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RAPUNZEL E A ESFINGE

Brasília, 02/12/2005

-          E aí?
           A indagação corriqueira veio daquela mulher com cara de esfinge, acompanhada de um meio sorriso igualmente indecifrável. Sem jeito, olhou para os lados, entre espantada e surpresa, tentando imaginar de onde surgira aquela criatura. O rasgo de tempo que passou nesse estado de interrogação foi o suficiente para que a Esfinge tivesse já tomado assento diante dela. Parou por uns segundos e apenas respondeu no automático, sem tirar os olhos da nuvem de fumaça que subia da xícara:
-        Tudo bem.
          Clássica resposta de quem não tem o que conversar ou não tem a menor intenção de dar continuidade à conversa. A Esfinge posicionou-se confortavelmente, como quem se sente completamente à vontade, mas sem tirar os olhos dela. “Uff...Olhar de Inquisição”, pensou rapidamente. 

-        É. Você parece bem. Tem sorte. Apesar da idade e dos tropeços, a aparência não está mal. E o cara, tudo bem com ele?
         “Estranha, mas meio familiar”, tornou a pensar, ainda olhando a fumaça que vinha do café ainda intocado.
-         Ei! Acorda, moça. Tô falando contigo...
-         Ah, o cara...é, ele tá bem também... “Como ela sabe se tem cara ou não? Que mulher estranha...”
-          Não to falando dele. To falando de VOCÊ com ELE, sacou?
-          Vai bem. 

          “Melhor ficar no automático, assim ela cansa”.
           Novo riso enigmático. Preparação para a próxima.
-         Entendi. Você não tem a resposta exata. 

          Ficou pensando se ela não ia parar nunca. Só queria tomar seu café e botar ordem nos pensamentos e vem uma estranha com a folha corrida dela na mão. Sem saber bem a razão, respondeu. 

-        Não é bem isso...É que eu nem tô te reconhecendo.
          A outra solta um sorriso irônico.
-         Piada do ano essa! Tantos anos juntas e você nem sequer me reconhece...
-         Não. Não mesmo.
-         Isso não importa. No fundo, eu sei como são as coisas. Só queria ouvir de você.
 
          Por que ela queria ouvir algo dela? E o que ela tinha a ver com isso? Perdida entre a fumaça do café, já se dissipando e a montanha de interrogações, ouvia a Esfinge, com aquele sorrisinho estúpido, continuar sua tortura: 

-         A vida cheia de dúvidas, não é? O de sempre: grande cara, afinidades mútuas, companheiro legal, mas... Garota, acorda! SEMPRE haverá um MAS
.
-        Eu não disse isso! 

         De novo aquele risinho sarcástico. “Que raiva! Por que ela não se manda e vai catar coquinhos?” 

-        É. Não disse. Mas pensa o tempo todo. Já está antevendo o futuro: as diferenças no modo de ver as coisas, os desentendimentos por conta das trivialidades cotidianas: as roupas sujas nunca lavadas, as xícaras quebradas no meio do caminho. Inevitável, querida. E o moço, você, esperta, já viu que não sabe lidar com isso. Só navega em águas mansas, não é mesmo? 

         Não sabia dizer bem o porquê, mas aquela Esfinge tinha razão e adivinhava-lhe pensamentos e sentimentos. 

-        E tem essas asas que você disfarça aí nas costas, mas que vivem se mexendo, querendo sair da prisão. De vez em quando elas ameaçam bater e querer partir para aquele lugar onde você enterra seus medos, suas fragilidades...e você fica perdida, não é?
         Tinha que admitir que a desconhecida estava certa. Mas limitava-se a ouvir e ficar pensando sem parar. 

-         Você nega, garota. Eu sei. Gosta de jogar suas tranças de Rapunzel romântica para o príncipe subir. Uma romântica. O problema é que você tem cérebro. E sua razão bate na porta, acende todos os sinais de alerta e toca sirenes e não desliga mais. Pense, garota, pense. Você quer o seu jardim de flores, o sorriso que te ilumina, mas sabe que vai administrar ervas daninhas, trepadeiras sugadoras que matam suas plantas prediletas, vai ter que ser muito maior que o saco de roupas sujas e faxinar os ratos do porão. E sozinha, porque ele não sabe o que fazer com tudo isso. Você agüenta? 

          Já estava irritada com a intrometida com cara de esfinge. Mas ela estava absolutamente certa. E isso a irritava ainda mais. Preparava-se para levantar e sair, quando a outra lançou-lhe um olhar entre irônico e fulminante, de quem sabe tudo.
 
-          Não se preocupe, Rapunzel. Continue jogando suas tranças, mas eu estarei por perto cortando os excessos. Você não tem muita escolha. Estarei aqui sempre.
 
           Foi-se. Num último olhar, viu um enorme pedaço de tranças que atingia o chão cortado ao lado da cadeira. Soube que não haveria príncipes, nem jardins, nem nada. Apenas Ela. E a Esfinge.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 16/05/2006
Reeditado em 16/05/2006
Código do texto: T157090

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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