozinho não basta, porque falta a bênção do pai e o apoio da Santa Igreja. E queria, pois, não ser drudo apenas, mas o marido lutador, lado a lado, em tudo e per tudo, até que a morte.
     Minha pastorinha não era mais meninha? À minha sestra chamei-a, per dela querer ouvir a confirmação, em antes de entregar-me de todo à tristeza que me doestava. E ela fez fala e muito, tudo confirmando, entre soluços e requerimentos de perdão.
     Pensei que o meu coração sandeu não mais guarisse, que a dor que eu sentia era a maior do mundo. E ouvi, chorando per dentro, o que ambos os dois me contavam, chorando per fora. Eu só lhes disse: morto estou. E beijei minha filha em suas ambas faces, e beijei meu genro, em sua fronte, à guisa de bênção, e nesses três beijos ficou meu adeus a eles e ao futuro que eu sonhei pera a minha pastorinha. Passei-lhes em justo e julgado tudo o que amealhado tinha, que riqueza maior eu já perdera então. E saí de casa e nunca mais tornei.
     Ainda vos ende diria, se não tivesse o meu coração tão seco.
José Carvalho
Enviado por José Carvalho em 28/01/2006
Código do texto: T105061
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Sobre o autor
José Carvalho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 76 anos
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