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MEU VELHO


Meu velho. Que saudade de meu velho! Como era bom e suave, amigo, solidário com as minhas travessuras. Com as aventuras também. Minhas contundentes e perigosas aventuras amorosas. Nos mais difíceis momentos, nos casos mais arriscados, dizia:
- Vai em frente, é isso mesmo, eu também já fiz dessas coisas. Só não atravessei mares tão violentos. Vai com cuidado. Mas vai. Viver é bom. E a vida é isso, fazer o que nos agrada, aquilo de que gostamos. Ter o que recordar na velhice, o que eu quase não tenho.
Não dá para contar tudo. As palavras de apoio, as ações de solidariedade tantas vezes repetidas, em tantas ocasiões. Basta contar uma, para convencer que tive o pai mais legal do mundo.
Veraneávamos em Salinas das Margaridas. Ele gostava daquele recanto, de onde dizia que ao tempo das salinas da Companhia Magalhães, coincidente com seu tempo de moço, era um lugar quieto, praias alvíssimas, peixe a preço menor que o preço da banana, morenas fornidas e de acesso relativamente fácil. Meu avô é que não era moleza, não lhe dava tréguas na vigilância. Um legítimo caretão de era antiga. Achava que moço branco namoricar com mulata dava em coisa ruim. Sem dúvida não conhecia o melhor do amor. De modo que meu velho, no seu tempo de jovem, cortava um duro, dava voltas para enganar o seu velho. Por sorte contava com a compreensão da mãe, que sabia dar umas desculpas não raro respondidas com mau humor e resmungos do marido.
Não dá para contar tudo, eu dizia: vou relatar uma apenas. Aliás, duas. Uma que se fez em duas. Lá um dia viu que eu metia a chave na porta por volta das quatro da manhã. Por acaso. Sentira sede e abria a geladeira, na dependência única que servia de sala/copa/cozinha, quando a chave rodou.
- A essa hora, filho? Não acha tarde demais?
- É pai, às vezes a coisa é tão boa que a gente esquece o tempo.
- Zanzar por aí sozinho, as quatro da manhã? É um perigo, filho. Uma hora dessa, só e desprevenido... É um perigo!
- Nada não! A essa hora a rua é um silêncio total.
- Nada não? É no silêncio da noite que se cometem os crimes. Á noite é que os malfeitores ou os que buscam vingança põem tocaia. Olhe lá!
- É, pode ser. Não tinha pensado nisso. Vou me cuidar, voltar mais cedo.
- Bem, vai repousar. Amanhã a gente volta a falar.
- Paizão, eu respondi, você é legal!
- Boa noite, amanhã a gente fala melhor.
Era a Reginalda. Se bonito não é o nome, a dona era belíssima em sua cor morena de jambo. E de uma doçura, um chamego que só conhecendo. Descrever ninguém saberia. Vinte e dois anos em flor. Eu só tinha 19. Não faz diferença. A mulher madura, aprendida nas artes do amor vale mais que as meninas que se iniciam. E Reginalda havia sido casada durante dois anos, tempo bastante para formar boa escolaridade.
O marido, sem recursos próprios, sem emprego, sem nem saber pescar, trabalho tradicional da gente praiana humildade, morou na casa da sogra, cuja renda era escassa. Vinha exclusivamente de uma máquina de costura manual. Cedo enviuvara e com dificuldades criara aquela filha única. Chega o rapazote, engraçam-se um do outro e se decidem a casar. Para as duas a renda dava, para três, as coisas se embaraçaram. E o sujeitinho gostava de tomar umas e outras. De vez em quando chegava à velha e dizia:
- Tia, estou sem. Me arranja uns trocados.
- Onde eu acho? Porque não procura um trabalho, não se une aos pescadores e aprende a pescar? Parado, é que não dá. Nem a feira estou podendo fazer. Quanto mais dinheiro para as tuas trapalhadas.
O cabra anoiteceu, não amanheceu. Talvez refletisse que não dava para viver naquela situação. Por despedida deixou um bilhetinho à esposa: - eu volto, me espera. Vou cavar a vida em São Paulo. Eu volto.
