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MAIS QUE LEONARDO

“Leonardo da Vinci. Eu já dei mais. Mais que vinte. E por isso meu pai quer me matar. Pelo menos é a impressão que tenho... Toda vez que me vejo diante dele, e seus olhos disparam chispas de ódio contra mim, fico a pensar que ele tem vontade de me esganar. Já tive até a sensação de suas mãos fortes, másculas, apertando-me o pescoço, sufocando-me, até a aniquilação. Você deve estar querendo saber o porquê disto. A razão é simples: ele não se conforma com a minha preferência sexual. Sou gay.”

São 8h35min do dia 24 de janeiro de 2006. Em Tremembé, SP, Rose abre sua caixa de e-mail e começa a ler o texto acima. Assusta-se com o tom decidido e fatídico de seu amigo Fábio. Surpreende-se com a informação crua de que ele era gay. Até aquela altura de seu relacionamento com ele - e olha que já se passaram cinco anos desde que o conhecera -, nunca soubera dessa sua opção sexual. Deixe estar que a amizade durante este tempo todo tenha sido estritamente virtual; mas oportunidade não faltou para intimidades, em que tal fato poderia ter sido mencionado.

Brasília, DF. 8h40min. Uma jovem sorridente, rostinho fino, olhar de gata desconfiada, também abre curiosa sua caixa de e-mails. Da mesma forma se assusta com o texto que lê. Tinha Fábio como um grande amigo e não sabia que ele estava passando por situação tão complicada. Jane põe-se a refletir sobre o que lê e fica pasma, sem saber o que fazer. O mesmo se dá com Gaby no Rio de Janeiro, RJ; Mônica em Natal, RN; Aline em Florianópolis, SC; Cleide em Manaus, AM e Michelle em Salvador, BA. A notícia vai chegando quase que simultaneamente, obedecendo a pequenos intervalos de cinco minutos.

Naquele dia, sete amigas de Fábio viveram momentos intensos de angústia na expectativa de que alguma notícia ruim pudesse chegar acerca do amigo. Cada qual no seu lugar e de seu jeito viveu a intensa angústia da incerteza dos fatos. Nenhuma delas sabia da existência das outras e todas, a seu modo, sofreram pela informação de que o amigo corria risco de vida na própria família. Jane era a mais emotiva de todas. Até verteu lágrimas de tristeza e desconsolo, quando ficou sabendo da notícia e se sentiu incapaz de fazer qualquer coisa para ajudar o amigo. Nem sequer possuía o telefone ou endereço dele.

O que cada uma fez, e aos poucos a caixa de e-mail de Fábio começou a se encher, foi responder à informação recebida com palavras de conforto, carinho e esperança. Deram, também, conselhos para que se afastasse da casa do pai o quanto antes. Estavam todas com medo, mas não sabiam exatamente a gravidade da situação. Logo, não poderiam prever os acontecimentos. Foi um dia angustiante para as meninas, que compartilharam com amigas mais próximas a situação, mas, nem sequer desconfiavam que outras seis viviam a mesma angústia, em pontos distantes do país. Cada qual vivia sua idiossincrasia, cultura regional, ambições pessoais, valores, dentre outros fatores, mas, tinham em comum o fato de utilizarem-se da Internet como elemento de ponto de contato com o mundo moderno.

Passaram-se sete dias. No período, silêncio. Nem Fábio respondera aos e-mails das meninas nem elas ousaram enviar outros. Somente o silêncio. E para elas a angústia da situação do amigo. Algumas passaram até a acompanhar os noticiários da televisão e mesmo a ler os jornais nas bancas para inteirar-se de alguma notícia trágica. Nada. Houve quem preferisse o isolamento, a clausura. Nada de notícias. Nada de informação. Era preferível conviver com a esperança. Até que no sétimo dia algo aconteceu.

Das sete, apenas uma não trabalhava. Estava aguardando a resposta para currículos deixados em várias repartições públicas. Abria, portanto, seus e-mails do computador de casa. As outras davam um jeitinho no início do expediente, na hora do almoço ou aproveitando a saída do patrão para fazerem estas incursões fortuitas pela Internet. E quando se completara uma semana desde o e-mail bombástico, nova mensagem chega à caixa de cada uma delas. Era uma quarta-feira. E todas tiveram receio de abrir, especialmente a Rose, que estava em casa sozinha e não queria receber notícia ruim, se houvesse, sem ter com quem compartilhar.

