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A NOITE E O DIA.


Eram seis horas da tarde. O rei e a rainha do tempo entravam no seu momento de rusga diária, de tentação e recusa, de amor. Ele se deitava lentamente, como se estivesse sem vontade nenhuma. Era cedo para dormir, muito cedo, pensava - o sol estava ainda claro. Tentava manter as pálpebras abertas. Vagarosamente a rainha estendia sobre os seus olhos o lençol da escuridão. Impunha o seu horário e o empurrava para a cama, puxava mais o lençol. Era um momento de tristeza para o rei, um momento de alegria para a rainha. E os raios do sol, olhos do dia, na despedida, desciam sobre o mar do Porto da Barra para marcar a saudade e dar o até amanhã ao seu dileto amigo. O dia – rei do tempo e de todas as coisas sobre a face da terra, ia dormir. A noite buscava ofuscar-lhe o brilho, punha mais tinta no poente, até encobri-lo totalmente. Naquele momento ele era seu, ela pensava. Não podia dormir a seu lado, nunca podia.  Podia, sim, ama-lo por um instante e pô-lo a dormir, velar o seu sono, isso era um gozo - para que ele renascesse mais belo e mais poderoso na aurora seguinte. Cega de vista, a noite tinha os olhos da imaginação voltados para a saudade do amado e lhe sussurrava: “Até amanhã. Bom repouso!”.
Sentia ciúmes dele, julgava-o mal naturalmente. Não dizia, julgava. Que sonharia no seu sono? Sonharia consigo ou com a Sereia?
Um casal mal unido, o dia e a noite. Quando ele dormia, ela fazia parceria com o negrume e dominava inteiramente, era a rainha do tempo nesse interregno de breu. Ele, quando acordava fazia pareceria com o sol e talvez nem pensasse nela. Caminhavam, um lado do outro, inseparáveis, o dia e o sol. O que se passava entre os dois? Que fariam, o que conversavam, com quem mais conviviam? Havia a Sereia, tão buliçosa e bela, tão atraente... E diziam que vinha, às dez da manhã, diariamente, aquentar-se ao sol no Porto da Barra. Conversaria ele com a Sereia e a amaria? Ela, a noite, não dormia. E não tinha olhos de vista para alcançar o dia, não o via nunca. Em seu domínio, era solitária e, enquanto caminhava, ia pensando, só pensando. Os olhos da imaginação fantasiavam, criavam fantasmas e assombração. O negrume, que navegava a seu lado, era amorfo, surdo-mudo, insciente. O dia, não. Ao lado de possuir ciente companhia no sol, tinha olhos de ver tudo, ouvidos de ouvir e voz de falar. Talvez a razão do ciúme.
Enquanto isso, a terra, que sustenta a vida baseada na desunião da noite e o dia, e por via de sua intercalação recebe o frio e a umidade que fazem germinar a semente e o calor que faz abrir-se o botão das flores em pétalas e o broto em rama, sorri à noite e ao dia, e os festeja e reconhece neles o seu bem estar. Os viventes da terra acomodam-se à intermitência do dia e da noite e desta se beneficiam. Movem-se, trabalham, produzem quando é o dia, repousam quando é a noite. A vida anda e o tempo se soma, dia sobre dia, noite sobre noite. As gerações se sucedem.
Enquanto isso, só se encontram, a noite e o dia, ao pôr do sol. E nesse momento se amam em segundos e dizem adeus, para o reencontro de 24 horas depois. Diariamente, chova ou faça sol, à hora da ave-maria, o dia e a noite se cruzam e se amam para a multiplicação do tempo, que, dessa união diária se eterniza.
No Porto da Barra, à hora em que se cruzam o dia e a noite, os últimos entre os seus freqüentadores, os que aí buscam o lazer e os que buscam a vida, se despedem do mar, recolhem-se a casa para o repouso. Os trabalhadores da praia - os que vendem tira-gosto, cerveja, refrigerante, acarajé, pequenas coisas, contam a féria e se recolhem triste a vagarosamente. Vêm diariamente para a luta pelo pão de cada dia e saem de ar triste, contando que fizeram pouco para as suas necessidades e sonhando que o dia seguinte será melhor. Aqueles que só vêm quando lhes apetece, para o lazer, vão-se de riso no coração, pensando no dia seguinte, se haverá sol e beleza para que retornem; se a tristeza da chuva empalidecerá o tempo impedindo-lhes o gozo espiritual da praia.
O dia, ao recolher-se para dormir, abre um leque de esperanças para os que se vão da praia e lhes sugere: - de novo amanhã, estaremos juntos.
A noite, como pálida compensação de seu breu pesado e tristonho, recebe uns leves toques de estrelas distantes e, de mês em mês, para vivência em uma semana, os raios de ilusão e saudade que vêm da lua cheia. E só nessa semana lunar, goza por algumas horas a presença dos casais de namorados que vêm sentar-se nos bancos, deitar-se na grama em frente ao Farol da Barra. A terra sorri ao sereno da noite que faz germinar a semente. Amanhã cedinho o dia trará o sol e aquecerá o broto. A vida se perpetua.
                                                   15-06-002
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João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 04/07/2006
Código do texto: T187534

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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João Justiniano