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Quasímoda

                                Este conto é uma adaptação livre e condensada de uma das estórias escritas por Edmund Wilson (1895-1972)escritor americano durante sua estadia no condado de Hecate





  Nunca dei muita atenção à presença de Rita Maia. Esta era a quinta vez que me hospedava em sua pousada em Campos de Jordão. Rita vestia-se austeramente, parecendo uma senhora de meia idade apesar de seus 32 anos. O cabelo sempre preso em coque ou rabo-de-cavalo. Era natural vê-la vestida de botas, saia ou vestido compridos e um impecável cardigan, provavelmente de tamanhos muito acima do seu.
 
  Nesta  manhã meu amor por ela desabrochou. Eu a observava tirando o largo cardigan e logo em seguida vestir um sobretudo. Neste ínterim notei que Rita possuía uma das mais estreitas cinturas que já tinha visto encimando seus desproporcionais quadris. No segundo que ela levantou o rabo-de-cavalo para livrá-lo da gola do sobretudo vislumbrei sua nuca levemente rosada e  costas muito retas...Apaixonei-me perdidamente.

  Rita e Cláudio, seu marido, eram de famílias abastadas. Rita herdou essa cadeia de hotéis e pousadas localizadas em C. de Jordão, Rezende, Gramado e duas em Portugal, Algarve e Leixões. Cláudio, um belíssimo homem,  herdeiro de fazendas, mas parecendo que se adaptou muito melhor como empresário do ramo hoteleiro. Eles viajavam freqüentemente. Mais Cláudio do que Rita. Me pareceu que ela já estava enfastiada de viagens.

  Sem querer comecei a procurar por sua presença como se ela fosse meu pólo oposto magnético pelas próximas horas.
No dia seguinte a vi escrevendo algo na recepção. Fui sincero em lhe dizer que a decoração mista do conforto europeu com a rusticidade  do que poderia ser uma fazenda brasileira dos chapadões, era soberba. Eu sabia que era ela quem tomava conta deste item.

  - Muito obrigada. Não quero ser indelicada, mas tenho que sair por alguns minutos. Portanto eu o convido para um chá às quinze horas. Não se atraze!
 
  E saiu com meu olhar grudado em suas costas.

  Se ela me dissesse isto antes de minha súbita paixão, eu a teria considerado pedante. Por que não “às três horas” em vez de quinze horas? Já se passava um pouco das duas da tarde.

  Rita e Cláudio estavam sempre nos dando presentinhos, nos surpreendendo com iguarias ou de repente com uma garrafa de um bom vinho. Sendo que nada disso era cobrado. Não creio que algum hóspede já houvesse regateado preço ou dado calote. Cláudio era brilhante em contar fatos de suas viagens antes do biguá, que consistia de uma saborosa sopa servida no amplo salão da lareira central, por volta da meia-noite.

  Já estávamos sentados há dez minutos e eu havia  confessado meu encantamento para uma muda e estupefata Rita. Com os olhos baixos ela me pediu que eu fosse embora e que  seria ressarcido integralmente pelo que havia pagado.

  Seria ilógico insistir. Rita era inocente de meus devaneios. Insistir seria como uma agressão. A única opção era cumprir com  o que ela me ordenava.

  Assim, enquanto me levantava e num impensado gesto cobri sua mão estendida na mesa com a minha, como se fosse o último suspiro de um cisne tchaikoviskiano.

  -Não! Não vá...

  Seus verdes olhos marejados em lágrimas pareciam duas esmeraldas. É indescritível o que um homem sente quando seu objeto de desejo se oferta. O pecado, o ilícito, o amor proibido. Enfim, a posse.

 - Seja paciente. Enquanto isso... prove-me seu amor.

  Dois dias se passaram quando a beijei pela primeira vez.

