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Um homem olha o céu sentado em seu barquinho

Ele foi um pescador que amava o mar.

Não pescava quase nada; seu prazer era apenas navegar onde solitariamente perseguia as estrelas que invejava ávido por tê-las, sofrendo a dor como todos invejosos. Seu maior sonho era alcançar o horizonte antes do sol se deitar... As velas do barquinho permitiam que os ventos os arrastassem para longe, mas não tão longe o quanto esperava, pois o homem está sempre insatisfeito com seus feitos e sempre espera ir além, mais além, um pouco mais além acreditando conhecer os caminhos. Não sabe que direção seguir, mas diz conhecer seus percalços; semeia com a certeza da boa colheita sem escolher os grãos, mas diz conhecer o sabor de seus frutos.
Ele foi um pescador que pode ver as sereias e escutar seu canto.

Não se preocupava com os peixes grandes ou pequenos que levaria para casa, mas dormia às noites debaixo de um céu faiscante e uma lua reluzente num mar a balançar como quando deitava na rede e afagava os filhos. Tudo lhe parecia absurdamente distante e questionava o que era real e a verdade de sua própria existência. Pensava enquanto navegava, enquanto cobiçava as estrelas, enquanto vislumbrava as cores que em seus pensamentos coloriam a realidade e a fantasia; no que dizer a mulher, ansiosa pela pescaria, que ficara no mar para descobrir se ele realmente existia. O que diria a mulher? A verdade é que ele muito mais queria, era já estar em alto mar ao meio-dia e á noite desfrutar o cheiro e maresia; ouvir as sereias e divagar. Pensou em quantos longe dali se corrompiam; em tantos que vadiavam; tantos que se glorificavam, tantos que discursavam e não percebiam o tempo esvaindo-se da vida deles próprios e dos outros, (tempo tão questionável) a troco do nada (nada tão explicável).  No mundo uma guerra anuncia seus mortos, clamando pela paz, enquanto outras guerras se iniciavam. Mas ele, ali em seu barquinho, mergulhava no infinito, contemplava a seu redor e nem o nada nem o tempo podiam atingi-lo.

Ele foi um pescador que brincava com as baleias e falava com os golfinhos.
Sua verdadeira casa era o Oceano, mas sempre que chegava a casa igual a que todo mundo tem, contava para as crianças sua impressionante aventura enquanto a mulher fritava na cozinha barrenta, as postas do dia. Os olhinhos dos filhos brilhavam como as estrelas que ele tanto aspirava levar para seus amados. E então falava, falava e cantarolava suas histórias que além dele, somente os pequenos acreditavam. Adormeciam embalados pelo estômago “forrado” e a alma cheia de alegria. Espalhavam a todos do vilarejo pela manhã que o pai era um grande pescador. E lá ia o pai em seu barquinho porque não concebia a vida sem a amabilidade e a simplicidade. Em seu pequeno barco, na sua completa ignorância sobre o mundo das ciências, das religiões, das leis, compreendia que para o Altíssimo ele haveria de ter alguma valia. Antes de sair para o mar outra vez, olhava a mulher preocupada, enxugando as mãos calejadas num pano velho, mas limpinho, dentro de seu vestidinho florido, e acenava e acenava e acenava até perder de vista sua casinha, sua mulher e seus pequeninos.

Ele foi um pescador de sonhos.
Navios grandes e pequenos cruzavam seu caminho até finalmente se ver de novo sozinho. Que mistérios escondem as estrelas, os astros, a lua e todo céu? Pergunta constante. Por que não caiam sobre sua cabeça, sobre toda gente? O que as mantêm lá em cima? Pergunta constante.  E Deus está aqui embaixo ou lá em cima? Onde? Para esta pergunta ele tem uma resposta: tá dentro. A rede volta cheia e ele sorri contente porque já esquecia de sua verdadeira missão de ter que pôr na mesa o peixe e o pão. Ao redor de seu barquinho, peixinhos. Lá em cima o inimaginável e incrível! E nele, os filhos, a mulher e a imaginação que lhe repetia e remetia a uma nova pergunta: por que no coração? “Deve de ser porque palpita o tempo inteirinho de modo da gente “num” esquecer”- dizia. O sol ardia e o pescador agradecia. Afinal, era a vida que anunciava que estava viva. É, pois então, é dia! Pele curtida, ombros fortes e no rosto o cansaço para sobreviver ao cansaço; pés descalços, camisa velhinha, costurada aqui e ali e a bermuda molhada com sal. È, pois então, pode um homem morrer de sede diante de tanta fartura! Que agonia. O homem zela por tanta porcaria que esquece o fato de que existem muitos outros dias!

Ele foi um pescador...
Vinha e ia do mar com sua rede, com sua cesta, com o alimento para sua família até que não voltou mais do mar com sua rede, com sua cesta e com o alimento para sua família. Muita coisa se falou depois que ele do mar não voltou. Uns diziam que ele foi levado por uma luz que veio do céu; outros diziam que foi uma estrela que havia caído sobre seu barquinho; outros que a baleia o engoliu vivinho; outros ainda diziam que foram as sereias o arrastando para bem fundo e longe oceano a fora. Muitos diziam que simplesmente ele foi embora.
A mulher sofria e seus pequenos choravam e cresciam e um dia, um por um foi para o mar onde sabiam que lá era onde encontraria respostas, o comer e acreditavam visitar o pai todos os dias.
O que eles não sabiam era que aquele pescador, que adorava as estrelas e cantava com as sereias, olhava por eles lá bem lá de cima onde sempre quis estar.


Gabriella Slovick
Enviado por Gabriella Slovick em 01/08/2006
Código do texto: T206694
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Sobre a autora
Gabriella Slovick
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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