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SEU LUIZ E A ONÇA

Quem conhece Taquaritinga do Norte, na Região Agreste de Pernambuco, certamente conhece um assentamento do INCRA chamado Fazenda São Paulo. É um assentamento encravado numa região montanhosa onde se cultiva milho e feijão em abundância quando a natureza é favorável. Porém nos períodos de estiagem a seca castiga.

Por ser uma região de matas e caatinga, muitos animais selvagens habitaram o local antes do assentamento e cultivo das terras. Entre eles podemos destacar o Lobo Guará, a Jaguatirica, o Gato Maracajá, a Onça Pintada, entre outros. Estes foram desaparecendo à medida que os agricultores foram se apossando dos lotes e desmatando para a agricultura e a pecuária.

Mesmo com os animais desaparecendo quase que totalmente da região, os moradores costumavam ver uma Onça Pintada vir beber água no açude da parcela de Seu João Rufino, que fica próximo a boca da mata. A onça costumava vir ao anoitecer. Fala-se que alguns bodes e cabras da região foram comidos pela onça, mas não se sabe se é verdade. Fala-se também que alguns caçadores já se depararam com ela à noite quando caçavam tatus. Mas correram, não tiveram coragem de enfrentar; era um animal com quase três metros de tamanho e muito valente.

Entre os parceleiros da Fazenda, estava a família de Seu Luiz Manoel, que com sua esposa – Dona Deolinda e seus três filhos homens, tocava a sua plantação de milho e feijão consorciados e criava dois bezerros, uma vaca, bodes e galinhas. Seu Luiz com Dona Deolinda tinham também uma filha chamada Mariquinha, bonita até! Mas juízo nem um pouco. Não para dentro de casa, só para comer e dormir. E Seu Luiz tinha o maior cuidado para que Mariquinha não se aproximasse da mata, pois a onça poderia aparecer e o desastre tava feito. Mas não deu outra.

Numa sexta-feira, logo após o almoço, todos saem de casa para quebrar o milho que já tava no ponto de venda. Era mês de São João. E na euforia para colher a maior quantidade milho possível, esqueceram de observar por onde Mariquinha andava. E terminado o serviço; a noite já ameaçava com sua negra cortina, foram para casa. Para surpresa de todos, Mariquinha ainda não tinha chegado. Seu Luiz preocupado, pois era a hora que a onça aparecia para beber água, chamou um filho e foram procurar a filha desmiolada. Dona Deolinda ficou em casa chorando! Procuraram por todos os locais possíveis considerando que já era noite e nada de encontrar Mariquinha. Voltaram para casa desolados, mas não tinha como continuar procurando na escuridão. O jeito era deixar amanhecer o dia para procurar novamente. Mas todos já achavam que o pior tinha acontecido. Dona Deolinda inconformada gritava o nome da filha no terreiro da casa, mas sem sucesso.

Amanhece o novo dia e logo cedinho Seu Luiz pula da cama para ir busca de Mariquinha. O galo ainda tava cantando e ele chama os filhos que vão chegando dos matos onde foram fazer as necessidades fisiológicas. Zuza ainda vem atacando as calças. Nesse momento alguns vizinhos se juntam e vão em busca de Mariquinha. Percorrem as plantações, os açudes, as casas dos parceleiros e nada. Nem notícia. Os vizinhos desistem e cada um parte para seus serviços. Seu Luiz e os filhos continuam a busca e desta feita começam a procurar na mata. E quando chegam debaixo de um Pau D´arco – era o local onde a onça dormia, encontraram a roupa de Mariquinha toda rasgada – era um vestidinho de Chita, cheio de bolinhas amarelas. Encontraram também muitos fios de cabelo. Era a prova de que a onça realmente tinha comido Mariquinha. Seu Luiz ainda pensa em ir procurar a onça, mas os filhos não deixam e voltam tristes para casa.

Mas, mesmo diante do acontecido, o milho estava por vender e seu Luiz com os filhos, fretam um caminhão e partem para feira de Taquaritinga. Lá chegando, Seu Luiz deixa os filhos vendendo o milho e vai até a delegacia de Polícia prestar queixa da morte da filha e pedir providências ao delegado. Ele achava que a Polícia deveria caçar a onça e matar.

Bom dia seu delegado.
- Bom dia Seu Luiz. O que lhe traz aqui?
- Dotor venho pedir as suas providências.
- Mas o que houve? Pergunta Dr. Guilherme, o delegado.
- A onça comeu minha filha.
- Mas eu não posso fazer a onça casar com sua filha Seu Luiz, retruca o delegado.
- Não, dotor ela comeu comendo de verdade.

Mas o delegado muito frouxo, convence Seu Luiz de que não tem pessoal suficiente para fazer uma busca na mata e matar o animal. Ele vai embora. Encontra-se com os filhos que já tinham vendido o milho e vão para casa.

Era véspera do São João e a noite, na casa de Biu de Baixa, ia ter um forró onde com certeza os filhos de Seu Luiz iam dançar. E assim aconteceu. Que faz Seu Luiz: Se considerando um bom caçador e aproveitando que a noite já seria de lua cheia e dava para andar bem por dentro da mata, resolve ir matar a onça escondido dos filhos, que com certeza não deixariam. Pega o “bisaco” com chumbo, pólvora e outras materiais necessários para preparar o tiro, coloca sua espingarda soca-soca nas costas e parte para vingar a morte da filha.

Era cerca de sete horas da noite. Seu Luiz entra na mata com sua arma de um tiro só e vai direto para o local onde ele achava que a onça estava dormindo. Acontece que a onça estava bem acordada e pressentiu pelas pisadas nas folhas, que alguém se aproximava. E já chegando perto; Seu Luiz com sua espingarda em punho, a onça resolve vir de encontro. Seu Luiz sente a fera se aproximando, mas não arreda o pé e quando a onça parte, ele raspa o dedo no gatilho, mas erra o tiro. Com o barulho a onça corre e Seu Luiz trata de carregar a espingarda novamente. Não deu tempo. Quando tava socando a segunda buxa, sente que a onça se aproxima em disparada. Ele mal solta a espingarda e o temido animal aparece na sua frente. Seu Luiz fica sem alternativa e o jeito é tentar pegar a onça. A onça parte pra cima de Seu Luiz e Seu Luiz parte pra cima da onça. Uma cena indescritível. O animal literalmente voa em cima dele. Ele nega o corpo e a onça erra o bote, bate com a cabeça numa árvore e fica atordoada. Aí seu Luiz aproveita; pega a bicha pelo rabo, roda por cima da cabeça, bate com ela no chão, roda e bate novamente, roda e bate, roda e bate, o bicho desmaiou. Seu Luiz pega a peixeira enfia todinha no pescoço da onça e deixa o sangue ir embora.

Satisfeito e de peito lavado por vingar a morte de sua Mariquinha, Seu Luiz faz uma corda com cipós, amarra a falecida e puxa até em casa para provar o seu feito aos filhos e aos vizinhos.

E ainda hoje quem visitar a parcela número vinte e dois da Fazenda São Paulo, vai ver o couro da onça pregado na parede da casa de Seu Luiz.

                                                    Lima / junho/06
limavitoria
Enviado por limavitoria em 16/06/2006
Reeditado em 05/08/2006
Código do texto: T176383
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Sobre o autor
limavitoria
Vitória de Santo Antão - Pernambuco - Brasil, 66 anos
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