  Tínhamos ido até um caramanchão e no meio do caminho entre as sebes, eu a puxei bruscamente e a beijei apaixonadamente. Rita logo após a surpresa correspondeu ao beijo recebendo-o docemente. Ela conservava os antebraços entre meu tórax e seu busto. Primeiramente eu a imobilizara com minhas mãos em seus ombros. Nesta posição, começamos ambos a arfar procurando a definição do êxtase. Quando procurei abraçá-la, fui empurrado.

  - Por favor...pare!

  E ainda com a respiração pesada ela pediu que voltássemos.

  No dia seguinte, dia de minha partida, eu não sabia o que fazer. Durante toda manhã era dificílimo controlar minha aflição. Coloquei óculos escuros para que não notassem meus olhos insistentemente procurando por Rita. Eu a via passar e me olhar de relance ou então levantar os olhos do que estava fazendo e me fitar rapidamente com um sorriso de Gioconda nos polpudos lábios. Eu morria de tudo e voltava a viver trazido por sua presença.

  -Wilson, quer vir acertar o voucher?

  Rita me indicava a porta do escritório, que me pareceu a boca da fornalha por onde eu desapareceria e nunca mais a veria.

  Porta fechada, coxas se enroscando ao mesmo tempo  que nossas línguas. Minhas mãos eram água escorrendo pelo leito do corpo dela.

  Sinto uma espécie de couraça pressionando meu peito. Minhas mãos não encontram a maciez das costas de Rita, apenas algo como uma tábua. Era impossível não dar uma paradinha de espanto. Sinto apenas um leve tremor nos lábios inertes de Rita e seu corpo enrijecer. Tento ainda incrementar meus lábios com os dela. Rita afasta os lábios dos meus e com a voz ao mesmo tempo sensual e raivosa diz bem próximo a meu rosto.

  -Você é homem de amar uma aleijada? É?

  Eu tinha uma leve impressão do que ela estava me dizendo. O pavor me invadia.

  Mas, deve ter sido pelos eferomas, o hálito de suas palavras que apunhalavam meus neurônios e o calor que dela emanava que voltei a beijá-la sofregadamente.

  Rita era sacudida pelo meu frenesi, mas permanecia inerte. De repente me soca o peito com ambos os punhos e se distancia de mim por quase um metro e altivamente me olhando começa a desabotoar a blusa. Já no penúltimo botão eu vislumbro a cor rosada abóbora dos aparelhos ortopédicos.

  -Meu deus!- pensava eu- ...que membros distorcidos irei ver?

  Rita se mostrava vestida num espartilho de couro negro com duas correias e fivelas em cada lateral. Uma logo abaixo da axila e a outra na altura da fina cintura. Os fartos seios estavam torturadamente apertados na parte coberta de material ortopédico que eu tinha visto. A parte da frente tinha uma carreira de ilhoses de cima a baixo, fortemente apertados por cadarços de seda.
 
  -Sem estas correias e ilhoses me apertando...eu despenco!

  Seu olhar lacrimoso continuava altivo gritando à minha pretensão:"sou assim, não vou mudar e não quero misericórdia!"

  Ante meu congelado olhar, Rita lentamente se vira e vejo um total  de seis correias afiveladas. O espartilho era protegido internamente com material macio, mas se notava claramente os vergalhões avermelhados que marcavam como se o pecado já estivesse cobrando seu premio.

  A blusa de Rita se ondulava nas mangas na altura dos antebraços e cobria toda a curva das ancas. Eu, nunca saberei como, curioso e sadisticamente lhe ordenei.

  - Tire toda a blusa ... e não se vire!

  Todo esplendor daquelas desproporcionais curvas encheu meus olhos de lágrimas ao ver tão perfeita criatura. A mulher de meus sonhos!
                                                                           
                                                                             

                                                                                          (devo continuar)
Raferty
Enviado por Raferty em 21/03/2006
Reeditado em 24/03/2006
Código do texto: T126520
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Sobre o autor
Raferty
Santos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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