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Animália - a cidade que nunca existiu

A cinqüenta quilômetros de Lugar Nenhum há uma cidade que não está no mapa do País Qualquer. Animália é o nome dessa cidade planejada por homens com sobrenome de animais, na realidade todos os habitantes dessa cidade têm no sobrenome um animal. Não só os sobrenomes, mas também as ruas têm nome de animais. Na zona norte da cidade as ruas têm nome de aves, na zona sul predominam os peixes, na zona oeste estão os mamíferos e na zona leste está os répteis. A zona central é peculiar, são poucas as ruas que formam essa zona, e os nomes são de animais mitológicos. A sede da prefeitura fica na rua Dragão, o departamento de polícia fica na rua Centauro e o único cartório fica na rua Unicórnio. Outra peculiaridade dessa cidade é o fato de nunca ter ocorrido um crime sequer. Todos têm o que precisam, não há pessoa que tenha demais ou tenha de menos.
Cássio Coruja é o homem mais velho de Animália, e quando ele estava próximo de fazer oitenta anos e a cidade caminhando para os sessenta e cinco ele saiu da cidade pela primeira vez, ele foi até Lugar Nenhum para contar o primeiro crime que ocorreu em Animália. Esse primeiro crime teve conseqüências gravíssimas para a cidade, pois depois dele tudo se tornou um caos e quando Cássio Coruja morreu com noventa e cinco anos a sua querida cidade que ele ajudou a construir quando ainda tinha quinze anos também sumiu do mapa, quer dizer, nunca esteve no mapa.

