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Texto

Kintjur

Seu nome era Suen Tjurtsi. Por mediação de uma casamenteira, fora prometida ao jovem Leu Tsuyntjhus, filho de um juiz. Não o conhecia, mas lhe disseram que era um rapaz estudioso, destinado a grandes honras como erudito ou funcionário público.

Já recebera presentes de casamento da família do noivo, quando um vizinho comentou que o rapaz estava muito doente. Os Suen enviaram a casamenteira com um pedido de esclarecimentos e a proposta de adiar o matrimônio, se fosse o caso.

Os Leu lhe garantiram que se tratava de um simples resfriado, recusaram-se a adiar a cerimônia e lhe mostraram o pavilhão já preparado para o casal, mas não lhe permitiram ver o rapaz.

Os Suen desconfiaram. Não ousavam romper o contrato, mas receavam condenar a filha a uma viuvez precoce. Mandaram dizer que não enviariam o dote enquanto o noivo não se curasse. Esperavam ter a proposta recusada, dando-lhes uma desculpa para cancelar o casamento, mas, para sua surpresa, os Leu aceitaram.

No dia marcado, Tjurtsi deixou que lhe vestissem a túnica vermelha bordada de ouro e prata e lhe pintassem de vermelho os lábios e a face. Ao anoitecer, despediu-se, chorando, dos pais. Foi levada em um palanquim florido ao som de tambores e flautas para a casa dos Leu, levando apenas um bauzinho de couro com algumas mudas de roupa.

Quando desceu, o noivo não estava. Os sogros lhe disseram que a irmã, Leu Kinzhyn, o representaria. Foi ao lado de Kinzhyn que Tjurtsi cruzou o umbral de sua nova casa, pronunciou as fórmulas sagradas do matrimônio e se prostrou ante as plaquetas com os nomes dos ancestrais do marido, enquanto os convidados continham o riso.

A sogra então a levou ao leito do doente. Febril e delirante, ele não
compreendeu que lhe apresentavam sua esposa. Levaram-na então ao pavilhão destinado ao casal, tiraram-lhe o véu, ajudaram-na a trocar o complicado traje de noiva e a deixaram sozinha. Estava casada. Continuou a ouvir os sons da festa até tarde da noite, quando a música cessou e os convidados se retiraram.

Tjurtsi tentava dormir quando bateram à porta. Eram a sogra e a cunhada.

– Querida nora, a gentil filha fez a indelicada mãe ver que seria pouco
hospitaleiro deixar a noiva passar sozinha a primeira noite sob o teto da casa Leu. A obsequiosa filha quer lhe fazer companhia.

– A agradecida nora está acostumada a estar só...

– Fica tranquila, não é incômodo algum – disse a senhora. – Para a prestimosa filha, é um prazer.

A senhora se retirou e Kinzhyn perguntou:

– A bela cunhada não comeu nada. Não tem apetite? Se quiser algo, é só dizer e a companheira trará.

– A colega é muito amável, mas a noiva não tem fome.

Kinzhyn trancou a porta do pavilhão, aproximou-se da esteira e deitou-se a seu lado. Entraram sob as cobertas, despiram as roupas exteriores e puseram-se a conversar. Kinzhyn lhe contou que estava prometida a um rapaz da família Bhey, que morava em uma vila distante. Já recebera os presentes que formalizavam o contrato, mas seus pais priorizaram o casamento do irmão mais velho. O pai
pensou em adiá-lo, pois a doença era mesmo séria, mas a mãe insistiu em manter a data marcada. Sua família tivera grandes despesas no último ano e receava não poder pagar o dote de Kinzhyn sem receber o de Tjurtsi ou se endividar com estranhos.

– A futura noiva não está ansiosa por isso, não é verdade? – perguntou Tjurtsi.

– É verdade, mas tampouco a recém-casada parece feliz.

– Fazer o quê? Uma e outra são mulheres, têm de aceitar a vida como é...

A outra riu.

– A moça viçosa fala como a resignada mãe da intrometida companheira.

– A recém-casada é tão jovem, seria antes marido da gentil amiga...
Kinzhyn riu, deliciada.

– O marido é a importuna, pois desempenhou o papel do irmão na cerimônia!

– Acho que a noiva estaria mais contente se a cunhada fosse mesmo o marido...

Sem pensar, Tjurtsi fez uma carícia na cunhada, que não opôs resistência. Hesitante, prosseguiu e tocou seus seios firmes e suaves. Kinzhyn gostou da brincadeira. Devolveu-lhe o carinho e a beijou bem fundo, a abraçá-la com paixão. Tjurtsi, derretida, sussurrou-lhe ao ouvido.

– Isso já não é brincadeira. As companheiras são marido e mulher de verdade.

– Ainda não. Quando marido e mulher tirarem a roupa de baixo.
– Não! Isso está errado! O que os outros vão dizer?

Agitada, Kinzhyn não lhe deu atenção. Meteu a mão sob a calcinha de seda e a tocou em sua parte mais íntima. Assustada, Tjurtsi se protegeu com as mãos.