Mas, para aqueles corações desesperados, foi tudo alarme falso. O e-mail de Fábio era apenas uma daquelas muitas mensagens em “pps”, com imagens e som, falando umas coisinhas bonitinhas, engraçadinhas ou besteirol puro para obrigar os incautos navegantes a consumir tempo na Internet e render lucratividade para os donos de provedores, as operadoras e os sites comerciais. No caso, tratava-se de uma mensagem romântica extraída de versos famosos de Pablo Neruda, o poeta dos sonhos. E elas sentiram certo alívio no coração, embora a mensagem não se fizesse acompanhar de nenhuma outra informação.

Passaram-se mais sete dias e, durante este novo período, a situação não mudou muito, exceto por e-mails isolados recebidos pela Rose e pela Gaby. Fora isso, o distanciamento da informação inicial, cooperava para diminuir a angústia ou o receio de que algo grave de fato ocorresse. Tudo estava entrando numa normalidade extremamente previsível, já que nenhuma delas fora surpreendida por qualquer notícia alarmante, embora o silêncio pudesse ser tomado por comprometedor, já que podia indicar ausência do informante, pelo menos ausência do mundo virtual, já que do mundo real, tratava-se de notícia que nenhuma delas queria receber e não estava em condições de aquilatar.

Quando se completaram vinte e um dias do famigerado e-mail, novas informações começaram a surgir que mudariam o curso dos acontecimentos. Fábio reaparece para o mundo virtual e expede alguns e-mails para as amigas. O texto que todas receberam foi este: “As coisas estão ficando complicadas aqui em casa. Nestes últimos dias, me afastei e procurei viver uma vida mais independente, pernoitando algumas noites fora de casa. Porém, estava sendo muito difícil, pois estou desempregado e as oportunidades que eu tinha não se concretizaram. Decidi, então, voltar para casa, mas percebo que a perseguição à minha pessoa continua e não sei até quando vou resistir. Tenho medo de uma desgraça. Meu pai está simplesmente fora de si. Muito agressivo, me ameaça toda hora e fala sem receios que vai me matar. Se você é uma pessoa de fé, faça suas preces por mim, pois a situação esta insustentável!”

Dessa vez Jane, a mais sensível, chorou aos prantos. Michelle e Cleide deixaram escapar algumas lágrimas. Rose se encolheu. Gaby deu um soco de raiva na mesa. Aline ligou para a mãe e contou o que estava acontecendo. Mônica, que era lésbica, ligou para uma amiga da Defesa Civil e procurou se inteirar do que poderia ser feito nestes casos. Todas ficaram alarmadas. Porém, não havia muito que fazer. Todas as informações possíveis que tinha, inclusive a cópia dos e-mails recebidos, Mônica encaminhara para a amiga na esperança de que pudesse ajudar em alguma coisa. Agora era esperar o desenrolar dos fatos e, enquanto isso, conviver com a incerteza.

No dia seguinte, um verdadeiro mosaico começa a se delinear para as sete amigas, sem que elas, em princípio, soubessem de nada. Fábio enviara para cada uma um e-mail com informações gerais e outro com informações específicas. O e-mail geral dava conta de que a chance de ele ser eliminado pelo pai era real e, em função disso, tomara uma decisão. Suas últimas falas no texto enviado foram: “Assim sendo, gostaria que você me ajudasse a preservar a memória da minha vida, caso venha a ocorrer o que está se desenhando aqui em casa. E, se de fato, eu aparecer morto, foi meu pai quem me matou, pois ele detesta o fato de eu ser gay. Beijos!”

A frieza daquelas últimas palavras surpreendeu as meninas, pois todas, sem exceção, viram em suas palavras certo tom de resignação, de aceitação dos fatos, como se tudo aquilo fosse coisa do destino, algo inelutável, para o que não adiantava esforçar-se por mudar, por vencer. E a leitura solitária do e-mail do amigo, conquanto as fizesse ficar chocadas e preocupadas, não surtia efeito maior, pois, até então, se tratava de um amigo virtual, que outras informações não lhes deram senão as constantes dos e-mails anteriores. O que não era muita coisa.

O segundo e-mail trouxe dados interessantes, que se configuravam verdadeiros quebra-cabeças. Cada e-mail foi escrito em letras garrafais, com pano de fundo colorido, conforme cada uma das meninas. Rose foi rosa. Jane, roxo. Gaby, laranja. Mônica, vermelho. Aline, azul. Cleide, verde. Michelle, amarelo. O que aquelas cores significavam não se sabia, mas a condição de gay de Fábio foi ressaltada por aquele verdadeiro arco-íris virtual. O que diziam estes e-mails? Cada qual trazia uma mensagem única, mas com dados diferentes, a saber:

Para Rose: “Quero revelar para você que ao longo desses últimos cinco anos em que desenvolvi amizades virtuais, com meninos e meninas, mais com aqueles do que com estas, elaborei uma série de contas de e-mail que davam sustentação às minhas amizades. Foram sete contas diferenciadas, uma das quais vou repassar para você e, em caso de algum desfecho negativo em função da perseguição que meu pai está empreendendo contra mim, gostaria que você acessasse a conta e entrasse nela para tomar conhecimento do que anda acontecendo comigo, quem de fato sou e onde foi que perdi as esperanças de lutar pela vida. A conta é: fabiocrazy1@terra.com.br e a senha: 1fabio24”. Para as outras meninas ele mandou o mesmo texto, diferenciando apenas com as últimas informações, que davam conta dos e-mails que elas deveriam consultar.

