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Utopia, por acaso?


Havia caminhado alguns quilômetros. Estava empoeirado. E, a poeira juntando-se ao suor formava, em seu rosto queimado pelo sol, desenhos entre as linhas de expressão. Não era idoso, mas sentia-se cansado em sua jornada contínua. Devia ter uns trinta e cinco anos, pouco mais, ou pouco menos. Caminhava desde cedo, sentindo todo o amargor do abandono, de ouvir apenas a sua voz. Pensava, por vezes em parar. Acabar com essa jornada infinda. Mas, o que iria fazer? Por este momento iria dormir, apenas dormir, para depois seguir em busca não sabia bem do que. Dormiu, ali, à beira do caminho onde muitos passam, vão e vêm. Seguem sem perceber o que está à sua volta, o que se passa ou de quem está à sua volta.
Já era madrugada, e o ar frio dava-lhe palmadas no rosto chamando-o para outra caminhada, um outro dia. O ontem ficara para trás. Levantou-se, esfregou os olhos, recolheu seus poucos pertences. Olhou para o chão onde dormira, pensou: ¬Como posso estar vivendo assim? Deve haver algo mais que isso, muito mais que isso, que essa miséria toda. É só isso que tenho - minha miséria, meu caminhar.
Um caminhão, velho e barulhento seguia pela estrada e foi aos poucos parando, e andando, andando e parando. Até que parou de vez. O homem que o conduzia, desceu coçando a cabeça de cabelos negros encaracolados: - O que será que foi desta vez, hein, jabiraca velha? Vai me deixar na mão de novo, hein? O homem abriu o velho capô, de onde saia uma fumaça ardida. Fechou os olhos e enfiou a mão para alcançar o carburador. - Puxa vida, tá muito quente isso aqui. Vê se esfria logo pra gente seguir, sua danada... ainda temos que entregar essas verduras antes que o sol esquente muito. O homem estava tão envolvido em sua conversa consigo mesmo e com o problema de seu carro, que não notara que alguém o observava calado, mas atento. Quando percebeu o olhar do outro: - Ô moço, que é que faz aqui nestas paragens do mundo, com esses "trens" todos aí nas costas? Tá seguindo viagem a pé? A essa interpelação, o outro respondeu: - Mais ou menos, não sei bem onde estou... dormi e acho que devo ter andado durante o sono por aí.
É muito estranho e,... pra onde o senhor vai? - Vou até a vila do Vale dos Esquecidos levar estas verduras fresquinhas, se quiser pode vir comigo. E, se me der uma "mãozinha" com as "belezinhas", a carona já tá bem paga. Como é teu nome, meu rapaz? - Não me lembro ao certo - respondeu - faz muito tempo que não ouço meu nome, mas acho que o senhor pode me chamar de Moço... - Que bom! Prazer Moço! Disse o homem estendendo-lhe a pesada mão. - Pode me chamar de Velho, aqui todos me chamam assim, e é assim que sei quando estão falando comigo... venha, me ajude aqui com essa barrica de água, minha jabiraca tá com sede de novo...
            Seguiram estrada afora. O Velho cantava e por vezes assobiava algumas canções que o Moço desconhecia. Aliás, o Moço estava muito confuso com tudo à sua volta, mas sentia em seu íntimo uma satisfação que não saberia explicar, caso lhe perguntassem, pressa de falar, de se mostrar gente. Pela primeira vez, em muitos anos alguém lhe deu atenção, deu-lhe até um nome. Acolheu-o.
Quando estavam seguindo pela estrada que leva ao Vale dos Esquecidos, o Velho olhou para o Moço e disse: - Vê? Eu já morei lá, até que era bom, mas eu não era feliz vivendo ali. Hoje só volto para entregar minhas verduras e rever alguns bons amigos, que permanecem no Vale dos Esquecidos. Mas é só. Ali não quero viver mais. O rapaz escutava atento, e admirado com a alegria que o Velho lhe transmitia. Não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas uma estranha sensação dava-lhe desassossego. Criava em si uma expectativa inusitada. A alegria do Velho tranqüilizava o Moço, que ficava pensando o que fazia aquele homem de mãos calejadas, ser tão animado. Havia em seu olhar um mistério doce de paz.
Ainda pelo caminho que seguiam encontravam alguns transeuntes, que o Moço imaginou estar vendo num espelho do tamanho do universo, a sua própria imagem de andarilho, maltrapilho, abandonado, mudo de si mesmo. - Sabe Moço, também já fiz muitas vezes essa estrada, assim como esses aí. Mas um dia parei... sabe como é, um dia a gente se acha no mundo, não é mesmo? Você não pensa que às vezes é preciso a gente parar, quero dizer, encontrar um modo novo pra viver bem e feliz? O Velho continuava falando, falando. Estava acostumado a falar com outras pessoas. O rapaz parecia ouvi-lo. Sem obter resposta alguma, o Velho virou-se e viu que o Moço dormia pesadamente. - Pobre criatura, tão jovem e só...
