Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Projeto Tenora - O conto de Nhati

       Nhati acordou com a chuva batendo em seu rosto. Sua cabeça doía como qual os olhos estavam prestes a saltar das suas órbitas. Sentou-se com muito esforço pois a dor em sua barriga também era imensa. "Devo ter umas costelas quebradas" pensou de súbito. Olhou ao seu redor e viu tantos companheiros de seu batalhão deitados no chão. Talvez todos estivessem mortos. Olhou o céu e viu raios do sol saindo das nuvens, mas a chuva só ganhara força. Olhou suas mãos e lavou o sangue delas com a água que caia. Acompanhou com os olhos o sangue misturado com a água descendo a ladeira. Toda planície estava coberta de corpos, tingida de vermelho que aos poucos ia descendo junto com a chuva.
        Com a mão caçou sua espada no chão até alcançá-la. Usando-a como apoio se levantou com muito custo. A espada como bengala, apoiando todo seu peso que as pernas não agüentavam mais, caminhou entre os defuntos procurando alguém vivo. "Sou apenas um pobre coitado que esqueceu de morrer...." deprimiu-se ao não encontrar ninguém vivo. De repente encontrou uma mulher que dançava alegre na chuva. Seus cabelos e vestido negros estavam colados junto ao corpo molhados. Usava uma faixa no pescoço, também negra, que dava um nó abaixo de sua nuca e as longas tiras quase tocavam o chão. Estava com os olhos fechados rodopiando em meio aos mortos, descalça. Apesar da dança estava com o semblante muito triste. Nhati sentiu-se atraído por ela. Não fisicamente, mas, por ser uma alma viva naquele lugar pútrido, a curiosidade lhe roia.
       "Senhorita?" perguntou de certa distância, talvez fosse uma criatura que poderia lhe fazer mal. "Senhorita?" perguntou mais alto. Ela parou de rodopiar e encarou o chão. "O que fazes aqui no meio de um campo de batalha onde só restam mortos ao seu redor?" "Estou a rodopiar, não vês?" ele respondeu ainda encarando o chão de costas para Nhati. Esse sorriu e sentiu uma estranha sensação de amizade com aquela dama. "Qual seu nome, se me permite perguntar, senhorita?". Ela então levanta a cabeça, dá meia volta e encara Nhati. Então ele caí no chão soltando a espada e ainda encarando a mulher mas agora com muito medo. Seus olhos tinham os glóbulos oculares pretos como a noite sem lua, a íris vermelha como o sangue que escorria da montanha e a pupila branca como o mais fino algodão. "Chamo-me Morti, e o senhor cavaleiro?" respondeu ela calmamente. "Nha-Nha-Nhati" gaguejou o soldado. "Bom te conhecer.”ela sorriu e foi embora.
          Esse conto foi contado por Nhati aos seus filhos que fizeram o trabalho de espalhá-lo pelos ventos. Até sua morte Nhati se lembrava daqueles olhos que o apavoraram. Nunca soube o que ela estava fazendo realmente naquele campo e porque parecia tão triste. O que dizem é que ela procurava um grande guerreiro que satisfizesse sua ânsia por morte. Outros dizem que ela levara as almas dos mortos daquela batalha. Poucos acham que ela só gostava de rodopiar na chuva e por acidente o fez em meio a um campo de defuntos. Porém ninguém sabia dizer o porquê de a deusa da morte estar triste.
BOI (Luciano Alencar)
Enviado por BOI (Luciano Alencar) em 02/03/2006
Reeditado em 11/09/2011
Código do texto: T118001
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para a obra original).
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
BOI (Luciano Alencar)
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 29 anos
246 textos (25430 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 21:41)
BOI (Luciano Alencar)