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Desfragmentação

Abelardo, Bento e Heloisa eram amigos desde infância. Bento sempre aplicado e muito estudioso era a sombra de Abelardo que se destacara por sua máscula beleza, destreza esportiva e um raciocínio prático e espirituoso.

Ao voltarem à cidade do Porto após suas formaturas em Cambridge, reencontraram Heloisa que tinha  vindo da Suiça passar as férias de verão junto aos seus. Eram os  três de famílias abastadas, podia-se dizer mesmo, ricas.

Bento sempre amou Heloisa, mas nunca se declarou.  Abel apaixonara-se por ela naquele verão. Heloisa aceitara a corte dele, pois estava decidida, sem que ninguém soubesse, a conquistá-lo.

Na festa de noivado, Heloisa valsava com Abel enquanto pensava na sua futura vida de glamour naquele mundo maravilhoso onde a  dura realidade cotidiana esbarrava nos portões das belas mansões, yatch-clubes, cassinos, opera e viagens em navios luxuosos à lugares paradisíacos.
Abelardo sentia todo o poder que lhe advinha, estando ali com a mais bela moça de toda sociedade lusitana e além-mares. Sabia do poder financeiro que isto representava para a união das duas famílias.
Bento, em triste desapego, alegrava-se pela felicidade dos dois. Para seu lenitivo emocional começara a transferir seu amor para uma atriz chamada Louise Brooks que se assemelhava bastante à, agora, noiva de Abel.
Os familiares, o casal e amigos estabeleceram que o casamento seria dentro de seis meses.

Indicaram Abelardo para superintendente numa fazenda de plantação de juta, com milhares cabeças de gado em Angola. Esta fazenda era um joint-venture com outra firma inglesa, formando uma companhia luso-anglicana que comercializava a juta para fazer cabos de amarração de navios e os produtos da pecuária. Em poucos anos Abelardo poderia se tornar rico.
Bento fora para Lisboa trabalhar como executivo da matriz desta companhia.
Heloisa, enquanto isso, voltaria para a escola em Berna para finalizar sua educação acadêmica.

Quase um mês depois as cartas chegavam quase que diariamente em ambos endereços. Começou a rarear a partir do quinto mês por parte de Abel. Numa das últimas, ele pedia que o casamento fosse transferido, por enquanto. Em seguida ficaram sabendo que Mr. Faulbert fora obrigado a afastá-lo de suas atribuições, praticamente demitindo-o.

As famílias enviaram Bento para resgatar Abelardo.
Era um enigma angustiante, esta súbita transformação de Abel.

Dois meses depois, um Bento bronzeado pelo sol tropical, ajeitava sua gravata, já de volta a sua penthouse em Lisboa. Seu pai sentado numa bergère, vestido de smoking, faz um esforço sobre-humano para não forçar seu filho a contar-lhe de sua viagem a Angola.
Bento tinha lhe dito que Abel lhe confessara que não voltaria à Europa e que fizera ele prometer, que só a Heloisa seria relatado o que estava acontecendo.

Após o jantar, todos perceberam e num acordo mútuo e sigiloso,  Heloisa e Bento se dirigirem e sentarem-se em poltronas numa das varandas laterais da mansão da família dela.

Bento estava sentado a sombra esperando Abel chegar de seu banho de mar. Ele não emagrecera, apenas se fortificara mais, ficando mais esbelto. Seu cabelo cor de mel aloirara em algumas pontas e seu olhar esverdeado rivalizava com a beleza das águas daquela praia.
 - Sim, amo muito Heloisa. Mas me transformei em outro homem que não tem lugar no futuro dela. É por amá-la tanto que lhe peço que lhe diga que me desobrigue de nosso compromisso e que me perdoe...

 - Abel, você deve estar adoentado. Talvez viciado em alguma droga.... Diga-me a verdade. È humanamente impossível alguém de nosso meio sentir alegria em viver neste fim de mundo e junto a estes nativos ignorantes, com seus bárbaros costumes, seus cheiros...

Abel, com o semblante de paz interna, desvia o olhar do horizonte e com um leve sorriso nos lábios encara Bento.
 - Não é alegria que sinto. È a felicidade que vivo, aqui neste fim de mundo.
 - Mas... mas o que este estado de espírito, esta dita felicidade, vai lhe dar no futuro?
 -Tudo e nada. Tudo que quero hoje. Nada de um futuro que ainda não veio.
Bento tenta não se tornar irônico e não responde ao que ele considera “vãs filosofias” deste Abelardo que cada vez se distancia daquele amigo de infância.