Depois de meia hora, chegaram a um riozinho de águas rasas, que nascia, tímido, um pouco mais acima entre os outros morros. Com a parada, o rapaz acordou. O Velho parou sua velha caminhonete e alçou o braço por sobre a caçamba, levantou um barril de madeira e sempre assobiando, lançou-o nas águas, enchendo-o até a borda. Ao ver que o Moço descera, falou: - É pro caso da "bichinha" "sentir sede" outra vez. Se você tiver sede pode beber dessa água Moço, é boa pra beber, é purinha, desce lá daquele morro cheio de árvores,. havia muito cobre nestas matas, dizem, e por isso é que se chama Rio do Cobre.      O Velho apanhou com uma concha um tanto da água fria e ofereceu ao Moço, que derramando pelos cantos da boca, bebeu-a toda. - É muito boa mesmo, o senhor sabe das coisas. A água ajudou a aliviar a dor do estômago vazio. O Velho sorrindo, como sempre respondeu-lhe: - A gente aprende a dar valor às pequenas coisas da vida quando percebemos que fazemos parte do mundo onde há vida viva. Essa água é a prova disso, até agora ela persiste assim, mas lá bem adiante o povo já nem bebe mais desta água. Estragaram o rio com esses produtos que dizem que é pesticida. Uns não gostam de falar nisso e, chamam de "defensivos". Mas aí eu fico pensando: - se vai matar os bichinhos e, a gente vai comendo o resto deles... iiiiih, é bom nem falar o que vai ser de todos nós... E num relance de idéias, o Velho foi mais otimista: - Veja esta água está sempre viva até para aqueles que nem sabem que estão vivos. Colocou o barril na caçamba e com as mãos molhadas salpicava gotas de água sobre as verduras. - Bebam vocês também minhas lindinhas, pra ficarem ainda mais viçosas, cheias de vida. - Venha meu rapaz, vamos embora antes que o sol castigue essas lindezas.
Entraram na ruela que ia direto para vila e o barulho da velha caminhonete fazia com que pessoas de todas as idades e sexo viessem comprar as verduras do Velho. Este sempre muito animado atraía a todos: - Bom dia dona Joaquina, como está a senhora hoje? A mulher de uns sessenta anos sorriu-lhe: - Sabe Velho, ainda sinto dores nas pernas, mas com o soquete de ervas que o senhor me ensinou, já melhorou bastante. Ainda hoje vou pedir para o meu neto ir procurar no mato, um pouco de caruru-bravo... Antes que ela continuasse, o Velho disse: - Seria muito bom se colocasse junto um pouco de alfazema fresca, isso tira a dor na hora. ¬- Muito obrigada Velho, vou fazer isso sim. Até outro dia. - até logo dona Joaquina, vê se se cuida, hein? Ainda atendendo às pessoas que cercavam sua feira ambulante, o Velho dava atenção a todos, sem se descuidar de oferecer o melhor de seus préstimos. E, assim foi até o fim da ruela. Por alguns instantes esquecera-se do Moço, que ia entregando as verduras de mão-em-mão, sem falar coisa alguma. Também ninguém perguntou coisa alguma sobre aquele moço que ali estava ela primeira vez. De volta pela mesma ruela, já com a caçamba vazia, o Velho voltou-se para o rapaz e com uma doçura no olhar, disse: - E daí Moço? O que vai fazer agora? Quer ficar aqui no Vale dos Esquecidos? O rapaz deixou seu olhar perder-se entre as idas e vindas dos moradores daquele lugar no fim do mundo. - Ainda não sei, Velho... acha que aqui poderei me encontrar? Me achar comigo mesmo? O Velho colocou suas mãos fraternas nos ombros do Moço: - Isso eu acho que só depende de você mesmo... teu mundo tá em você, nos teus desejos e tua ação... quanto a mim, agora tenho que voltar para casa, Já tenho muito que fazer. - Eu, disse o Moço, vou ver o que arranjo por aqui, muito obrigado Velho pela companhia e pela carona. Abraçou o Velho como se já o conhecesse há muito tempo, se sentiu familiarizado com ele. Despediram-se e seguiram seus caminhos.
De volta para sua casa, o velho ia juntando pedaços de árvores caídas para que servissem de lenha para seu fogão de barro e chapa de ferro. Sempre assobiando, cantando, conversando com sua companheira de viagem, e não raro, conversava com as árvores, com os pássaros e com o riozinho, aquele Rio do Cobre que nascia bem mais acima dos morros onde estava sua casa. Até mesmo com as borboletas ele puxava conversa. Admirava-as e elogiava-as pela beleza e pelo vôo bailado.

