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SOLIDARIEDADE


A quixabeira ao lado da fonte. Coisa de 50 metros distante. De manhã cedo, pelas nove horas, à tardinha por volta das cinco, os pássaros fazem parada de descanso no alto da copa, nos galhos em que melhor se acomodem. Vêm de léguas e léguas de vôo no caatingão do Raso, de distâncias sem fim, ou poderão vir das proximidades para matar a sede naquela única fonte que sabem nos seus campos. Pousam, descansam e descem em seguida à margem do tanque para se dessedentarem. Gota a gota, baixando e elevando o pequenino bico, para colher o líquido, para faze-lo descer à garganta, bebem as pequenas aves. São aos milhares atapetando as margens da aguada. São aos milhares decorando a fronde da árvore. Chegam de mais longe ou mais perto, pousam mansamente, sacodem as asas para refrescar-se, descansam. Descem à fonte, bebem, banham-se a seguir, levando uma das pequeninas asas a água e retirando, elevando-a ao mais alto possível e sacudindo sobre o pequeno corpo. Batem as asas para enxugar-se. Voam de volta à quixabeira e aí se divertem, bicam-se, talvez para se coçarem, talvez para limpar-se de pulgas. Vem a hora de buscarem o ninho, se a tarde desce, de procurarem o alimento se o dia se enflora e se enfeita de luz; Tornam ao vôo.
Nem todos tornam, porém. Nem todos tornam. O caçador pôs tocaia de espera debaixo da árvore. Vem a pomba verdadeira, vem a asa-branca de seu vôo, longo ou curto, como as muitas irmãs do céu e acolhe-se nos galhos mais altos para o descanso do estirão. Sacode as asas. Acomoda-se. E antes que desça à fonte recebe a carga de chumbo. Descem de um só tiro, conduzidos por muitos caroços das minúsculas balas embuchadas no cano da espingarda, dois pombos – um casal. Isso me dói, parece que vejo quando os pequeninos animais isentos de mal e de pecado sacodem-se no desespero da morte.
Oh o caçador! As pombas mortas deixaram os pequeninos filhotes no ninho esperando seu retorno com a água e o alimento dos quais saíram em busca. O homem, quanto mais inteligente seja, mais culto, mais preparado para a vida, mais feroz será, deixando abaixo da sua, a ferocidade das feras.
O caçador e as pombas! Dói. Há, entretanto, a desculpa de que a ave sacrificada servirá de alimento a seus filhos. Será justo – o outro, entretanto – o abate de uns em benefício de outros? Argumentar-se-á com a seleção da Natureza, com o instinto natural aos bichos, que a uns faz herbívoros a outros carnívoros. Pode-se argumentar com tudo e como quiser, a dor permanece. A minha dor. A dor dos que sentem horror pela violência. A ave foi morta e os pequeninos filhos morreram porque ela faltou. Ou não havia filhotes, só havia ovos? Ou não havia filhotes nem ovos? Existia a vida, em última análise, que foi cortada antes do tempo natural. Sempre que é violenta a morte, corta-se a vida antes do tempo, a animal, como a vegetal.
Mas, aquelas pombas mortas na espera da quixabeira deixaram filhotes. E a estes, socorreu-os a Natureza. Não bem a Natureza, o entendimento aqui é outro e carece melhor explicado. Deus, nas asas da solidariedade. Vizinho ao ninho das pombas agora sem vida havia outro ninho, de nada mais que um casal de rolinhas. Quando estas chegaram para alimentar seus filhotes, os bicos das nascentes pombas, maiores que os das recém-nascidas rolinhas, ergueram-se para o alto pedindo pão. E porque houvesse o suficiente ao alimento dos dois ninhos ou porque os seres ditos irracionais sentem e amam, solidarizam-se uns com os outros, os órfãos foram alimentados. Naquele dia e nos seguintes até tomarem vôo e autocomando.
Isso não se deu pela primeira vez assim, com aquelas pombas e rolinhas. Deu-se antes, muito antes, na criação dos animais e na formação das fontes, quando Deus andava no mundo. Já então se haviam definido caça e caçadores. Deus descansava à sombra da quixabeira quando o caçador armou a espera sem perceber Sua presença e abateu um casal de pombos. Eu, agora, no meu tempo, levava meu rebanho à fonte e não fui visto. Doeu no Criador o que viria a doer em mim milhões de anos depois. E foi aí que o Senhor criou a solidariedade entre os seres animados. E foi a partir daqui que a pomba e a rolinha aprenderam a viver como irmãs, mansas e simples como a bondade divina.
                                                   13-03-03
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João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 03/07/2006
Código do texto: T187021

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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João Justiniano