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ESCREVENDO E O CORPO RESPONDENDO

 Escrevia era um homem muito dado as Letras adorava a boa literatura aquela feita com o teor extremo do Eruditismo, porém até o inútil também dava seus rascunhos quando sentia vontade, tinha lido uma centena de livro e não seria uma hipérbole se citasse que ele havia devorado todas as bibliotecas do mundo.
                              Escrevia era uma espécie rara na sociedade mais rara que um QI acima de 150 na população global, porém ele apresentava outras qualidades tão pequenas em relação a essas já citadas, mas não ínfimas a ponto de se jogar para debaixo do tapete da existência, ele amava fazer uma literatura exótica, isto é, tecia longas Elegias, Grandes Epopéias, Imensas Citações, aliás, sua qualidade de Escritor não se assimilava, pois ele quando começava um texto só terminava depois de dias, semanas ou meses isso era maçante para ele já que morava numa rua chamada ignorância aonde seus vizinhos eram analfabetos, mal sabiam assinar o nome, por isso quando ia mostrar seus textos para amigos, colegas e outros transeuntes daquele vilarejo recebia tais indagações:
         -Voce é louco!
         -Não intendo o que quer dizer.
         -Mas quanta letra amontoada!
         -Qui é iso...
          Escrevia triste, receoso pelo futuro dos mesmos resolveu planejar algo para ensinar àquela comunidade, a saber, cultuar sabedoria de grandes autores como Machado de Assis, Castro Alves, Jô Soares, entre outros já que seus textos eram por demais herméticos no mais erudito da escrita para aqueles moradores, maquinou horas e horas um jeito de entreter e simplificar seus ensinamentos e convencê-los que num supletivo lecionado por ele seria um caminho para os mesmos saírem um pouco daquela pequenez de espírito, mas havia um problema Escrevia queria saber como era aprender na mais santa ignorância, devia ser difícil pensava ele com sua mente tão culta e filosófica exacerbadamente, porém ele mal sabia por onde começar a se pôr no lugar daqueles pobres coitados então como um cometa uma grande idéia soou em meio às idéias ainda não formuladas, tudo agora se esclarecia como o ensaio perfeito para o show de uma imensa orquestra, Eureka estava a equação resolvida se ele usasse os próprios sentidos para fazer um levantamento empírico sobre a possibilidade futura, começou então por sua boca escrevendo um versinho pequeno então largou a mão de imitar a ignorância e partiu para um aprendizado subjetivo da arte da escrita dinâmica já que seus textos eram dignos de Camões e outros portugueses literatos que ensinaram o quanto é difícil imitar um gênio esmiuçado, Escrevia pensou isso até meio tácito longe ainda de outra perspectiva então saiu isso:
      “Meus lábios de Mel são o puro Fel”
       Quando escreveu essas palavras sentiu sua boca ficar doce, porém sua mente falava que ele havia exalado o veneno de uma picada de abelha, Escrevia parecia estar com uma antítese no céu da boca e sua língua começou a ler os livros passando entre as páginas suas pálpebras avermelhadas, lambendo volumes imensos de Instituições Políticas de Oliveira Viana sua língua logo se retraiu, pois enojava os paradigmas que o nosso país copiou do estrangeiro, depois ela viu um exemplar em miniatura de Crueldade Fraternal do Marques de Sade e interessou-se em saborear aquele conto filosófico no contexto da inveja e traição do mundo rico-familiar e também começou a arder de raiva dos irmãos que traíram a mocinha, porém ele se esqueceu do enredo e então conseguiu ainda aturar até o fim a estória.
           Depois folheou atônito um capa dura de Critica da Razão Pura do Grande Filosofo Imanuel Kant e se interessou pela análise inicial sobre conhecimento puro e empírico, porém até estética transcendental se sentiu confuso com as diretrizes do autor, mas se recompôs daí em diante valendo de destaque que ele digeriu até o estomago as analogias da experiência.
             Ficou um tempão só devorando os melhores clássicos e os piores e depois de uma tarde inteira sentado em sua escrivaninha ele volta ao normal e sua língua ao tamanho original já que era grande demais e trabalhava como alimento de sua mente.
             Escrevia quando voltou ao seu estado normal sentiu uma forte de barriga e se enfiou no banheiro, defecou muita bobagem literal, porém eram tão vis que ele nem identificou, voltou a sua escrivaninha rapidamente, quando voltou teceu mais um verso:
         “Minhas mãos tateiam florilégios clássicos”
              Imediatamente como palavras mágicas suas mãos procuraram as gavetas mais próximas e como num sebo percorreu quinhentismos diversos desde Portugal à Espanha, tanto que distinguiu como braile mil e trezentas citações sem nem ao menos olhá-las.
              Escrevia então voltou ao normal novamente e sentiu que seus dedos estavam marcados por um odor de mofo então foi a cozinha e lavou suas mãos tentando recobrar as lembranças do que fizera naquele exato instante e sem sucesso voltou a sua escrivaninha e resolveu tecer mais um verso sob os dois anteriores vendo que sua dinâmica não ultrapassavam mais de cinco linhas o que era para um exagerado como ele um balsamo de dinâmica voltando ao assunto escreveu:
              “Meus olhos insistentes lêem a Modernidade”
              Então Escrevia abriu a íris como nunca havia aberto e seus olhos pareciam acompanhar até as menores letrinhas de O Noviço, sua visão estava tão apurada que num passe de mágica leu todos os exemplares possíveis de Carlos Drummond, Paulo Leminski, José Saramago, Dan Brown, etc; tudo que fosse contemporâneo até aquelas antologias que eles montam em regime de cooperativismo literário e se paga em vastas parcelas e são um tormento para os pequenos contemporâneos, a única coisa que não foi lida por ele foi seu próprio nariz depois de ter voltado ao normal tanto que não constatou que sua biblioteca particular estava toda desarrumada com livros para todos os lados, marejados e castigados seus olhos estavam vermelhos ao ponto dele até temer ter sido infectado por uma conjuntivite instantânea, porém nem isso lhe preocupava o que o preocupava realmente era o que estava ocorrendo com seus sentidos, mas nada lhe auxiliava nesta questão.
           Passaram-se anos disso e ele já formando seus primeiros pupilos depois de um árduo trabalho enfim senta em frente a sua escrivaninha e se lembra que foi ali que seus sentidos haviam criado viva se é que me entende leitor, contudo não lembrara o porque disso até que uma voz o interrompe rouca e lancinante em sua frouxa essência:
          -Escrevia você é chamado por seu mestre.
            Escrevia então olha ao seu lado e não entende nada, pois sua biblioteca esta sem ninguém então ele olha para um livro de capa toda branca e lê o seguinte:
            “Você é o escolhido para entrar no livro da suas própria vida”
             Escrevia então nem se da conta e é engolido para o mundo da fantasia que era sua utópica existência.
Edemilson Reis
Enviado por Edemilson Reis em 17/06/2006
Código do texto: T177470
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Sobre o autor
Edemilson Reis
Vespasiano - Minas Gerais - Brasil, 27 anos
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4 e-livros (593 leituras)
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Edemilson Reis