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OS SAPATOS DE ZEZÉ.


Zezé. Zezé Jacinto de Assunção. Comprou os sapatos para o casamento. Era o São João, quando o padre desobrigava. Na desobriga casava e batizava. Não tinha licença para o Crisma, só para o Batismo.
De sapatos novos, esticado no terno de brim de cor cinza, gravata amarrada no pescoço, Zezé recebeu Joaninha pelo sacramento que une marido e mulher, até que algum arranca-rabo os faça inimigos. Salvo se o marido descobre a mulher pulando a cerca, que, aí, a espingarda pipoca estourando miolos ou a lambedeira corta carne humana. A lambedeira de sangrar bode serve para gente também. Se nada disso acontece, a união vale até que a morte a divida.  Danada, a morte. Pode tudo, inclusive contra o casamento. O casamento indissolúvel que se destina a pegar as pessoas do princípio ao fim. Por isso é que o padre diz: “até que a morte os separe”.
Acabou de chegar da igreja, tirou os sapatos e a gravata. Calçou as alpercatas de trabalhador – alpercatas de rabicho. Era um homem do campo. Da enxada e do machado. Plantava sua rocinha quando chovia, de ano em ano. Cortava lenha ou madeira, criava umas cabrinhas. No terreiro a mulher criava galinha. Viviam. A vida não era mais do que isso: trabalhar, comer e dormir. Fazer filhos. Um todo ano. No fundo, no fundo, a vida de todo vivente, na cidade ou no campo, rico ou pobre, é isso mesmo – viver. Zezé e Joaninha viviam.
No São João seguinte, de novo os sapatos. Para a missa e o batizado do filho. Depois os tirava e calçava as alpercatas. E lá iam, de volta na roça, para o fundo do baú. No outro ano era calçá-los para o mesmo fim – missa e batizado. Todo ano, todo ano. Muitos, muitos. Os sapatos os mesmos. Apertavam, incomodavam. As alpercatas, não! Não apertavam. Eram largas, acomodadas aos pés. Mas os sapatos! Viii!
Zezé era um homem corpulento e forte. No trabalho, um monstro. Não havia quem o alcançasse no eito. Pegava a enxada, baixava a cabeça e lá se ia, sem parar desde manhã cedo ao meio dia. Almoçava correndo e voltava ao trabalho até ao anoitecer. Nenhum trabalhador de aluguel queria trabalhar com ele. Nem que precisasse da diária, o sujeito corria longe.
Já tinha filhos crescidos. Duas mocinhas em idade de casamento. No mato as pessoas, sobretudo as mulheres, casam cedo. Aos dezoito a moça já está passando. Aos vinte e dois começa a concorrer ao barricão. Duas mocinhas de dezesseis e dezessete anos. As primeiras. Dois rapazes da vizinhança – o Zé Benevides e o Hortêncio de Mané Alves, deram de freqüentar sua casa nos fins de semana. Cortejavam as meninas. Muito que bem. Ele fazia gosto nisso. Os moços se hospedavam na casa do “futuro” entre sábado e domingo. Dormida de rede, no alpendre. Em um fim de semana, tempo de roça, a plantação pedindo enxada para a limpa, ele pensou em testá-los. E consultou:
- Vocês vêm no sábado próximo?
- Vem sim sinhô.
- Então tragam a enxadinha pra me dar um adjutório! Tem muito mato na roça e eu só, não tou dando conta. Venham mais cedo um pouco.
- Pois não, seu Zezé, eles responderam felizes.
Mal chegaram, cedo da manhã, no sábado seguinte, cumprimentaram Joaninha e as “futuras”, acompanharam Zezé. Era conhecida da vizinhança, essa roça. Enormidade de chão. Terra de primeira para feijão fradinho e milho, melancia e abóbora, para algodão. E Zezé plantava de tudo. Ele tirou as alpercatas e a camisa, arregaçou as calças, no que os meninos o acompanharam. E pegaram da enxada. Sol subindo. Suor correndo e enxada cortando chão. Zezé na frente do eito, os rapazes no piso. O suor descia pelo rosto acariciado pelo sol, brilhava no lombo, molhava as calças nas partes. Meio dia Joaninha chegou com a farofa do almoço. Ele propôs:
- Vamos comer em pé mesmo, pra não perder tempo.
