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A Praia da Borboleta

Talvez as pessoas tenham medo de se referir ao Amor como a história da sua vida... Na maioria dos casos a humanidade vivi fingindo que nunca teve uma contrariedade, que nunca se perdeu, que nunca se deu numa entrega sem fim...a maioria prefere acreditar que nunca amou...Mas eu encontrei uma borboleta que me disse que nunca teve medo de voar...Ela era engraçada, tinha uma postura forte e determinada, amada por uns e odiada por outros havia uma coisa que efectivamente era certa, nada lhe passava indiferente. Talvez por ser esse o seu destino ou porque as suas asas de mil cores assim o criavam ela era intensamente preenchida por mil sonhos e pensamentos. Nada para ela tinha limites, porque a sua imaginação era vasta como uma planície verde em que os olhos se prendem, na qual nos estendemos em fantasia na ânsia de uma comunhão perfeita com a natureza, inebriados pelo desejo de liberdade.
A minha borboleta era pura, porque achava que tinha dentro de si tudo aquilo que realmente importava para ser feliz. Esperança para alcançar metas, sonhos para encontrar neles a concretização da sua essência, força para tornar cada batalha numa vitória, coragem para enfrentar todos os adversários, determinação para chegar mais além e fé para perceber que Deus está sempre connosco para nos proteger.
Infelizmente eu percebi que ela com a sua ingenuidade se tinha esquecido de criar defesas, pequenos punhais, como o silêncio, a indiferença, a hipocrisia, o cinismo para lidar com os demais. A todos ela oferecia o seu sorriso, numa doação de alma e coração, queria encher a vida dos que a rodeavam com um pouco de luz, no fundo ela só queria a felicidade. Talvez por isso ela se admirasse quando dela fugiam ou abruptamente desapareciam, quando lhe viravam as costas como se todo o afecto dedicado nada fosse, ou nada importasse, como se tivesse sido uma obrigação, ou tão cruelmente um livro que terminou e que se colocou numa estante, naquela onde se deixam encher de bolor os momentos do passado.
Encontrei-a na praia com as suas irmãs, parecia estar a chorar e estava sozinha, com um ar perdido num espaço irreal. As suas asas coloridas abriam e fechavam num ritmo lento e calmo, tão doce e suave que me encantou. Não resisti e fui lá dar-lhe um beijo! Olhou para mim e sorriu, emprestou-me um sorriso tão triste que senti os olhos humedecer tal era a infelicidade que sentia pelo seu corpo percorrer.
Então decidi perguntar: ”Porque choras?”
Senti as suas antenas girar na minha direcção e então vi que ela tinha um pergaminho na mão. Fiquei admirada não posso negar como era possível encontrar uma borboleta a poetizar!
Com a suavidade de um anjo envolto em nuvem de algodão ela disse: “ Eu sou a princesa das mil borboletas!”. Apresentei-me, disse-lhe o meu nome, o que fazia por ali, o que queria alcançar, o que já tinha conquistado...esperei que ela acreditasse em mim na ilusão de que talvez assim conseguisse desabafa. Por fim senti que era iria revelar a razão do seu chorar e porque motivo estava ali. Pestanejou com as suas pestanas longas e negras e não sei se foi sensação minha pareceu-me ver brilhar o pó das estrelas no seu olhar quando sussurrou:

“Vim aqui chorar pelo meu príncipe, esperando encontrar fragmentos das suas asas de cores inesquecíveis. Vim aqui escrever o meu diário de memórias, contar-lhe como vivo infeliz desde o dia eu que nos céus o perdi quando uma ave de rapina o roubou de mim. Faço isto todos os dias...Trago as minhas irmãs e presto-lhe a minha homenagem escrevendo histórias de amor, encerrando lamentos em garrafas vazias que lanço ao mar, venho aqui colocar mais um retalho nas minhas asas...”

Naquele momento tive a certeza que se lhe pudesse dar algo gostava que tivesse a forma de uma borboleta, queria devolver-lhe a vida que ela um dia sonhou ter, queria destruir a ave de rapina que por maldade a tinha lançado a tamanha dor existencial. Ela era o espelho do desalento, da insatisfação, da mágoa e da incompreensão. Decidida a levar o meu pensamento em frente perguntei quem tinha sido a bruxa capaz de fazer tal feitiço. E ela lançou mais um dos seus sorrisos tímidos e nublados e explicou:

“Eu não sei qual foi a ave, nunca percebi a razão, não consigo entender porque simplesmente não encontro explicação. Sei que um dia ele voou e nunca mais disse Olá, sei que os dias foram passando e eu fui arrancada qual erva daninha. Receio que nada tenha sobrado na sua vida que a mim diga respeito, talvez ele tenha com uma borracha apagado a minha passagem, ou talvez eu ainda more numa fotografia em cima da lareira. Não sei se o nosso ninho ainda tem o meu perfume, ou se a louça no lava loiça ainda está por lavar, não sei se  as velas voltaram a ter luz, nem tão pouco se o sofá ele conseguiu arranjar. Só sei que dele nada sei, como se tudo tivesse sido uma miragem sem nenhuma explicação...Só sei que ele ficou com o meu coração...”

Depois de dizer isto voou....e eu sentei-me na areia a ver o pôr-do-sol, pensei em mim, na minha vida, que não é mais do que uma história de amor e percebi que tal como a borboleta também eu tinha vindo ali procurar respostas para o meu coração amargurado. Também eu não entendia, ou sequer percebia,...O meu príncipe era o Rei das Ambigüidades e eu era uma simples vassala de enxada na mão, não tinha ouro para oferecer, nem terras, nem bens, só tinha aquilo que considero ser o mais precioso bem que alguém tem...o Amor.
E ali fiquei, de olhar perdido...Contemplei o mar e a sua imensidão, respirei fundo e pensei que a Amizade se tinha perdido nas ondas do mar de alguém, ou talvez nunca tenha tido valor e que a promessa que alguém me fez foi uma jura perdida na infinidade da areia...Amigos, amantes, amores, pessoas queridas...não se esquecem, não se abandonam, não se lançam ao vento...quando erramos em relação a elas é nossa obrigação chegar bem perto e estender a mão...não erguer um muro e fingir que nada se passou, não é ser indiferente e tratar como um desconhecido qualquer...porque pelo menos para mim todos os que gostam de mim merecem o meu Amor...
E Tu onde quer que estejas precisas de entender, que eu nada posso ser, de nada posso valer, mas aquilo que fazes nunca poderá ser aceite como um acto de Amizade e muito menos de Amor...
Porque os Amigos são borboletas com asas de anjos, ternura de fadas, companhia no escuro e acima de tudo presença nos momentos certos....
Sonya
Enviado por Sonya em 20/07/2006
Reeditado em 04/08/2006
Código do texto: T198223
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Sobre a autora
Sonya
Portugal, 34 anos
170 textos (17297 leituras)
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Sonya