Já adentrando em suas terras, chamava a atenção dos animais, algumas vacas com seus bezerros, uns dois ou três bois, e uma meia dúzia de gansos, Os cães latiam e pulavam. Era para ele um aplauso emocionante daqueles que conviviam com ele no "Recanto Paraíso", Chamava-os todos por seus nomes e, os animais entendiam-lhe, seguiam-lhe pelo caminho. Prestavam-lhe regozijo.
O sol mostrava que já havia passado das oito horas. Entrou por uma cancela de imbuía lascada e conduziu sua caminhonete para um pátio amplo que acabara de ser varrido. Ali descarregou as lenhas catadas e, em seguida varreu a caçamba, amontoou o cisco e guardou a vassoura de guamirim num canto do galpão. Lavou-¬se na bica d'água e entrou em casa, onde sua esposa punha-se a coar o café da manhã. Beijou-lhe a face e os lábios: - Bom dia, Vida! Que dia fantástico, hoje. Podemos todos ir pescar, logo mais? A mulher de pele clara, saudável e olhos brilhantes, abraçou-o: - Bom dia meu Amor! Todos já estão em pé, em seus afazeres e, acredito que vão gostar de pescar depois do café... E, como foi lá na vila hoje? - O mesmo de sempre, chego, escuto, dou conselho sobre as verduras, mostro como usar as ervas daqui e ... Num instante seus olhos arregalados, lembrou-se do Moço a quem dera carona. ... - Sabe encontrei um rapaz na estrada e dei carona pra ele até a vila. Me pareceu um bom rapaz, meio perdido ainda" mas tá procurando se achar na vida... pensei em traze-lo comigo, mas isso é ele quem tem que querer. A mulher ouvia atentamente, ao mesmo tempo que lhe servia uma cuía de chimarrão. - Mas porquê você acha que ele ia querer vir morar aqui conosco? - Não vi nele maldade, só uma dor de abandono a transparecer sua alma... Ele ficou lá, mas eu lhe disse como chegar até aqui caso quisesse nos visitar. Conhecer "nosso paraíso"... eu acho que ele vai aparecer por aqui, espere e verá... mas, onde estão todos? E numa voz forte: - Vamos pessoal, o café já está pronto! Puxou uma sineta que estava dependurada ao lado de fora da porta que saía para um grande salão - o refeitório. Ali acomodavam-se mais ou menos umas quinze pessoas, talvez mais, de várias idades, credos e aspirações. Aos poucos foram chegando, alegres e conversando todos de uma só vez.
Era tudo muito animado naquele lugar. Enquanto uns iam colocando pães, bolos, manteiga, leite e ovos quentes na mesa, outros traziam canecas esmaltadas brancas, pratos e talheres. Todos sentaram-se nos grandes bancos de imbuía, diante da larga mesa também de imbuía, coberta por uma toalha muito branca feita de linho rústico, com ricos bordados coloridos de flores do campo. Sobre a toalha tomaram o cuidado de colocar pequenas travessas de angico, para que servissem de aparato aos bules quentes. Quando todos estavam acomodados em torno da grande mesa, uma mulher, com voz suave e melodiosa, pronunciou: - Que nosso trabalho seja feliz e próspero. Nosso alimento seja o conforto de nossas necessidades vitais. Que este dia seja o prêmio maior de nossas vidas, como resultado de nossos esforços cotidianos. Todos ouviam atentamente e, ao término bateram palmas e entoaram uma canção muito prazerosa:

No caminho encontrei amigos Tornei feliz meu caminhar
Sou feliz aqui contigo No paraíso do nosso lar!

Ninguém vai muito além Sem precisar de ombro irmão Sem dar a mão a quem
Lhe abriu seu coração!

Somos todos exilados
Da triste vida errante
E aqui bem amparados Podemos seguir adiante!

Já não somos andarilhos Pela vida do mundo sofridos
Encontramos os bons trilhos
Que saem do Vale dos Esquecidos!

