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Amizade: beleza que se preserva

Existe uma lenda que diz que as árvores escutam e vêem o que se passa e, com a ajuda do vento, espalham as estórias umas para as outras, tornando imortais cenas que elas presenciam.
Não sei se acreditas caro leitor, mas sou uma árvore.
Há tempos, nasceu nessa rua um garotinho. Seu pai sempre o trazia aqui na praça em que vivo e dizia a ele: “Filho, cuidado com as coisas que faz. Não conte mentiras e não faça maldades, pois, as árvores sempre nos observam e, sabendo tudo o que fazemos, espalham nossa vida por aí.”.
Sempre achei bonita a forma como aquele homem educava o garoto, envolver a natureza tornava nobre a lição que ensinava ao pequeno. Não sei ao certo se o pai sabia que o que dizia era verdade, mas o menino andava sempre de olhos atentos ás árvores.
Certa tarde, observei que o garotinho se aproximava de mim. Seus olhinhos curiosos pareciam-se jabuticabas, eram olhos de menino esperto, traziam pureza e simpatia. Aproximou-se devagar, encostou sua pequena mãozinha num dos meus galhos e sentou-se a minha sombra.
Logo depois começou a falar-me: “Sabe Senhor Árvore, meu pai já me contou o que você faz. Sei que você fica contando pra todos os seus amigos árvores... Mas, mesmo achando feio o senhor fazer fofoca, acho que queria ser seu amigo. Eu não tenho amigo nenhum, na escola os outros meninos não gostam de brincar comigo e eu sempre fico sozinho.”
As palavras do menino me comoveram. Ninguém nunca havia me notado como algo tão especial e vivo antes. Alguns casais às vezes riscavam-me no tronco escrevendo seus nomes, mas a pureza das palavras do garoto me trouxeram uma paz e fizeram com que eu percebesse o que é a solidão. Percebi que eu era sozinho.
Passaram-se alguns minutos e a mãe do garoto apareceu na janela bradando seu nome: “Juliano, venha para dentro! Está ficando tarde!”.
Juliano... Deixou-me feliz saber o nome do meu amiguinho.
No dia seguinte, logo pela manhã, Juliano estava de novo perto de mim, Deitou-se no gramado e começou a contar-me suas aventuras. Contou que construira um foguete com uma caixa que encontrou na garagem, disse que achava até possível voar nele, mas ainda não tinha as chaves...
As estórias do pequeno me faziam companhia mesmo depois que ele se ia, ficava a lembrar das coisas que ele me contava e divertia-me pensando nos próximos grandes feitos de sua imaginação.
Foram meses de amizade, anos...
O garoto já estava crescido, devia contar uns sete ou oito anos de idade... Um dia chegou correndo, abraçou-me o tronco e começou a chorar. Eu não estava entendendo nada do que ele dizia, mas ele logo se acalmou e disse com a voz trêmula e doce como sempre: “Senhor Árvore... Hoje é o dia mais triste da minha vida. O meu pai disse que vamos mudar. Irei morar em outra casa, não poderei mais vê-lo, ficarei sozinho de novo... Sentirei saudades... Não quero ir, mas não tenho escolha. Mamãe disse que vai ficar tudo bem, mas parece que ela está doente e precisa ir pra outra casa”.
Aquilo feriu-me a alma, senti falta dele mesmo antes de vê-lo partir. Ele era meu amigo, o único que me notava na praça... Aquela foi uma noite triste para mim, não conseguia parar de pensar no choro dele...
Na manhã seguinte notei movimentações estranhas na casa de Juliano. Logo parou a porta um caminhão de mudanças... Pouco depois avistei o pequeno correndo em minha direção. Trazia nas mãos um carrinho e tinha os olhos marejados.
“Senhor Árvore, vim lhe dizer adeus... Estou muito triste mas não quero que se preocupe comigo, eu vou ficar bem e mandarei noticias. Sentirei muito a sua falta e nunca vou esquecê-lo, meu melhor amigo...”
Ele enterrou o carrinho próximo as minhas raízes e disse que era para que eu não o esquecesse. Abraçou-me o tronco com carinho e se foi. Eu o vi entrar no carro e notei que acenou para mim no vidro traseiro ate que o carro desaparecesse na esquina.
Alguns dias passaram e a tristeza e a saudade corroíam-me alma. Aqueles anos foram os melhores da minha vida., havia encontrado um amiguinho que me alegrava todos os dias e agora não mais o veria...