– Kinzhyn, isso não!

– Ninguém precisa saber, Tjurtsi. A noiva não deve ser tão tímida, o marido ansia por unir-se à esposa...

A excitação venceu-lhe a vergonha. Deixou de resistir, despiu-se e deixou-se arder em paixão até ficar exausta. Dormiram abraçadas.
A festa de casamento foi retomada no dia seguinte e os sogros ficaram muito felizes ao ver Tjurtsi mais animada. A noite foi ainda mais movimentada. Só a distância entre o pavilhão dos noivos e a casa principal impediu que a família se desse conta do que acontecia.
Passaram-se dias e Tsuyntjhus, para alívio dos pais, começou a melhorar. Já consciente, quis conhecer a noiva. Com passo inseguro e voz fraca, foi ao pavilhão sustentado por dois criados e a ama o anunciou:

– O jovem senhor quer entrar!

Tjurtsi, abraçada à cunhada, largou-a, amedrontada. Kinzhyn levantou-se e foi atendê-lo.

– O querido irmão conseguiu levantar-se? Assim se cansará!

– Não importa, o marido quer saudar a amada esposa. Como é bela!

Ajudado pelos criados, fez-lhe uma profunda reverência e Tjurtsi foi cortês.

– Que o amado marido viva dez mil anos e dez mil felicidades o acompanhem!

À noite, afundaram em amargura.

– O irmão logo vai consumar o casamento. A enamorada da mais doce jovem de Zjoey será obrigada a se casar e ir embora, Tjurtsi.

– Que será desta infeliz? A pobre coitada não quer ficar sem a outra metade!

– Esta metade sente o mesmo, mas que fazer? As duas prometidas a outros...

– A noiva quer a morte para que o espírito possa seguir a amada.

– Isso não deve ser dito! As amantes podem pensar juntas em alguma coisa!

Não conseguiram pensar em nada e apenas se abraçaram, a verter lágrimas. A mãe de Kinzhyn, ao passar por acaso junto ao pavilhão, estranhou a choradeira, olhou por uma fresta da janela de papel e viu as duas nuas e abraçadas. Ao tentar abrir a porta, viu que estava trancada e gritou.

– Por que as duas trancaram a porta?

As amantes se apressaram a se cobrir, enxugar as lágrimas e abrir-lhe a porta. A senhora Leu tremia de raiva.

– Por que as duas se trancam abraçadas aí dentro?

Muito coradas, não souberam o que responder. A mãe puxou a filha pelo braço.

– Mãe e filha vão conversar.

Levou-a para casa, trancou-se com ela no quarto e a ameaçou. Podia-se ouvir os gritos do pavilhão de Turtsi.

– Ah, a miserável dirá a verdade ou a mãe a matará! Por que as duas choravam?

Kinzhyn decidiu confessar. Suplicou-lhe que revogassem o contrato com os Bhey para poder ficar perto de Tjurtsi.

– A miserável ama a cunhada como um marido ama a mulher. Esta desvalida saberá respeitar os direitos do verdadeiro marido e não perturbará o irmão, mas quer ao menos estar perto para ver a amada. Se a miserável for mandada para longe,
morrerá.

A mãe explodiu de raiva.

– Que marido nem meio marido! A filha é mulher e nasceu de uma família honrada! Casará com o jovem Bhey assim que o dote de Tjurtsi for recebido! Agora, sim, a mãe exige que a filha vá para longe e não volte para perturbar a felicidade do filho! Se a filha quer morrer, que morra, pouco importa! Se não quer, que fique calada! Ai da filha se o pai souber!

Deixou-a trancada e se foi. À noite, Kinzhyn rebentou a frágil janela, pulou para o jardim e chamou a desolada Tjurtsi.

– A adorada Tjurtsi quer fugir com a louca apaixonada?

– Para onde?

– Não importa, esta alma partida só quer sentir-se completa mais uma vez.

Tjurtsi pediu ajuda para forçar a janela e correram para o bosque, onde se abandonaram uma à outra. Ao nascer do sol, viram-se sem saída. Do outro lado da mata, só havia um despenhadeiro de centenas de braças, junto ao mar. Tjurtsi, trêmula, perguntou:

– A amada quer voltar?

– Não.

Trocaram um último beijo vertiginoso, a jogar-se no nada. Seus corpos, esmagados contra as rochas numa única massa inextricável, foram sepultados juntos. O pobre Tsuyntjhus teve uma recaída ao saber da tragédia e morreu, dias depois. Mas uma bela flor de pétalas alternadamente vermelhas e amarelas, até então desconhecida, foi vista a crescer na região e recebeu o nome de kintjur, combinação do nomes das duas jovens. O túmulo tornou-se o santuário meio clandestino da gênia do mesmo nome, tida como protetora do amor entre mulheres.
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
Enviado por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa em 05/10/2009
Código do texto: T1849904

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Sobre o autor
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
São Paulo/SP - Brasil, 54 anos
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8 e-livros (946 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/02/12 08:56)

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