A curiosidade tomou conta das meninas e, ajuntando-se a ansiedade já existente, fez com que, cada uma, fosse diretamente para a conta de e-mail fornecida e entrasse com a senha para descortinar o mundo de Fábio. E, de fato, isso aconteceu... Fuçando os diversos e-mails por ele recebidos e as respostas que ele dava e os retornos dos assuntos abordados, elas foram conhecendo o mundo interior de Fábio, seus diversos namorados, as intrigas, as invejas, as chantagens de travestis e drags que não se conformavam com a beleza natural do moço e os namorados que conseguia.

Mas, na caixa de e-mail de cada uma havia um que ainda não fora aberto e lido. E cada uma das meninas, a seu tempo e em conformidade com o grau de ansiedade que as dominava naquele momento, foi abrindo aquele e-mail virgem, não-lido, e recebendo informações únicas, porém misteriosas.

Rose abriu o e-mail, cheia de expectativa, e lá estava apenas a palavra: “NADA”. Jane abriu o seu e deparou-se com a palavra: “TÚMULO”. Gaby foi presenteada com a expressão: “ELAS NÃO VALEM”. Mônica simplesmente achou a palavra: “FLORES”. Aline viu à sua frente à expressão: “NA VIDA”. Cleide deparou-se com o superlativo “MAIS”. E Michelle, em Salvador, BA, deu de cara com o que ela entendeu ser a interrogação: “POR QUÊ?”.

Uma tremenda insegurança assomou o semblante das meninas que ficaram sem entender bulhufas o que cada palavra ou expressão que receberam queria dizer. A angústia aumentava em seus corações, à medida que se davam conta de que Fábio poderia ser assassinado e elas estavam de pés e mãos atados; sem o que fazer. Até que um fato novo veio colaborar para que parte do mistério começasse a ser desvendado.

Fábio também enviou um terceiro e-mail para todas elas. Neste, ele falava um pouco dos seus sonhos; de como fora sua infância; do instante, quando tinha doze anos, que se sentira realmente gay e que começara a sofrer toda sorte de humilhação e de perseguição, tanto em casa como na escola, tudo por conta desta sua opção sexual.

Com uma frase-resumo, quase que uma mensagem, ele terminou o e-mail dizendo: “É triste não ser compreendido. É triste não ser aceito. Os seres humanos são diferentes. Não se pode exigir de todos: as mesmas idéias, os mesmos pensamentos, as mesmas causas. Mas precisamos aprender a conviver com as diferenças e com os diferentes. Respeitar o ser humano por trás de cada estereótipo. É isso que falta para a humanidade. O preconceito, de qualquer tipo, é uma das piores armas que a sociedade usa para tentar aniquilar alguém. Mata-se com AR-5, mas, também, com palavras malditas, gestos, silêncios, discriminação... Que pelo menos vocês sete, que possivelmente serão mães um dia, possam passar estes valores para seus filhos, pois um deles também poderá fazer uma opção sexual diferente da que seja o seu padrão...” E o e-mail terminava assim, meio que de forma melancólica, enquanto em vários pontos do país, meninas casadoiras choravam ou refletiam inquietas sobre as ponderações do amigo que já davam como perdido.

Destaque-se que, até então, nenhuma das meninas sabia da existência das outras. Muito menos do fato de mais alguém estar recebendo informações semelhantes as suas. Mas, neste último e-mail um fato novo aconteceu. E quem primeiro se deu conta foi a Gaby, a mais decidida e que se irritava com os acontecimentos. Ela percebeu que Fábio mencionou sete meninas. E isto a intrigou: quais seriam as outras seis? Ficou pensativa e ao mesmo tempo feliz com a informação de que havia mais alguém que estava a par do que estava acontecendo com o amigo Fábio.