O primeiro crime na pequena cidade de Animália ocorreu na rua das Gaivotas número três. Na casa em que ocorreu o crime habitava um casal de idade por volta dos trinta anos. Leonardo Leão trabalhava na única fábrica que produzia sabões e outros produtos de limpeza e higiene. Alice Alce trabalhava no departamento de Comunicações da cidade, nesse departamento se produzia os programas de televisão, rádio, jornal impresso e revista. O crime ocorreu no vigésimo dia do mês da Raposa (a cidade tinha seu próprio calendário) numa noite de lua crescente. O assaltante que tinha o nome de Abelardo Abelha saiu da zona sul onde morava e foi até a zona norte e escolheu a primeira casa que lhe desse na telha. Ficou parado em frente a casa número três por volta de cinco minutos e quando no seu relógio deu três e quarenta e sete ele decidiu entrar na casa. Abelardo nunca tinha assaltado nenhuma casa e tomou essa decisão depois que sua televisão adquiriu um canal diferente do que ele conhecia e nesse canal mostrava a reportagem de um crime que ocorreu e uma câmera flagrou esse crime ocorrido num banco. Ele nunca tinha visto aquilo antes, e gostou do que viu e pensou em fazer algo semelhante.
Quando se dirigiu para a porta da frente, Abelardo parou mais uma vez e não quis imaginar a possibilidade de a porta estar trancada, afinal ninguém fecha as portas em Animália. Lentamente ele foi levando a mão em direção à maçaneta torcendo pra que aquela porta não fosse uma exceção. Quando finalmente seus dedos encontraram a maçaneta e de maneira muito sutil girou a maçaneta, ele se surpreendeu. Fechada. O pior estava acontecendo e justamente com ele. Por quê? – perguntou ele que poderia ficar famoso por cometer o primeiro crime da cidade em cinqüenta anos de existência. Desistiu de tentar e nem quis arrombar a porta ou procurar abrir com arames, afinal ele não sabia nada disso, era um simples funcionário da fábrica de carros da cidade. Decidiu então ir pela porta dos fundos, provavelmente essa poderia estar aberta. Dirigiu-se até lá e quando pôs a mão na maçaneta e não encontrou resistência respirou aliviado, tinha conseguido entrar e agora só precisava roubar algo. Foi até a sala, depois voltou na cozinha quando ouviu alguns passos, não tinha como fugir, a pessoa acendeu a lâmpada e ele se virou:
_ Primo! O que você está fazendo aqui? – perguntou o dono da casa.
O assaltante não respondeu.
_ Deveria ter ligado, mas mesmo assim é uma satisfação em vê-lo. Antes que eu me esqueça quero pedir desculpas por ter trancado a porta da frente, nunca me aconteceu antes, prometo que isso não irá se repetir. Pelo visto você está com fome, quer que eu faça algo para você? – ofereceu Leonardo.
_ Quem está ai com você querido? – perguntou Alice.
_ É o meu primo, que há muito não o vejo. – respondeu ele.
_ Vou fazer um café para nós. – disse Alice.
Abelardo não falou uma só palavra, apenas ouvia os donos da casa. Leonardo bem que tentou faze-lo falar, mas não conseguia.
_ Por que você não fala? Ficou mudo?
_ Eu falo sim, só não tenho o que falar.
_ Te fiz várias perguntas, claro que tem o que falar.
_ Não tenho as respostas para essas perguntas.
_ E por que não disse que não as tinha? Vou tentar mais uma vez: como vai lá na igreja?
_ Igreja? Que igreja? – estranhou Abelardo.
_ Oras, a igreja onde você prega.
_ Ah claro, a igreja. Vai bem, muito bem, aliás, faz tempo que não os vejo lá. – disse o assaltante mentindo.
_ Falta de tempo meu caro. E o seu irmão revoltado, como está?
_ Está mais tranqüilo depois que começou a trabalhar, o ócio estava acabando com ele.
_ Que bom. Foi boa a conversa, mas depois desse café vou voltar a dormir, se você quiser pode dormir na sala.
_ Quero que me desculpem, mas isso é um assalto! – disse Abelardo terminando com aquela conversa sem nexo para ele.
_ Assalto? Que piada é essa? – estranhou Leonardo.
_ Sim, um assalto. Vou levar tudo o que vocês tem!
_ E como pretende levar tudo, por acaso tem um carro?
_ Isso não te importa. Agora me diga o que você tem de maior valor?
_ Minha família. – respondeu Leonardo categórico.
_ Família?
_ Isso mesmo que ouviu.
_ E qual o bem material de maior valor? – insistiu o assaltante.
_ Nenhum, pelo menos pra mim, mas para a sociedade tenho algumas coisas de valor.
_ E quais são?
_ Televisão, aparelho de som, geladeira. Essas coisas do dia-a-dia.
_ Nenhuma jóia, quadro, estatueta?
_ Nada disso, meu maior tesouro continua sendo minha família.
_ Que papo furado. Não posso sair daqui de mãos vazias, tenho que roubar algo!
_ Por que essa necessidade? Você por acaso não tem TV ou geladeira em casa?
_ Claro que tenho.
_ Então por que roubar?
_ Eu roubo pra... pra... oras roubo por roubar e ponto. – disse ele impaciente e sem resposta.