Do meu lado havia uma árvore que, como as demais, não me dirigia a palavra, mas ela quebrou o silencio daquela praça e disse: “Seu amigo está lhe mandado um recado. Acabou de chegar em mim, quer ouvir? Pois bem... ‘Sr. Arvore, estou na casa nova. Tem uma árvore no quintal e acredito que ela me ajude a falar com você. Estou bem, com saudades e preocupado com a mamãe. Ouvi o doutor dizendo que ela está muito doente e estou com medo que ela me deixe. Não quero perder a mamãe... Mando noticias de novo assim que puder.’ “
Senti um misto de alegria e tristeza. Ao mesmo tempo em que estava radiante porque ele não me havia esquecido, senti a dor pelo menino, preocupo-me com ele por conta da mãe... Pobre garoto!
Continuei recebendo noticias quase diárias de meu amigo. Contava-me suas brincadeiras, seus sonhos...
Depois de um tempo do primeiro recado, veio o pior: “Senhor Árvore, precisava tanto de senhor... Mamãe se foi. Papai está muito triste, chora o tempo todo e me falou que nos encontraremos logo. Não sei para onde ela foi meu pai só havia me dito que quando ficávamos doentes, às vezes, íamos para um lugar bonito, perto dos anjos para nos sentirmos melhor. Estou com medo de que ela goste mais de lá e não volte mais. Agora preciso ir, papai está sozinho lá dentro e precisa de mim... Saudades...”.
Eu era capaz sentir a angustia do pequeno... Sofria com ele. Eu o amava.
As noticias eram cada vez mais espaçadas e foram passando-se os meses... O garoto estava conformado com a “viagem” da mãe e logo voltou a me contar as brincadeiras com a alegria de sempre. Sentia saudades dele, quase não ouvia mais nada sobre ele. Desde que o novo prefeito assumira, eu estava correndo risco, passaram a cortar varias arvores da região, soube que era para fazer novas ruas. Algumas das minhas companheiras de praça também foram arrancadas e não sei para onde as levaram.
Estava há quase um mês sem noticias de Juliano, era muito grande a saudade... Olhei para o fim da rua e vi um garoto correndo em minha direção. Era ele! Senti uma alegria incontrolável, mal podia acreditar...
Logo atrás dele vinha o pai, parecendo orgulhoso do filho. Eu sempre achei aquele um bom pai, mas levar o filhote visitar uma arvore era a prova de que ele era especial.
O menino me abraçou com o carinho de sempre e disse entusiasmado: “Senhor Arvore, meu pai me trouxe para vê-lo! Estou tão feliz, senti muitas saudades... Papai disse que o prefeito quer levar você daqui, mas eu já contei pra ele que não quero que você vá. Sei que o senhor não gosta mais dos anjos do que de mim, mas quero que fique aqui. Não se preocupe o papai já cuidou de tudo e me prometeu que ninguém vai tocar no senhor.”.
Dizendo isso o pequeno olhou para o pai e disse: “Não é verdade, pai? O Senhor Arvore é meu amigo e ele vai ficar bem né?!” O pai apenas sorriu e fez um sinal positivo com a cabeça.
Dias depois eles voltaram acompanhados de um carro da Prefeitura. Fiquei assustado... Juliano aproximou-se de mime disse: “Senhor Arvore... Não disse que não se preocupasse? Papai resolveu tudo e você vai ate ganhar medalha!”.
Pregaram no meu tronco uma placa dourada e o carro da Prefeitura se foi. O menino e o pai ficaram me olhando abraçados... O pai disse: “Filho, seu amigo vai estar sempre aqui. Papai atendeu seu pedido e logo estaremos colocando uma plaquinha como essa em varias outras arvores. Filho voltaremos a morar nessa rua em breve, quero sempre ver esse seu sorriso! Te amo!”
Eles voltaram a morar aqui e minha amizade com o pequenino é cada vez mais forte... Estou vendo-o crescer e tornar-se um rapazinho muito esperto. Tenho orgulho do meu amigo...
A placa? Várias outras arvores estão recebendo, mas a minha é especial... Nela está gravada a seguinte mensagem:
“Nosso objetivo é fazer com que a lenda do poder de nossas amigas continue sendo possível, preservando a natureza para que as leves brisas possam fazer o trabalho que apenas os grandes vendavais estão conseguindo”.
“SENHOR ARVORE: AMIGO, COMPANHEIRO E LEAL.”






















Tiely Cáceres
Enviado por Tiely Cáceres em 26/03/2006
Código do texto: T128843
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Sobre a autora
Tiely Cáceres
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
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Tiely Cáceres