Não foi difícil achar a resposta. Neste e-mail, diferentemente dos outros, Fábio mandou a mesma mensagem para todas elas, utilizando-se do recurso de envio “com cópia para”. Até parecia que, agora, ele queria que elas tomassem conhecimento da existência uma das outras. Olhando para o cabeçalho do e-mail, Gaby viu lá o endereço eletrônico de cada uma. Mais que depressa enviou o seguinte e-mail para as outras seis:

“Me chamo Gabriela. Nestes últimos meses tenho me torturado com a situação de um amigo que dizia estar sendo perseguido pelo pai, o qual intencionava matá-lo por conta de sua opção homossexual. Pensava estar sofrendo esta angústia sozinha, pois nossa amizade era virtual e não tinha sequer outro meio de contatá-lo. Hoje, através deste ultimo e-mail que ele me mandou, percebo que há mais gente conhecendo a situação. Pelo amor de Deus, se você tem alguma informação nova sobre o Fábio, me envie, pois já estou chegando as raias do desespero com esta situação. Obrigada!”.

Gaby enviou este e-mail tão logo terminou de ler e refletir sobre o conteúdo recebido de Fábio. Foi no calor do momento, pois estava totalmente tomada de uma inquietação sufocante que começava a refletir sobre seu organismo. A angústia foi tamanha, que tomou conta dela uma dor de barriga tão forte, uma diarréia incontrolável, que ela descabelou-se para o banheiro mais próximo. Suava em bicas e apertava o ventre, na vã tentativa de fazer cessar as cólicas que sentia. Passou uns bons trinta minutos se livrando das cólicas e da diarréia. E teve tempo suficiente para refletir...

Qual não foi sua surpresa, quando voltou para sua mesa de trabalho, e viu que já tinha quatro respostas das amigas misteriosas. Somente faltaram as respostas de Cleide e de Aline. Porém, as que tinham respondido não lhe acrescentaram muita coisa: nenhuma delas possuía informação adicional sobre Fábio. Todas eram apenas amigas de Internet. Até neste ponto, parece que Fábio tomou cuidado de enviar a informação para amigas virtuais, nenhuma que o conhecesse pessoalmente.

As amigas de Fábio, a partir do momento em que tomaram conhecimento da existência uma da outra, passaram a formar um grupo voltado para a solução desta intrincada situação em que se meteram, involuntariamente, pelo simples fato de pactuarem de uma mesma amizade. Naquele mesmo dia, pela noite, Gaby recebeu a resposta das duas que faltavam. Através de conversas, ficaram sabendo das palavras e expressões que cada uma havia recebido. De comum acordo, combinaram de se encontrar no sábado, em Salvador, BA, o local mais central para todas se deslocarem. Além disso, Michelle, a baiana, prometeu um fim de semana de lazer, no Hotel de sua família, sem custo algum para elas, para que pudessem estar reunidas em torno da solução deste mistério e aproveitarem para viver momentos agradáveis.

Todas toparam. Fim de semana seguinte desembarca em Salvador, de vários pontos do país, um séqüito de mulheres bonitas, provenientes de várias partes do país. A van do Hotel Intercontinental Star, buscou as meninas que rumaram felizes e falantes no trajeto urbano, como se já se conhecessem de há muito. Foi um fim de semana realmente muito agradável, que até rendeu mais do que a solução do mistério, rendeu um namoro entre Mônica e Cleide.

O objetivo do encontro fora à solução do mistério envolvendo a pessoa de Fábio. Debruçaram-se intensamente sobre o assunto e, mesmo quando estavam na piscina ou no bar, conversavam e trocavam idéias sobre a questão. Na reunião que programaram para a noite no escritório de Michelle, antes de irem à boate GLS, a solução apareceu. Cópias de e-mails, recortes de jornal, informações adicionais foram colocados sobre a mesa e as meninas queimaram pestana para decifrar o intrincado enigma e os códigos que o mesmo embutia.

Tentaram juntar as palavras e expressões e assim montar o quebra-cabeça que elas aparentavam estar oferecendo. Será que havia alguma mensagem por detrás de palavras tão díspares? Que tinha a ver “túmulo” com “vida”? Bem, alguma relação existia. E “flores” com “nada”? Não era só identificar uma correlação entre palavras. Era tentar identificar esta relação e estabelecer um ponto de contato de tudo isso com o problema que Fábio está ou estava passando.

Depois de mais de quatro horas de análises e conclusões, chegaram a um ponto chave que esclarece o enigma e que está contido numa última conta de e-mail deixada por Fábio. Se você quiser conhecer o final desta história, basta abrir a famigerada conta, pois ela é de acesso público para os leitores deste conto. Leia apenas um dos e-mails ali contidos:

fabiocrazy.rj@hotmail.com

E a senha é: 24fabio24

Se quiser ir direto à conclusão pode acessar o link:

http://www.recantodasletras.com.br/mensagensdereconciliacao/174670
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 13/06/2006
Reeditado em 10/04/2007
Código do texto: T174661
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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