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Imaginação

                       
Em uma viagem de ônibus, vi ao meu lado não um distinto cavalheiro que “acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o rum Creosotado”,  mas um “gato” no sentido atual como dizem as mulheres, jovem e muito bonito. Logo sentei delimitando território: havia um travesseiro e um cobertor. Apropriei-me do último e ofereci o primeiro que ele aceitou. Sua educação e docilidade aparente fizeram-me lembrar Gordo, o gato da amiga Anita que me hospedou em São Paulo, este sim com pelos e castrado e que me ignorou até um dia em que ela demorou demais para voltar.

Comecei a ouvir seus miados pelo apartamento, chegando ele por fim ao apelo mais convincente, o passar seu longo e peludo rabo em minhas pernas, o que na linguagem felina eu sabia ser o máximo de agrado aos humanos.  Pensei que  estava triste pela falta dos donos e na ânsia de agradá-lo, tentei alisar-lhe o rabo. Deus do céu! Ele ficou furioso e começou a arranhar o encosto do sofá e logo me ocorreu a idéia da necessidade de me impor, pois este diabinho preto enlouquecera  de saudades, iria me arranhar ou estragar o sofá da amiga (não sei o que preferia altruísta que sou). Levantei-me, dando uns gritos, o que o animou a dar mais uns passos em direção à cozinha e sentar. O bichano realmente era mais esperto que eu, refleti a contra gosto.

Segui-o enquanto ele se certificava que eu o acompanhava. Foi à área de serviço e eu pensando: “deve estar com sede”, mas ele rodeou a sua tigela de ração vazia, sempre miando.  E com se ele pressentisse a exigüidade dos meus pensamentos, ouvi em meu íntimo: “aqui sua burra, estou com fome, pare de confiar na literatura barata sobre nós os bichos. Se  fizermos  besteiras é porque vocês nos castram, enfiam em apartamentos, dão comida errada e...” Fiquei então envolvida com a idéia de achar a lata de ração, que  mesmo sendo grande e com uma enorme foto de sua raça impressa, eu não tinha percebido. Tive que chamar Pedro, filho de Anita, para resolver o  problema...

Meus contatos com o felino, entretanto, só estavam começando pois passei a encontrar minhas roupas com muitos pelos e  embora ele dormisse na cama de Anita, esta   não  ouvia  seus  miados  raivosos.   Solidão,  lembranças  da  vida  selvagem, castração, estariam na sua memória ancestral? Acho que andei lendo demais o Jack London.

À noite eu continuava ouvindo aqueles sons  que pareciam vir da sacada na sala. Imaginei que ali Gordo poderia vislumbrar um pouco do céu e as estrelas, luxo que não é negado a qualquer vira-lata. Para  ele  seria, como suponho, o supra sumo da felicidade, ânsia de liberdade, grito sufocado na garganta, sempre trocado por uma tijela cheia e afagos da dona.

Imaginei que sua (pré?) consciência aflorasse, entendendo o que fora feito com sua espécie durante séculos de domesticação e agrados. Mas como, gato castrado também tem estas ânsias? O certo é que ouvia um som  pungente, adivinhando que o afligia a falta da liberdade já desfrutada pelos felinos rugir em seu peito como algo que queimava, tirava-lhe o ar.  Pressentia nele o desejo de quebrar algo para ver se lhe entendiam, abrissem a porta para poder dar uns passeios, pois havia perdido a agilidade depois daquela operação, que lembrava como ferro em brasa.

Lembrava da dor nos dias seguintes e, sobretudo a tonteira depois que acordara, trançando as pernas ao tentar andar, ainda grogue depois daque injeção que o deixara da mesma forma que havia visto alguns humanos se comportarem após beber um líquido amarelo. Pareciam felizes a cantarolar, mas ele estava longe disso e, pior ainda, ouvia as risadas de seus donos ante suas tentativas de caminhar, caindo a cada nova tentativa, logo ele que sempre se orgulhara de seu elegante deslizar...

Acreditei tramar ele vinganças: subir na cama de sua dona e empurrar roupa e livros para o chão, rasgar  alguma coisa estivesse ao seu alcance, ah, se pudesse subir na mesa da cozinha, de onde já levara um bife inteiro! Eu pensava isto ao vê-lo dormindo na almofada, quando demonstrava através de estremecimentos, chiados e outros prenúncios de que em sonhos devaneava ser herói às avessas, vingador de sua espécie, tão mal entendida e humanizada ... E um deles estaria  ligado ao namoro imaginário com a gata da vizinha. E o pior de tudo é que, segundo soube, o encontro dos felinos deu-se no elevador, significando que ela está sob o mesmo telhado, o qual ele adoraria ter sob as patas,  enquanto deslizasse em sua direção, num antegozo de muitas delícias...

Uma noite, seus miados ficaram muito fortes, além dos ruídos que fazia jogando-se contra o parapeito da sacada, tentando alcançar o topo e caindo todas vezes. Há muito Gordo, na verdade um preguiçoso “tombelatte” no dizer de minha divertida amiga, treinava este salto imitando atletas que via na televisão, uma chatice colorida que sua dona assistia em sua cama à noite. Seu desprezo pelos humanos deve ter balançado um pouco, quando lá pela décima tentativa caiu novamente.

Mesmo assim haveria de conseguir e uma vez no parapeito, ninguém o seguraria, pois gatos têm sete fôlegos, e os seus, ah vida porcaria!, estavam ainda intactos. Dividido, cogitou se iria atrás de sua amada ou aproveitaria a liberdade, correndo pelas ruas, rasgando sacos de lixo, à procura de carne. Entregando-se a estas lembranças, deve ter recordado o único amigo de sua raça que já tivera, e o seu  fim faz com que estremeça: vira-o esturricado, com as patas para cima no jardim. Nas conversas dos humanos, deve ter sabido que em suas andanças pelos telhados, topara com um transformador, e a eletricidade o deixara assim. Ah, mas isto não aconteceria com ele, Gordo!

Sente suas pálpebras pesadas e olhando o céu percebe os prenúncios do novo dia, o piar de alguns pássaros, os felizardos anunciando a madrugada.  Mais que qualquer sono ou qualquer sonho, o sentido de dever o arrastou até a almofada na cama de sua dona, para quando ela acordar saber que ele  não a abandonara, como o sem caráter do marido havia feito.

Nada feliz com seu papel na vida, ele, um régio exemplar dos gatos de quem se fala maravilhas na Antiguidade e Idade Média, conselheiros e acompanhantes de princesas e bruxas medievais, com papel ativo e até preponderante em bruxarias e extermínios, preparou-se, olhos semicerrados, para o despertar da senhora quase absoluta de seu destino...

Um frear brusco fez-me emergir destas lembranças e devaneios, e ao virar, vejo o “gato” humano ao meu lado. Dorme profundamente, não acordando com a parada do ônibus ou comentários ao redor. Sobre ele o cobertor que lhe alcancei deixa ver uns tênis bastante usados, onde distingo garras muito estranhas a romper o tecido... Fico perturbada, decidindo procurar auxílio psicológico com urgência assim que chegar em casa.
Marluiza
Enviado por Marluiza em 13/08/2006
Código do texto: T215464
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Sobre a autora
Marluiza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
45 textos (1651 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 06:00)