Mal limparam a boca com as costas da mão, e enxada, para que te quero! Escurecia, quando deixaram o trabalho. Passaram no tanque, tomaram um banho. Chegando em casa, quebrados do dia de enxada, os meninos nem conversaram com as meninas. Foi só comer qualquer coisa, caíram na rede. Um sono de noite inteira. Até serem acordados de manhã cedinho. Um cafezinho com batata doce e outra vez na roça. Mais um dia de suor e arrependimento. Em boa entramos, ambos pensavam sem poder dizer-se nada, o velho aí, olhando para eles e medindo o trabalho com os olhos. Pois sim!
Na saída da roça à tardinha do domingo, o banho no tanque e aí mesmo se despediram com a desculpa:
- Está muito tarde, seu Zezé, a gente mora longe, precisa ir pra casa.
E nunca mais!
Duas, três, semanas depois, a notícia corria. O Zezé deu uma surra de enxada, que espantou os namorados das filhas. Estas se mostraram queixosas.
- Nada não filhas, eles não prestavam pra vocês. Homem que não agüenta enxada não sustenta família.
E estava acabada a questão. Não se falou mais nisso. Os anos caminhavam na sua lenta jornada de todo dia, abrindo os botões em flor, fazendo germinar a semente, roendo rostos, sepultando gente, contando o tempo para criar a história. As moças tiveram novos pretendentes e se cassaram. Estes, sim, souberam impressionar. Agüentaram o rojão de Zezé nos fins de semana, ainda que não fossem tanto do pesado.
Em um São João, muitos anos depois, Zezé teve a idéia de mudar a cor dos sapatos de seu casamento, do batizado dos filhos, do casamento das filhas. Eram marrons e os quis pretos. Chegou no engraxate, sentou-se na cadeira de cliente e falou:
- Bote isso preto.
O rapaz tirou-lhe os sapatos dos pés. Para esse procedimento precisava tirar.
- Demora um pouco, falou.
- Nada não, eu espero.
O rapaz abriu um frasco de tic-tac e começou a tarefa.  Ele bem do seu, sentado, olhando as pessoas que passavam. Era distraído estar sentado e ver gente indo e vindo. As pessoas olhavam para ele, e ele se sentia admirado, respeitado certamente, sentado com toda a comodidade que lhe enseja a cadeira, reclinado para trás, empurrando o espaldar que lhe parecia muito confortável.  Naquele momento imaginou-se um rei vendo os vassalos no passeio festivo do São João. Coisa bonita! Parecia a ele, que todos o olhavam com inveja. Não era cadeira para qualquer um. Comodidade!
O engraxate trabalhava. E vai tic-tac. E vai escova. E vai tic-tac. E vai escova. E vai graxa. Ele sentado. O povo indo e vindo. Olhando-o. Ele olhando o povo. E vai escova. E vai tic-tac. E vai graxa.
- Pronto. Ficou uma beleza. Pretinho que faz gosto. Repara como brilha!
Sorriu. Calçou os sapatos, admirou-os. Parecia até que estavam macios, como nunca foram. Gostou. Sorriu de novo.
- Quanto é? - perguntou.
- Quinhentos réis.
Tomou um susto e rápido, tirou os sapatos. Disse:
- Tome, pode ficar com eles.
Levantou-se e foi saindo, pés descalços, pisando maciamente sobre a areia fina.
- Ei! Vem cá! Para que eu quero isso? Quero é meu dinheiro.
Zezé não deu resposta. Continuou indo embora.
O rapaz correu atrás:
- Moço, por favor, toma teus sapatos, dá meu dinheiro, quinhentos réis.
- Pode ficar com os sapatos em paga.  Não valem isso!
- Moço!
E Zezé foi embora, o rapazinho com cara de bobo, olhando.
- Tá o diabo! Qué que faço com isso?
Uma pessoa que estava de lado e vira todo o movimento, ouvira o diálogo, falou:
- Sabe que ele tem razão? Os sapatos não valem quinhentos réis mesmo não! Isso é do tempo do onça!
- E agora? Eu gastei minha tinta!...
joaojustiniano@terra.com.br
www.joaojustiniano.net

 




João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 03/07/2006
Código do texto: T187030

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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