 -Escuta, Bento. Vim pra cá com todo ímpeto que me caracterizava e que todos esperavam. Logo vi o potencial desta terra. Projetei  um píer que adentrava estas verdes águas até cem jardas além. Já tinha alugado uma draga, em Durban, para escavar um canal até o fundeadouro dos navios que poderiam atracar no píer, não precisando mais se levar as mercadorias até eles em pequenos barcos. Inventei uma máquina em que processava a juta em fios e em seguida entrelaçava em cordame para embarcações. Passaríamos de exportador de matéria bruta para fabricante de produto necessário à embarcações. Logo divisas entrariam para este lugar. Em cinco anos teríamos uma prefeitura, uma pequena câmara de comércio de início. Paralelepípedos belgas pavimentariam as ruas. Em pouco tempo trilhos seriam fixados para bondes elétricos. Um teatro seria construído. Em dez anos iríamos rivalizar com as maiores cidades do outro lado do Atlântico, Rio de Janeiro, Buenos Aires!
 -...nesse meio tempo todas as mazelas das grandes cidades iriam se infiltrando como raízes trazendo a segregação, a miséria, as doenças devido a sujeira dos despejos dos navios e das fábricas. Eu  seria o portador do Armagedom. Um dos Cavaleiros Apocalípticos. O porteiro da Caixa de Pandora! Vê pra onde eu levaria Heloisa?

Bento jamais pensara que seu amigo se tornaria um fanático abobalhado de uma causa perdida. O progresso tem seu preço, mas nada seria tão catastrófico. Os nativos, por sua própria natureza, deveriam ser mantidos em seus status-quo. Não seria aconselhável uni-los num só povo.
Uma mestiça veio trazer-lhes rodelas de ananás, água de coco e uma garrafa de Bacardi.
 - Obrigado, Makiba. – agradeceu Abelardo – Foi então, Bento,  que igual a Saulo a caminho de Damasco me curei da cegueira. Vejo um mundo compartilhável a todos. A natureza tratada com respeito do mesmo jeito que respeitamos nossas dores e nossas alegrias. A miscigenação fortalecerá nossos genes. Seremos mais belos e fortes. Culturas se entrosarão e novas sabedorias nos farão chegar perto duma felicidade universal...

“Miscigeneção!!. Ele enloqueceu!” – pensa consigo mesmo Bento.
 - Enfim, Abel, que farás daqui por diante? Como viverás?
 - Ah! Vistes Makeba? O pai dela tem uma pequena ilha de dez hectares. Pretendo comprá-la, fazer um viveiro para lagostas e vendê-las para os boers de Durban. O pai de Makeba, Descartes, fugiu de Marselha após aplicar um golpe na praça. Ele fez isso porque a família dele não deixou ele casar com uma nativa da Martinica, expulsando-a do país sem deixá-lo saber para onde ela foi. Ele me doaria ilha se eu casar com a filha. Mas eu não a amo o bastante...De qualquer modo, faça ver a Heloisa que ela se sentiria como o alienígena de o Admirável Mundo Novo.

...como o rebelde  de o Admirável Mundo Novo – conclui Bento, compadecendo-se da dor de Heloisa que verte algumas lágrimas, tendo a delicada mão encostada a boca.
 - Desgraçado! Ele nunca me conheceu de verdade! – Heloisa balbucia rangendo os dentes.
Ao mesmo tempo que cada soluço é um alfinetada em seu peito, Bento sente a satisfação de que o amor de Heloisa está cada vez mais próximo.
 - Heloisa, minha querida pequena, eu estarei sempre ao teu lado. Para tudo e pra toda vida.

Abelardo vê a fumaça negra no horizonte verde e azul.
 -Oba! Aquele deve ser o Pinta Nina...- ele desce do telhado que estava consertando e vai se vestir para ir até a mouraria. Lá ele espera que suas encomendas tenham chegado. Está havendo uma certa dificuldade nos negócios mundiais devido ao crash da bolsa americana, naquele verão de 29. Ali, no paraíso, nada mudou ou afetará.

O capitão do Pinta Nina se dirige ao tombadilho onde aquela dama enigmática observa a terra que se aproxima.
 - O comissário avisou-me que sua bagagem não está pronta...
O belo rosto protegido por um chapéu de abas largas se vira suavemente enquanto uma das mãos baixa os óculos de sol.
 - Tudo o que eu preciso está aqui comigo. Obrigada.

O capitão nota a bolsa a tiracolo e se afasta, lembrando que rara vezes vira tanta felicidade nos olhos de uma mulher.



                           Este conto é baseado no texto
                           "A queda de Edward Blake", de
                           S. Maugham e em homenagem aos
                           dois amantes que jazem em Père
                           Lachaise.
Raferty
Enviado por Raferty em 28/07/2006
Reeditado em 28/07/2006
Código do texto: T204144
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Sobre o autor
Raferty
Santos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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