Foi quando me atravessei na vida de Reginalda. Por acaso. Saia aí por volta das dez da manhã para a praia. De sunga. Ali tudo é perto e ninguém estranha que se atravesse a pracinha em roupa de banho. Sunga, biquíni. Monoquíni não. Ela passava com uma sacola meio volumosa. Ia entregar umas encomendas. Roupa que a mãe trabalhara durante a noite. Sei lá. Olhamo-nos. Bonita, muito bonita. Morena clara, pele fina, olhos garços. Esguia e elegante como a garça. Um mimo de menina. Pensei inicialmente que fosse uma menina de 16 anos. Sorriu de leve. Um sorriso! Eu também sorri. De longe e disfarçadamente a acompanhei até o ponto onde entregou a encomenda, saindo logo. Segui ainda seus passos até entrar em casa. Creio que ela percebeu meu movimento e pressentiu a intenção.
Logo estávamos a horas silenciosas da noite debaixo do cajueiro morador no quintal de sua casa. Ah cajueiro! Suas galhas desciam até o chão, fechando o recinto em um esconderijo perfeito. Deixava apenas uma pequena entrada, suspeito que preparada por Reginalda. Aí mergulhávamos no amor diariamente até alta madrugada.
Quando contei isso a meu pai, dizendo que era casada, ele a um tempo só estrilou e gozou:
- Malandro, me deixou para trás. Nunca tive coisa assim em minha mocidade. Mas olha, casada, não! Primeiro, mulher casada é para ser respeitada. Sempre. Marido presente ou ausente. Depois, o perigo é dobrado. Quanta vez dá em morte! Enfim... Parou um pouco e continuou:
- Só conseguindo uma arma, um revolver. Mas, pelo de Deus! Você nem sabe usar uma arma nem tem idade para andar armado. Vou te arranjar um bom revólver. Mas olha lá, pelo amor de Deus! Usar só em caso de extrema necessidade; em defesa pessoal no caso de precisar responder à violência. Espero que nunca precise, como eu nunca precisei. Se precisar, espero que não falhe. Se falhar o cabra te tora.
Prometeu a arma e não a deu. Há de ter refletido melhor. Encheu meus bolsos de pílulas anticoncepcionais, orientando sobre seu uso, para que passasse à parceira e ainda de camisinhas, dizendo: - isso é mais seguro.
O romance durou coisa de um ano. Fui surpreendido com um bilhete deixado cair a meus pés, num encontro de rua, ela indo e eu vindo. Não voltasse mais. O marido havia retornado e refizeram as relações. Passei a recolher-me cedo e o pai percebeu.
- Brigaram?
- Coisa pior. O marido retornou.
- Menino! Pelo amor de Deus!
- Não se preocupe. Já estou de olho em outra.
Dias depois lhe pedi que me emprestasse o carro à noite.
- É seu. Não foi nele que você aprendeu a dirigir? Mas olha o que faz. Vê onde estaciona. Isso aí pode ser mais perigoso que o esconderijo do cajueiro. Colhido de surpresa no interior de um carro em certo momento, não há como se defender. Cuidado, pelo amor de Deus, não quero perder meu filho.
- Essa não tem compromisso. Solteira, sem namorado. E é igualmente boazuda.
- Vá lá, você é um cara de sorte. Usa a mocidade. Mas olha, não deixa de estar atendo. As jovens sem namorado, não é raro que tenham tido um caso anterior. E daí... Olho vivo!
Ah paizão! Quanta saudade! Nunca mais fomos ao veraneio de Salinas. Filho único, cuido de trabalhar para sustentar a casa. Certamente não me casarei para não deixar mamãe sozinha. Praticamente abandonei as aventuras. Agora é a namorada permanente, liberada, que também não pretende casamento. Mas não há o sabor da primeira mocidade, aliás, da aventura rodeada de cuidados, sobretudo do estímulo de um pai legal que tudo facilitava e tinha sempre a mesma palavra - vai em frente. Parei, pai, parei em encontros programados, conforme a disponibilidade de tempo de dois parceiros que têm um dia inteiro de trabalho e quase só nos encontramos em fins de semana. Quando há um feriadão, a gente pega o carro para a Estrada Norte. Tão diferente pai, tão sem sal.
                                                  23-04-001
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João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 03/07/2006
Código do texto: T187033

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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João Justiniano