E continuavam cantando, repetindo alegremente a trajetória de suas vidas. Rindo de suas antigas tristezas e lamentando por aqueles que não tiveram a coragem de assumir uma nova esperança. Comiam aquilo que haviam produzido, vestiam as roupas simples que costuravam e teciam nas muitas horas de trabalho dentro daquele "paraíso" que haviam construído para todos.
O café da manhã durava em torno de quarenta minutos, às vezes mais, dependendo dos assuntos que tratavam à mesa, assuntos sobre as mais. simples tarefas, como fechar e abrir as portas e janelas da casa: - Hoje, o vento está vindo do Sul, isso quer dizer que teremos chuva até a tarde. Por isso acredito ser bom deixar as janelas bem abertas para recebermos a brisa da chuva. Quando começar a chover, aí então fecharemos as janelas e portas. Disse Sole, uma mulher de cinqüenta anos, dona de uma meiguice sem par. Era responsável por tarefas de dentro de casa, como abrir as janelas para ventilar os aposentos. - Que maravilha está este pãozinho Cannela, foi você quem o fez? - Ah, sim, mas a Vida me ajudou muito. E todos conversavam animadamente e faziam planos para aquele dia, como se tivessem tão somente aquele dia, nada mais.
Após o café todos levavam suas canecas e talheres para a pia lavatória e cada um seguia para suas tarefas cotidianas.
A casa de madeira lascada, era muito bem cuidada e, em toda a sua ex1ensão havia varandas e muitos quartos, uma grande sala de trabalhos manuais, jogos de cartas, víspora, bingo, leitura, etc. Se fosse o caso, ainda poderia ser aumentada para a parte norte. Mas ainda havia bastante espaço para todos os moradores que ali se achavam.
A cozinha tinha algo de aconchegante que somente quem ali entrava poderia sentir. O fogão de barro cozido estava bem no centro e sua chaminé seguia reta para o teto sem forro. Ao lado uma caixa era mantida cheia de lenha cortada, e uma menor continha gravetos, para começar o fogo pela manhã. Ao lado estava a despensa onde eram guardados os mantimentos, produzidos ali mesmo. Todos dividiam entre si a comida e, quem sabia tecer, tecia para todos. Eram felizes, todos os dias, a cada novo dia.
Na horta havia abobrinhas verdes, ervilhas, cebolas, couve, repolho, rabanete, mostarda, beterraba, etc. plantavam de tudo o que precisavam, tanto para seu consumo próprio, quanto para os moradores do Vale dos Esquecidos. Havia também a lavoura, um espaço maior onde eram cultivados produtos tais como o feijão, milho, pipoca, batata-doce, cana-de-açúcar, abóboras secas e, conforme o lugar mais úmido, cultivavam arroz.

Não podiam esquecer do cuidado com o gado, das vacas de leite, para o feitio dos doces e dos queijos - que eram também vendidos no Vale dos Esquecidos. Era preciso atender as ovelhas e as cabras, os cavalos e os patos, as galinhas e os perus. As caixas de abelhas para produzir o delicioso mel puro. Manter o pasto limpo para os animais. Alimentar os peixes do tanque e muito mais. Era preciso plantar, colher e moer o trigo para as massas de todos os dias. Ali tudo era muito bom. Todos tinham com o que se ocupar. Se preocupavam uns com os outros. Praticavam a solidariedade e o amor incondicional.
Assim seguiam, alegres, contentes com a vida que escolheram. Acolhiam com bondade tudo o que lhes acontecia e, quando era preciso tinham coragem para alterar algumas coisas desagradáveis, em agradáveis.
Liam bons livros e oravam uns pelos outros, pela paz e harmonia necessárias ao homem e à mulher, ao jovem e às crianças, tão esquecidos dessas coisas simples e, por isso se vê como ser, humano tão pobre, tão infeliz, tão só. Tão perdido de si mesmo.
O tempo ia passando em seu ritmo alucinante, desde que o Velho havia encontrado o Moço. Talvez um ano. E, numa tarde de fim de inverno, quando todos descansavam na varanda, recebendo o calor do sol e observando a paisagem dos morros ao longe e as flores e folhas das árvores que se renovavam em volta, perceberam que alguém se aproximava, pela estrada mais estreita do lado Sul do Recanto. Os cães latiram amistosamente. Todos da casa foram ao seu encontro, até mesmo Margarida que andava apoiada em muletas, abraçaram-no. Como pais e mães, irmãos e irmãs acolheram-no em seu meio, em seu "paraíso". Quase que simultaneamente falavam-lhe e indagavam-lhe coisas, como se já o esperassem há muito tempo, como se já o conhecessem desde sempre: - Enfim, você veio, meu filho, meu irmão. Seja bem vindo à Vida. Venha!
E todos estavam felizes. Houve mais um resgate!
E, ainda há grande espaço.
Precisa-se de moradores para ajudar na continuação da obra de Vida e de Amor no Recanto do Paraíso.
Quem se habilita??????
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 04/06/2006
Código do texto: T169466
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10916 leituras)
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NENINHA ROCHA