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LÁGRIMAS DE ANJO

Meu nome é Charles, sempre fui à pessoa mais calma e sábia de meu bairro. Acho que nunca ter me apaixonado me levou a esse paradeiro, mas certos casos nos surpreendem às vezes, como o dia de ontem me surpreendeu, uma louca aventura de vinte e quatro horas. Apesar da minha situação de solidão agora, o meu ontem jamais sairá de minha memória.
Eu estava observando o rio de cima da ponte, era uma noite fria e as estrelas se escondiam debaixo das nuvens que teimavam em trazer a chuva. Para mim, sempre fui seu amante, sentir os pingos tocando minha face, escutando ela batendo na janela, coisas sensíveis que sempre me chamam a atenção. Pois bem, ali tive a maior de todas as surpresas de minha vida, ela estava parada, bem no local onde eu costumava ficar observando o riacho, olhava para nada, um olhar dissimulado, parecia triste, logo tentei me aproximar.
Senti que precisava falar com ela, não entendia o porque, mas algo me impulsionava fortemente, então, fui caminhando até o seu encontro, me recostei na pequena mureta e perguntei seu nome. Ela mais que obviamente olhou em meus olhos e tornou a abaixar sua cabeça.
Era a visão mais bela que já tive, seus olhos pareciam olhos de anjo, eu nunca havia me deparado com alguém assim antes, quis entender tudo que se passava naquele coração, senti meu peito se tornando pequeno, como se fosse explodir em alegria. Mais que depressa tornei a lhe perguntar seu nome, respostas não vinha, fiquei angustiado, pensei se estava incomodando, pensei se mais uma tentativa não me fosse ser jogado abaixo no riacho.
Percebi que as palavras não viriam, ela não gostara de eu tê-la incomodado, comecei a me virar quando uma mão tocou em minhas costas, gelei dos pés à cabeça, senti aquele frio que sobe da barriga sem explicações, escutei a voz mais doce que já ouvira em toda minha vida, me perguntando se eu era dali daquela cidade. Com receio e meio atordoado no que dizer, virei-me de volta e disse que sim. Ela retomou seu fôlego e mencionou um nome que nunca esquecerei, seu nome era,Walesca!
Apertei de leve sua mão, senti que estava trêmula, e seu rosto estava muito pálido, branco como a neve, seus cabelos lhe recobriam suas costas por inteiro, seus lábios vermelhos, e seus olhos, que olhos! Eu não tive ação, fiquei parado sem dizer uma palavra, precisaria que uma tremenda de uma força me levasse a sair dali. Walesca olhou-me mais uma vez, mas desta vez, ela aprofundou seu olhar, como se buscasse algo dentro de mim, pedindo-me uma forma de ajuda ou tentando demonstrar seus sentimentos aprisionados. Entendi como um apelo desesperado, não houve palavras, sem mais nem menos, ela se recostou sobre meu ombro, um ombro estranho que Walesca nunca conhecera, e começou a chorar.
Suas lágrimas escorriam excessivamente sem parar, ficamos parados ali, por belos quinze minutos, quando alguém passou ao lado e apenas lançou um olhar, e eu mais que depressa me recostei sobre ela também, protegendo para que ninguém nos reconhecesse ou coisa assim. De repente as lágrimas cessaram, ela se separou e começou a secar seu rosto, eu tinha um lenço em meu bolso, passei rapidamente a mão por ele e tentei secar suas lágrimas. Foi um momento mágico, tocava sua pele enquanto recebia em troca seu olhar, acho que paixões não acontecem por acaso, nunca acreditei em amor à primeira vista, mas ali aconteceu isso.
Retomamos nossa conversa e falamos por horas sobre sua vida, seus sonhos, o que ela pretendia, mas nada foi dito sobre seu estado, eu nem deixei isso vir à tona, percebi que o que ela queria era minha companhia, e mais nada.
Eu mostrei a ela as estrelas que começavam a se mostrar através das nuvens, contei sobre minha vida, mencionei até as ocasiões de meus antigos namoros, eu sabia que ela me acharia um idiota, pois eu sempre era desprezado por todas, mas ela me olhava de certa forma a querer me conhecer melhor, e eu respondia a cada olhar.
Nos levantamos e começamos a caminhar pelo bosque ao lado do riacho, havia um parque adiante, mencionei a ela, e disse que ali era um lugar belo, lembrava-me meu tempo de criança, e gostaria de levá-la até lá. Caminhamos um pouco e logo chegamos ao tal parque. Ela me perguntou se eu já estive com alguém naquele lugar. Mencionei que nunca me havia passado pela cabeça esta idéia, mas que adorava a sua companhia, Walesca sorriu, abaixando sua cabeça e sentando em um balanço. Sentei-me no balanço ao lado, ela não demorou e pegou minha mão novamente.