_ Pelo visto é o seu primeiro roubo, ou ainda, seria o primeiro roubo da cidade. Se você quiser pode levar, não vai me fazer falta por enquanto e quando fizer comprarei outro pra substituir.
_ Como não vai te fazer falta? – indagou o assaltante.
_ Abelardo Abelha esse é o seu nome, não é? Você é irmão de Rafael Raposa, o padre. Você não vê que não há sentido em roubar, ainda mais quando você não precisa desses bens.
_ Isso não te interessa. Mas já que não vai te fazer falta fiquei sem razão para roubar. Mas ainda posso matar. – disse o assaltante querendo agora ser assassino.
_ Matar? Quem você vai matar e por quê?
_ Vou matar vocês e também não lhe interessa o motivo pelo qual vou matar.
_ Claro que interessa, afinal está querendo tirar as nossas vidas. – desafiou Leonardo.
_ Essa conversa toda está me deixando irritado. Quer saber, vou roubar outra casa e espero que não fiquem filosofando sobre o ato de roubar e matar. – disse ele enfurecido.
_ Tome o café pelo menos antes de sair. – pediu Leonardo.
Abelardo tomou o café já frio e de uma vez só e foi embora. Leonardo e Alice ficaram olhando um para o outro sem dizer nada, antes que começassem a falar foram surpreendidos por um barulho imenso vindo da sala, foram lá para ver e encontraram o corpo do assaltante estirado no chão. Leonardo se aproximou e constatou que ele estava morto com tiro de revólver alojado em sua cabeça, havia um papel em cima da camisa do morto e nele estava escrito: CONCLUÍ QUE MINHA VIDA NÃO TINHA MAIS SENTIDO, NA VERDADE NUNCA TEVE. Leonardo olhou para Alice que estava sem reação.
_ A culpada foi eu. – disse Alice.
_ Você?
_ Sim, ao invés de colocar açúcar, coloquei uma substância branca, pensei que fosse açúcar, mas estava escrito cianureto, só depois que coloquei no café é que vi isso.
_ Na verdade a culpa então é minha, pois foi eu quem trouxe esse cianureto da fábrica, peguei com um químico que trabalha lá.
_ E por que pegou? – perguntou ela.
_ Para envenenar alguém. – disse Leonardo.
_ Quem? – perguntou ela ficando com medo.
_ Não posso falar, são ordens.
_ Ordens de quem? – insistiu ela cada vez mais nervosa.
_ Também não posso falar.
Nesse momento a campainha toca. Alice vai até a porta e vê um policial do lado de fora.
_ É a polícia!
_ Ele não pode saber disso. Você atende e fica só com a cabeça para fora, eu vou pegar a arma do assaltante e atirar no policial, mas só quando eu te avisar.
_ E como vai me avisar?
_ Jogando o papel onde o assaltante escreveu nas suas costas. – disse Leonardo com uma frieza nunca vista pela mulher.
Alice atendeu a porta e começou a conversa com o policial que tinha o nome de Roger Rato, depois de uns minutos Leonardo amassou o papel e jogou nas costas de Alice que não respondeu na mesma hora, Leonardo sussurrou e ela abriu a porta por inteiro e quando isso aconteceu uma bala foi disparada do revólver e foi parar na testa do policial que caiu morto no mesmo instante. Alice começou a chorar. Demorou cinqüenta anos para que duas pessoas morressem, só que Leonardo contaminado por essa situação estranha de mortes decidiu matar mais pessoas e a próxima vitima ele já escolheu.
Alice ficou em casa e Leonardo foi até o seu vizinho que sempre lhe atormentou, bateu na porta e Tiago Tigre foi atender, na hora que abriu a porta levou um tiro na testa. Sobraram três balas e naquela mesma madrugada Leonardo saiu em busca dos seus desafetos. Quando voltou para casa fez um café e nele colocou todo o cianureto que restou e tomou, instantes depois caiu morto.

Uma semana depois a polícia de Animália concluiu a investigação que foi rápida e que no mesmo dia prendeu Alice Alce, a primeira pessoa a ser presa na cidade que teve que improvisar uma cela. Depois dos crimes de Leonardo outros ocorreram e antes que Cássio Coruja fosse morto por ser desafeto de muita gente ele viajou para outra cidade e lá contou para um rapaz que achou a estória incrível e resolveu publicar no jornal. Para o azar de Cássio Coruja não teve uma segunda pessoa que saiu da Animália para confirmar a estória que ele contou, pois não sobraram habitantes, todos foram mortos por motivos insignificantes. Até hoje todos pensam que Animália não passou de uma estória inventada por Cássio, tornou-se uma lenda na cidade que resolveu fazer da lenda um tema para seu carnaval, a lenda também virou enredo de filme e também fizeram um seriado chamado: Animália, a cidade que nunca existiu.

FIM

03/03/06
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 03/03/2006
Código do texto: T118210
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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Miguel Rodrigues