Aquele olhar aconteceu outra vez, eu não retirei meus olhos, apesar da dificuldade, meu coração ia explodir, senti meus pés querendo voar, ela me perguntou se eu conhecia o beijo dos anjos. Pensei comigo se não era brincadeira, ou ela estaria me pedindo um beijo, mas disse que nunca ouvi dizer, e que não sabia se os anjos podiam beijar alguém.
Ela contou-me uma história sobre um anjo que decidiu desistir de sua imortalidade, tudo porque sua missão era vigiar um ser humano e nunca poder senti-lo. Também disse que os anjos poderiam um dia decidir escolher entre uma vida angelical, mas, sem sentir os prazeres terrenos, e, sobre eles escolherem uma vida mortal, deixando sua eternidade por um amor loucamente indescritível.
Pensei por um breve instante sobre os anjos e sobre os humanos, queria achar um motivo para aquela história, eu não entendi nada do que ela queria dizer, e mesmo assim queria saber mais, mas no momento em que me deixei virar meu rosto para lhe perguntar sobre os anjos,Walesca me beijou, sem motivos, sem demoras, sem razão. Era um beijo, a maior das provas de amor entre dois seres humanos, para que lembrar que os anjos não podiam sentir, o que eu senti ali foi o céu na terra. E pensar que em seguida fui surpreendido por um abraço, nos levantamos e começamos a nos beijar intensamente,seus lábios eram quentes como o sol, toquei seu cabelo e senti-me exatamente que estava acima das nuvens, senti-me como um pássaro que aprende a voar.
Walesca parou de me beijar e eu fiquei pasmado, não tinha mais palavras, tudo se tornou diferente, e ela me perguntou se agora entendia o sabor que os anjos tinham.
Eu me surpreendi com sua pergunta, respondi que não entendia nada do que ela estava dizendo, mas que adorei seu beijo.  Aquela mulher derramou mais uma lágrima na minha frente, eu me desesperei e corri em abraçá-la, a noite estava chegando ao fim e muito pouco o sol já se mostrava despontando no céu.
Mais uma vez senti seu toque sobre minhas mãos,era um aperto e uma negação, que não devia me aproximar, pois, ela deveria contar o seu segredo, pois bem, fiz o que pedira e esperei que me dissesse.
Walesca logo começou a me perguntar se eu me lembrava da história dos anjos, eu mencionei que sim , mas que não entendi seu contexto. Ela tornou-me a olhar sem palavras e tornou-me  a perguntar se tinha certeza.
Eu apenas dizia que não entendia, mas que gostaria de saber o porque, então ela começou a contar-me.
Falou de sua escolha, dos céus, do paraíso, e por fim de sua responsabilidade para comigo, ela era o meu anjo!
Aquilo me bateu como um sino, algo que só acontecia nos sonhos, e naquele momento se tornara realidade, diante de mim a mulher que estava trajada com um sobretudo, despiu-se e revelou uma túnica toda branca, púrpura e cheia de brilho, com uma luz vinda de seu rosto que me ofuscava a visão.
Engoli a seco, naquele momento pela primeira vez em minha vida, chorei por amar algo que eu não poderia compreender, seria impossível e incerto,um pecado, vi a noite terminar sem ela, não seria possível continuar ao seu lado, sua condição me deteria de meus anseios, tive a ausência de meus sentidos, apenas devia aguardar.
O anjo aproximou-se e me fez uma revelação, Walesca começou a falar, e mencionou sobre sua escolha, mas que tarde tomou sua decisão, ela não estava ali por acaso, seria ela a levar-me para as portas do céu, mas que em vinte e três anos isso lhe custou caro,  neste tempo todo passado, a cada dia Walesca foi se apaixonando por mim, ela sabia de sua missão para comigo e se arriscou com imensa coragem e amor por minha causa.
Naquele dia não retornei ao meu lar, debaixo daquele sol que acordava, sobre a relva ainda molhada, a aurora me levou para um lugar onde eu não mais teria que sentir as dores e o medo, padeci ao lado de Walesca. Em meu rosto ficou um sorriso estampado, um semblante de quem viu seus sonhos serem realizados, era o meu fim na terra.
Eu sofria de um mal desde minha infância, era um tumor que se desenvolveu e se espalhou por toda minha cabeça, o médico nunca me deu mais que dez anos de vida, talvez vivi tanto para um dia conhecer meu verdadeiro amor, talvez vivi para acreditar que os milagres existem e basta alcançarmos eles. O importante é que amei, até o amanhecer, um dia inteiro vivi o mais puro amor, e faria isso novamente se possível, somente para ver o meu anjo de novo. Pena que ela agora teve de viver sem mim, sua escolha nos privou de nossa eternidade juntos, mas daqui, desta ponte, sabem, posso vê-la agora, vigiar cada um de seus passos, e sei que um dia nos encontraremos aqui, em meu paraíso.

autor: Danilo Padovan
Daykon
Enviado por Daykon em 21/07/2006
Código do texto: T198602
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Daykon
Santa Fé - Paraná - Brasil, 33 anos
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